João Baptista Galhardo
No dia 26 de julho, dia de Santa Ana, avó de Jesus, faz-se homenagem aos avós.
Minha sogra tinha o nome não muito comum. Genoveva. Alguns a chamavam carinhosamente de Bepa, mas para os filhos, netos, genros, noras e amigos de todos eles era simplesmente a vó. Ela mesma falava na terceira pessoa: “a vó vai fazer um bolo”, “a vó já passou dos setenta anos…”. Nos últimos quinze anos de sua vida morou em minha casa. Viu meus filhos crescerem. Foi um dos melhores corações que conheci até hoje. Bondosa, paciente, sempre bem humorada, simples e cheia de amor para dar. Vivia a felicidade feita de pequenas coisas. Todos os dias, na frente do oratório, ao lado da cama, com a imagem de Nossa Senhora Aparecida, segurando um crucifixo rezava por todos antes de dormir. Com a mesma paciência e atenção que participava de uma conversa com adultos, sentava no chão para jogar palitos e dama com os netos e os amigos deles. Era das crianças uma verdadeira amiga e cúmplice. Muitas vezes ajudava a ocultar eventuais peraltices. Contava histórias. Quase todas por ela inventadas. Com seus exemplos deu aos meus filhos inesquecíveis lições de vida. Especialmente de bom humor e de bondade. Com ela não havia tristezas. Escondeu até mesmo por muito tempo dores que sofria com um câncer que lhe obrigou a uma cirurgia cruel, com seqüelas nos membros inferiores, sem contudo impossibilitar sua locomoção. Mesmo assim era a pessoa amável e alegre de sempre. Minha companheira de uma taça de vinho e de cerveja que de vez em quando ela precedia de uma “vodga” (falava com “g”). Acho que não faz mal a vó tomar uma vodguinha antes, né? Tenho muitas histórias dela. Certa vez fui com ela de carro para Caraguatatuba. Íamos encontrar a família já na praia. Sentou no banco traseiro para facilitar o descanso das pernas. Entre os bancos um isopor com latinhas de cerveja e uns petiscos. Já na rodovia D. Pedro, um guarda rodoviário pede para encostar. Sem olhar para ela pedi que deitasse, pois já tinha improvisado uma desculpa. “Os documentos. O senhor ultrapassou a velocidade permitida”. – Eu sei, seu guarda, acontece que estou com pressa para chegar em São José dos Campos para levar minha sogra ao Pronto Socorro. “Ela não está passando bem”, disse. O guarda olhou para ela, depois para mim. Sorriu e disse “vai, vai embora”. Só entendi o motivo do sorriso quando virei a cabeça. Ela estava deitada, mas lendo fotonovela e tomando cerveja. Era comovente o amor de todos por ela. Quando de madrugada, o tempo mudava passando a ventar ou a esfriar, como se combinassem, os cinco filhos levantavam ao mesmo tempo e se encontravam repentinamente no seu quarto para ver se a vó estava coberta e agasalhada. E ela fingia não perceber o afago de cada um. Ela esnobou o câncer por doze anos. Tratada a amor até se esqueceu que havia passado por aquela dura operação. Mas o mal covarde estava oculto. Aproveitando momentos de fraqueza tomou conta dela de novo. Nova cirurgia e desta vez pior. Saiu dela, mas as seqüelas foram mais acentuadas que as anteriores. Mesmo assim tratada com dose simples de morfina e dose dupla de amor, sobrava disposição para enrolar suas balas de coco, fazer seu bolo de chocolate e a minha salada de pimentão assado. Um dia recebo uma ligação da Vera, minha mulher. “Venha logo para casa. Minha mãe quer falar com você em particular”. Ao anoitecer chego e vou ao seu quarto. Ela me diz: – a vó vai morrer, né? Eu falei: “claro, todos nós vamos. Só não sabemos o dia e como”. – Mas a vó tá no fim… – Não sei, respondi. O que é o fim? O que você quer falar vó? – Eu não tenho bens materiais. O que eu posso fazer por você, antes de morrer por tudo que me fez? Contive o choro e lhe disse: você acabou de fazer. Quantos genros já ouviram essas palavras de uma sogra? Aí ela abriu a mão e me deu o seu pequeno crucifixo com a inscrição conto contigo. Mudei de assunto. Abri duas latinhas de cerveja. Tomei um pouco de uma e coloquei uns goles da outra na sua boca. “Mas, a vó pode?”. Numa tarde o mal se agravou. Chamamos o médico. Este pediu que a internasse pois não agüentaria muito tempo. Internar? “É que ela vai morrer e vocês têm crianças”, responde o médico. – Não lhe disse?, lembra a vó. Ela está lúcida, vai morrer na companhia das pessoas que sempre a amaram. Dez horas de agonia e faleceu. Foi sua última lição de vida para os netos. No velório havia mais crianças que adultos. Faz vinte anos, mas seus olhos azuis brilhantes e um seu sorriso contido ainda estão presentes em todos os cantos da minha casa. Felizmente minha mulher, hoje também avó, herdou as qualidades da mãe. Sobretudo a sua simplicidade, o amor, a alegria e a bondade. O crucifixo conto contigo, ainda carrego comigo.