Violência é genética?

0
207
José Renato Nalini

José Renato Nalini (*)

O ser humano é uma espécie paradoxal. Capaz do mais devotado altruísmo e também da mais cruel violência. Às vezes, o mais pacífico dos indivíduos, quando provocado, reage como primata. Afinal, somos civilizados ou selvagens? Pode ser que sejamos ambos a um só tempo.
O livro “Comporte-se: a biologia humana em nosso melhor e pior”, do cientista Robert Sapolsky ajuda a conhecer melhor a natureza do bicho racional. Não se propõe a desvendar o motivo pelo qual mães matam filhos, maridos matam mulheres e vice-versa, porque há carnificinas, crueldades inimagináveis com pessoas aparentemente sãs, infligindo maldades em vulneráveis. O que ele mostra é que o bem e o mal estão entrelaçados na mesma pessoa.
Parece de bom tom dizer que não se é violento e não se aprova qualquer exercício de violência. Mas isso é para o discurso. Quando se vê um filho agredido, então a violência vale. Reagir de forma semelhante, mas com sinal inverso, é o justo. O ofensor “merece” essa reação.
A ciência pode mostrar um mosaico de influências que faz o ser humano reagir de uma forma num episódio e de outra numa ocorrência análoga. Para isso servem a psicologia social e comportamental, a neurociência, a endocrinologia, a genômica, a antropologia e a arqueologia, a sociologia e a ética ou ciência moral. O humano é uma criatura provida de várias personalidades. A dupla personalidade é muito pouca para conter o cadinho e multiversidade de tons no comportamento da espécie.
A educação pode controlar os gestos mais incontidos e refrear os rompantes? Ajuda, mas não é milagrosa. Não é verdade que o estágio civilizatório evidencie uma ascensão na trajetória da humanidade, que os ufanistas presumem seja perfectível.
Isso parece servir para a demonstração de que o bicho-homem é surpreendente, quando encarado de frente e muito próximo, ninguém pode ser considerado “normal”. Ajuda a desenvolver a humildade e a adotar técnicas de controle, para que não haja irrupção intempestiva, causadora de desatinos, que justificam a existência do consistente arsenal da segurança e do sistema Justiça. Controlemo-nos!

(*) É Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Presidente da Academia Paulista de Letras– 2021-2022. (e-mail: [email protected])

Deixe uma resposta