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Tributo à Lealdade

João Baptista Galhardo (*)

Quero mais uma vez falar do cão, o velho e fiel amigo do homem. Há anos a sua dedicação e amizade são louvadas em prosa, verso e filmes.

Homero (850 a.C) conta que Argos, o cão de Ulisses, não se entregou à morte com a esperança de revê-lo. E só ele, depois de vinte anos, reconheceu seu dono desfigurado e maltrapilho que voltava da Guerra de Tróia após suas aventuras e façanhas na Odisséia.

São inúmeros os registros e reconhecimentos dessa fidelidade. Eu mesmo tenho muitos.

É comovedor o registro histórico de Hachico ou Hachi com seu dono.

Essa história, lembrada no ensino primário do Japão para reflexão sobre o respeito e a amizade, tem início em novembro de 1923, quando Hachi nasceu na cidade de Odate, província de Akita. Ainda filhote foi enviado para a casa de seu futuro proprietário, o Dr. Eisaburo Ueno, Professor do Departamento Agrícola da Universidade de Tóquio. Numa espécie de amor à primeira vista tornaram-se amigos inseparáveis. Há quem diga que o cão Akita tem o dom de escolher o seu dono. E não o contrário.

O Professor morava em Shibuya, subúrbio de Tóquio, perto da estação de trem do mesmo nome. Como se utilizava desse veículo como seu meio de transporte diário até o local do trabalho, já era rotina Hachiko (Hachikinho) acompanhar seu dono todas as manhãs. Caminhavam juntos, brincando, o percurso que ia de casa a estação. Pontualmente Hachi retornava às 15 horas à estação. E numa pequena praça em frente aguardava o Professor, que desembarcava do trem da tarde, para acompanhá-lo no trajeto de volta para casa. Com ele abraçado, assistia televisão comendo pipocas num mesmo recipiente. Em muitas manhãs acordavam lado a lado.

Em 21 de maio de 1925 Hachi numa intuição de amigo pressentiu algo trágico.

Por todos os meios procurou impedir a ida do Professor ao trabalho. Foi até a estação com uma bola de borracha na boca para persuadi-lo a não pegar o trem. Não conseguiu. E com lágrimas nos olhos viu seu dono partir. Hachi, como de costume foi esperá-lo à tarde e ali ficou até altas horas da noite olhando para a porta de saída da estação.

O professor, de derrame súbito e fulminante, morrera na sala de aula.

A família mudou para outra localidade. Mas Hachi fugiu para, todos os dias, esperar o Professor no mesmo local e hora.

O caso ficou famoso. Hachi virou atração turística. Principalmente com a notícia publicada na edição de 4 de outubro de 1933 do jornal Asahi Shimnbum: "Por anos velho e fiel cão espera pelo retorno do dono". Durante todo esse tempo dormia sob vagões estacionados. Alimentava-se com o que lhe davam. E quando ouvia o barulho de um trem corria para o mesmo lugar e se postava a espera do Professor. Aguardava sob nevasca, sol ou chuva. Mal se alimentava. Com artrite e caminhando lento, andava pelos trilhos na esperança de encontrar o seu dono.

No mesmo lugar onde diariamente aguardou por dez anos o retorno do Professor, lembrando os bons momentos de sua convivência com ele, Hachi com o corpo coberto por cristais de gelo, olhou pela última vez para a chegada do trem e morreu na noite de 8 de março de 1935. Acredita-se. E por que não? Que imediatamente o Professor, saindo pela porta da estação, veio buscá-lo para continuarem felizes na eternidade.

Aquele cão branco da raça Akita, empalhado e tratado com substâncias químicas que evitam sua decomposição, está exposto para visitação no Museu de Tóquio. No mesmo local, onde por anos aguardou todos os dias o retorno do amigo, foi-lhe erguida uma estátua que ainda lá se encontra.

Eu escreveria sob seus pés:

A lealdade é o caminho mais curto entre dois corações.

(*) jbgalhardo@uol.com.br

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