Artur Marques (*)
Em meio à pressão crescente por práticas responsáveis quanto à pegada de carbono e agenda do clima, algumas instituições deixam de tratar a sustentabilidade como discurso e passam a incorporá-la, de fato, à operação cotidiana. É nesse ponto que a experiência da AFPESP (Associação dos Funcionários Públicos do Estado de São Paulo) desponta como um caso bem-sucedido e modelo possível de ser replicado no segmento de turismo e hotelaria.
A entidade tem demonstrado ser plenamente viável conciliar hospitalidade, escala e responsabilidade ambiental. Suas unidades de lazer, dedicadas à hospedagem de seus associados em destinos turísticos relevantes nos Estados de São Paulo e Minas Gerais, vêm sendo estruturadas com uma lógica que transcende o conforto dos hóspedes. Há um cuidado evidente com o entorno, os recursos naturais e o impacto gerado pelas atividades.
A gestão da água é um dos exemplos eloquentes dessa abordagem. Em um país que ainda convive com desperdícios e desigualdades nos meios de acesso, a existência de 30 poços artesianos, aliada a um rigoroso sistema de monitoramento com mais de 300 análises de água por ano, revela uma preocupação que não é superficial. Mais do que garantir o abastecimento, trata-se de assegurar qualidade, segurança e uso racional. A presença de 13 cursos d’água, 11 lagos, 10 nascentes e duas fontes sob administração da entidade amplia ainda mais essa responsabilidade, exigindo controle permanente e visão de longo prazo.
O tratamento de esgoto e o reúso reforçam o compromisso com o meio ambiente e lhe conferem escala concreta. O volume anual tratado, de 75 milhões de litros, o equivalente a 30 piscinas olímpicas, reduz impactos ambientais e corrobora a lógica da economia circular, em que resíduos e efluentes deixam de ser um problema de passivo ambiental e passam a integrar soluções ecológicas. Algumas unidades destacam-se nesse esforço: Serra Negra, com 1,5 milhão de litros por ano; Amparo (1,36 milhão); Areado (um milhão); Socorro (960 mil litros); Maresias (820 mil); São Pedro (540 mil); e Avaré (126 mil). Ao incorporar ainda dois sistemas de reúso de água, a AFPESP demonstra que sustentabilidade não é custo, mas investimento em eficiência. Soma-se a esse conjunto a recém-modernizada ETE de Boraceia, no Litoral Norte Paulista, que passou por ampla reforma para elevar a eficiência do tratamento e incorporar tecnologia de polimento do efluente, que será convertido em água de reuso destinada à mais nova unidade da AFPESP.
Essa visão estende-se à agenda climática, outro ponto em que a entidade avança de modo consistente. Seu Inventário de Emissões de Gases de Efeito Estufa, abrangendo desde a sede até as unidades de lazer, estabelece um diagnóstico preciso e, mais importante, orienta decisões. Em 2024, foram emitidas 2.822 toneladas de CO2 equivalente, sendo 74,4% diretas e 25,6% indiretas, relacionadas principalmente ao consumo de energia elétrica. Saber quanto se emite é condição básica para reduzir e a AFPESP parte de um indicador já favorável: suas unidades registram 4,7 quilos de dióxido de carbono equivalente por unidade habitacional/dia, praticamente metade da média nacional do setor hoteleiro, de 8,5 quilos.
Tal performance decorre da adoção de aquecimento solar, da gestão eficiente de energia e da manutenção contínua das estruturas, demostrando que há um esforço sistemático para otimizar recursos. Ao mesmo tempo, a preservação de 81 hectares de vegetação nativa, com capacidade de sequestrar 493 toneladas de carbono por ano, adiciona um fator relevante à estratégia ambiental. Em alguns casos, o saldo é positivo: a unidade Fazenda Ibirá, por exemplo, emitiu 42,32 toneladas, mas sequestrou 96,99 toneladas, alcançando emissões líquidas negativas.
O mais interessante, porém, é perceber que essas iniciativas não estão isoladas, pois compõem uma política integrada, que articula diferentes frentes (água, energia, emissões e biodiversidade) em torno de um objetivo comum: reduzir o impacto das operações sem comprometer a experiência dos hóspedes. A rigor, a sustentabilidade passa a ser parte do próprio valor entregue, influenciando a percepção de qualidade e pertencimento. Com projetos como o Nova Energia e o Raízes do Futuro, que incluem a adoção de fontes mais limpas e o plantio de 45.400 mudas, a entidade projeta reduzir até mil toneladas de dióxido de carbono equivalente por ano, cortar as emissões líquidas pela metade até 2026 e atingir a neutralidade em 2030.
Há, também, um efeito pedagógico que não deve ser subestimado. Ao frequentar ambientes em que o uso consciente de recursos é regra, o hóspede é convidado a rever hábitos e a levar esse aprendizado para além das unidades de lazer. Nesse sentido, considerando que a AFPESP tem 256 mil associados, o que significa um universo de aproximadamente um milhão de pessoas, conforme o porte médio das famílias brasileiras, as ações ambientais da entidade ultrapassam os limites institucionais e dialogam com a sociedade, contribuindo para uma cultura mais responsável.
Em um setor frequentemente identificado como consumidor intensivo de recursos naturais e energia, exemplos como esse mostram haver outros caminhos possíveis, nos quais a eficiência operacional, cuidado ambiental e experiência do usuário caminham juntos. Mais do que uma tendência, trata-se de uma exigência do presente e de uma condição essencial para o futuro.
(*) É o presidente da Associação dos Funcionários Públicos do Estado de São Paulo (AFPESP).
(RV&A oficina de comunicação)