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Sexta, 13: Sérgio Ferrara no teatro

Sérgio Ferrara é um jovem diretor de teatro que, aos 37 anos, traz uma bagagem que vem da época de faculdade, quando cursava História na USP e formou um grupo teatral. Fez parte do Centro de Pesquisa Teatral, de Antunes Filho. Em 96 montou sua primeira peça, em 97 convidou Paulo Autran para sua montagem de Antígona. Em 98 montou Barrela e não parou mais. Em seu currículo conta, entre outras distinções, com o prêmio de melhor diretor de teatro, concedido pela APCA em 2000 por Pobre Super-Homem. Agora está em cartaz com a peça “A Última Viagem de Borges”, sobre o universo borgiano com seus espelhos, labirintos, magias e toda a complexidade e mistério que cercaram a vida e obra desse escritor. Com um elenco de primeira, encabeçado por Luiz Damasceno, o mote é a procura pela palavra perfeita, criada e esquecida. E saem todos numa viagem em direção a Biblioteca de Babel. Nessa viagem somos seduzidos e nos identificamos, leitores ou não de Borges, com pessoas, frases, situações e anseios. A idéia da peça surgiu de uma conversa com Maria Bonomi. Com uma idéia na cabeça foram em busca de um autor. Elegeram Ignácio de Loyola Brandão para redigir o texto. Foi um desafio e tanto para Loyola que ainda não havia escrito para teatro. A peça que ficou no Sesc capital (com sucesso extraordinário) estará nesta sexta-feira (13), no Teatro Municipal de Araraquara. É imperdível!

Sérgio Ferrara, por indicação da Sarah Coelho, recebeu a reportagem do JA minutos antes do espetáculo. Observando-o em seu ambiente de trabalho, nota-se que está em seu elemento. Sempre com leveza e bom humor, sem perder a autoridade, passa ordens, checa modificações solicitadas, acrescenta detalhes no decorrer da temporada. Mas, sobretudo, percebe-se que há uma alegria e um prazer imenso que emanam dele e contagiam a equipe e, em última instância, o público. É com esse rapaz, sério em seu sorriso largo, generoso no doar o conhecimento que tivemos a seguinte conversa:

JA – Como surgiu a idéia da peça sobre Borges?

S.F. – Quando surge a idéia vem uma necessidade de falar algo verdadeiro e não precisa ter uma visão geral da coisa. Como quando você conhece uma pessoa e se apaixona. Você sabe que quer ficar ao lado daquela pessoa, mas não tem idéia de como será a vida ao lado dela. No primeiro momento vem a paixão e depois vem o amor. Então vem o desejo de fazer a peça, depois reunir as pessoas e, mais do que isso fazê-las se apaixonarem pelo projeto do mesmo jeito que você se apaixonou. O bom é isso, você não ter tudo na cabeça no início, para quando chegar a Maria Bonomi, o Caetano Villela na luz, o Ignácio de Loyola no texto a gente ter a idéia e fazer, porque eles também vão pensar sobre o projeto. É um conceito taoísta, você faz e é feito. Todo mundo chega para compartilhar. Não é um caos, é até muito reconfortante. É uma via de mão dupla, aonde todos que chegam contribuem para o produto final.

A peça estréia, saem as críticas. Como elas são trabalhadas, sejam favoráveis ou não, para evitar reflexo no próximo espetáculo?

Eu não vejo o teatro como um processo finito. Eu cresci mais nas coisas que não acertei do que nas que acertei. As coisas precisam de um tempo para amadurecer. É um processo de entendimento. Vivemos numa sociedade onde a busca do resultado é muito mais importante do que a compreensão do que se está vivendo. É claro que isso afeta as pessoas, porque elas estão muito ansiosas, solitárias, então é comum que quando aconteça uma crítica desfavorável a pessoa se sinta menos amada. Atores são suscetíveis, mas isso de forma alguma tira a capacidade de refletir e crescer. Não é porque você estréia que o produto esteja acabado. Ele está sempre crescendo, se alimentando de uma possibilidade de ser maior no sentido humano. Eu sei que vou fazer isso minha vida inteira, independente do que as pessoas vão falar. Todo mundo quer ser o carro alegórico que vai à frente da escola de samba. Mas isso é uma bobagem, o que conta é você passar pela avenida e sentir a alegria das pessoas.

Na peça nota-se uma “assinatura autoral”. Há uma unidade que não permite pinçar este ou aquele elemento.

A função do diretor é harmonizar todos os elementos do teatro. Ele precisa ficar distanciado. Tem uma idéia, todo mundo vai falar sobre e, a partir do que as pessoas falam, ele tenta harmonizar dentro do que seria um eixo central do espetáculo, o “a que veio”. Como todos são muito criativos, as idéias brotam. Dentro disso o diretor vai selecionar o que vale a pena colocar nesse processo ou não. Não faço teatro para ser bom ou ruim. Faço teatro para estar vivo. Não existe ator bom ou ruim, mas ator vivo ou morto. E aí o ser bom está incluído no estar vivo. Senão a gente começa a comparar arte como compara comida. Eu leio muito Sufismo e Budismo, e o Sufismo diz que a Arte é o equilíbrio entre a percepção e a concepção. Esse é o maior desafio nosso. Como entender a vida através de uma percepção depurada, humanizada, profundamente mergulhada na realidade que te dá condições de não ser melhor nem pior que os outros, mas ser alguém. Isso é a percepção e a concepção é um outro processo. Muitas vezes o que você tem na cabeça, quando coloca em cena, não é o que pensava. O que está em cena é como eu vejo o mundo, como eu me penso. E isso tenho que burilar não para fazer um “bom teatro” mas para poder viver melhor com as pessoas. Arte é um ofício, como todas as profissões. Ninguém é melhor. Enquanto eu queria ser um diretor de teatro conhecido, as coisas não deram certo. No dia em que parei e resolvi fazer as coisas que me davam vontade, aí deu certo. A idéia que eu tenho é daquela peneira de café, pendurada que o vento bate. Nós somos a peneira. Quando o vento bate, como ela é furadinha, ele passa e você sente o vento. Às vezes vem uma folha seca e se choca, ou um pássaro morto e você vira a peneira, bate para aquilo cair e volta à posição inicial para receber o vento. O que interessa é o que nós vivemos, o resto é silêncio, como dizia Shakespeare.

Você é um diretor premiado, com reconhecimento público e de seus pares. Isso abre portas?

O reconhecimento é bom, porque ele dá condições de ampliar as possibilidades de falar a um número maior de pessoas. Continuo falando exatamente as mesmas coisas que falava antes de ser conhecido, só que agora as pessoas prestam mais atenção ao que digo. Patrocínio ainda é difícil, mas pelo menos agora a minha credibilidade é um pouco maior. Fica mais fácil viabilizar os projetos. Não conseguiria fazer um espetáculo como esse do Borges se não tivesse ganho o prêmio APCA de melhor diretor em 2000, se não tivesse sido professor convidado da EAD (Escola de Arte Dramática da USP). Já existe um público que vem ao teatro com a única referência de que é uma peça dirigida por mim, mesmo sem saber do que se trata. Isso é muito gostoso, porque eu mesmo faço isso com filmes. Vou ao cinema para ver um filme do Carlos Saura, do Bergman, do Fellini, porque independente do que ele fizer, quero ver como esse diretor lida com a idéia.

Um espetáculo teatral mostra relações em grupo, começando por quem trabalha nele e continuando com o público. Como você pensa esses relacionamentos?

Fazendo teatro exponho minha forma de enxergar a vida e de me enxergar. Penso na vida comigo dentro dela, porque ela só existe porque estou vivo. É uma possibilidade de enxergar o mundo e de trazer pessoas. Primeiro os atores, depois o cenógrafo, maquiadores, figurinista, o iluminador e depois trazer o público, juntar todo mundo e vermos algo diferente. É uma mágica, uma alquimia, conseguir juntar todos e transformar. Tem muita gente que vem assistir à peça e não vem falar comigo. Mas entro em contato com elas em outro nível, num momento de sensibilidade, de uma consciência artística e sei que aquela pessoa pode sair daqui transformada. Não preciso saber quem é ela. Que bom que eu não saiba porque assim meu ego não fica suscetível a receber elogios. Pelo contrário, é essa a verdadeira interação.

Essa é uma forma muito particular de pensar “a fama”…

Quando vejo as pessoas muito preocupadas com a fama eu tenho medo. O reconhecimento não tem que vir da fama, mas sim da auto-satisfação. Saber que estou contribuindo para um mundo que está cada vez mais caótico. Se você não acordar pela manhã e disser “hoje preciso compartilhar alguma coisa com alguém e, se não me amarem, vou continuar amando, se me fizerem mal vou continuar fazendo o bem”, não pensando assim estará tudo errado. Não é fácil, porque o ser humano é muito egoísta. Mas temos que acordar todo dia e pisar no ego. Isso não pode ser feito de uma forma romântica boba, demagógica, mas sim realista e verdadeira.

Como se nota, não dá para não ir ao Teatro Municipal de Araraquara para interagir com essa gente que tem o que dizer, acenar e focar gente na gente. Obrigado pela entrevista e até sexta. A gente quer mergulhar nesse sonho que se torna realidade a cada apresentação, certo?

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