Humberto Gouvêa Figueiredo (*)
Um doutorando da Universidade de São Paulo (USP) concluiu um belíssimo trabalho de curso, que teve como tema o que chamou de “seres invisíveis”.
O pesquisador, cujo nome não me recordo, durante oito longos anos passou uma parte do dia exercendo a função de faxineiro na USP e, nesta condição se relacionou, dentro do que lhe era permitido, com a comunidade acadêmica, no transcorrer de toda a sua pesquisa.
Na outra parte do dia ele era um universitário normal, que assistia às aulas, mantinha contato com seus professores e escrevia a sua tese de doutorado.
Em síntese, a sua conclusão foi a de que, incorporando os dois papéis, era somente reconhecido socialmente quando agia como aluno; na condição de faxineiro era ignorado por todos – ninguém lhe dirigia a palavra para sequer lhe cumprimentar através de um simples “bom dia!”.
As mesmas pessoas que não o enxergavam quando ele incorporava o papel de trabalhador braçal, no período oposto, ao encontrá-lo na figura de um universitário, dispensava-lhe tratamento diferenciado, tratavam-no como “gente”.
A tese é realmente muito interessante e nos remete à realidade que vivemos, e da qual não nos damos conta, mas que, creio, seja indiscutível: temos e produzimos muitos “seres invisíveis” entre nós!
Eles estão próximos e são frutos da arrogância e da prepotência que impera na comunidade da qual fazemos parte, e que privilegia sempre o TER em detrimento do SER.
Os faxineiros, lixeiros, catadores de papel, carroceiros, entre outros, continuam sendo “seres invisíveis”, tal qual foi o “doutor” durante os oitos anos de curso na USP.
Mas ainda mais grave, os nossos pobres, doentes terminais e idosos também, à luz do coletivo, são “seres invisíveis” na medida em que são excluídos de uma série de possibilidades na sociedade e privados de muitos de seus direitos – alguns até previstos na letra fria da lei, mas não aplicados.
Ninguém individualmente produz “seres invisíveis”: eles se constroem no inconsciente coletivo e, depois de consolidados, levam muito tempo para serem reconhecidos.
Ora, se somos todos iguais, ainda que teoricamente na Lei dos Homens, e incontestavelmente na Lei de Deus, porque as pessoas se diferenciam tanto, chegando ao cume de ignorar aqueles aos quais o destino não foi tão grato?
Buscar essa igualdade, dando visibilidade a todos, independente da atividade profissional, da cor da pele, da quantidade de dinheiro disponível no bolso ou no Banco, do sexo ou da idade, é um dos principais (se não o fundamental) passos para a construção de uma sociedade mais justa e com menos violência.
(*) Capitão da Polícia Militar