Texto de J.G.De Nardi
O conhecimento do contexto social em que nasceu Rotary torna mais fácil a compreensão de seus objetivos e de sua organização. Rotary, a entidade que ganhou foros internacionais, foi fundado há cem anos, por Paul Percy Harris, americano nascido na região central dos Estados Unidos, Estado de Wisconsin. Homem simples, que cresceu enfrentando sérios percalços, a partir dos três anos de idade, quando, por dificuldades financeiras de seus pais, passou a morar com seus avós paternos, embora já moço, bendissesse a educação e a formação que recebeu de um lar tranqüilo, onde imperava a ordem, a afeição, moldando seu caráter. Aprendeu como orientação de vida, que deveria se esforçar no trabalho, viver decentemente, ser tolerante e bom. José Soares Bilharinho, brilhante autor rotariano, assinala que “foi um menino irrequieto e dado a constantes travessuras, porém, inteligente e amante da natureza”. Estas travessuras o levaram, na adolescência, à expulsão de uma escola e, mais tarde, à mesma punição na Universidade, mas por uma falta que não cometeu, e por isso mereceu a plena retratação por parte de seus superiores. Sua formação escolar termina com a diplomação em direito, pela Universidade de Iowa City.
Sensibiliza e impressiona, entretanto, nesta biografia singular, o que decidiu pôr em prática antes de iniciar sua vida profissional. Movido por “interesse absorvente por conhecer a maneira de ser dos homens, tanto de seu país, como de outras terras, realizou a “louca aventura” de viajar pelos Estados Unidos, Inglaterra, França, Suíssa, Holanda, Bélgica, Irlanda, Itália, Áustria, Cuba e Bahamas. Esta experiência, aliada à sua formação e às idéias que detinha sobre as diretrizes que deveriam presidir o relacionamento humano, enriqueceram sua visão do homem e amadureceram estratégias de ações que poria em prática, mais tarde, na fundação do Rotary. O cadinho de experiências envolvido nesta viagem ampliou-se deveras pelo trabalho em múltiplas atividades, tanto intelectuais, como manuais, a que se obrigou, com a finalidade de atender suas despesas. Ao longo da viagem trabalhou como repórter, professor, empacotador de frutas, vaqueiro, caixeiro viajante, vendedor de mármore, tratador de gado, cortador de feno, enfardador de cereais, recepcionista de hotel e ator numa companhia de teatro. A peregrinação durou cinco anos, registrando momentos em que passou fome e teve que dormir ao relento; porém, o saldo que animava Paul Harris era o aprendizado que lograra obter sobre o que era a vida e o homem..
Aos 28 anos de idade, após a viagem, resolve se estabelecer em Chicago, onde instala seu escritório de advocacia. No final do século 19, Chicago se caracterizava como uma cidade de aventureiros, o centro de pioneiros que passavam rumo ao oeste em busca de riquezas; havia pouco respeito à ética, dominavam a ambição, a corrupção e a insegurança. As pessoas se sentiam solitárias, os profissionais liberais não se aproximavam.
Neste ambiente de solidão, de insegurança, de desrespeito e intolerância, imposto pela sociedade conturbada de Chicago, despontou na mente de Paul Harris, idealista, honrado, honesto, ético e de sentimentos humanísticos, a idéia de estruturar uma associação de profissionais e homens de negócios, que se congregassem como verdadeiros companheiros e fossem norteados pela coragem de enfrentar opiniões alheias da sociedade hostil, com acendrada cooperação mútua.
Assim, a 23 de fevereiro de 1905, Paul Harris convidou três homens de negócios, um comerciante, um engenheiro de minas e um alfaiate, que se reuniram pela primeira vez com aqueles propósitos. Estava fundado o Rotary (nome adotado porque as reuniões eram feitas em rodízio nos escritórios dos participantes). A partir daí, ganhou estrutura, novos sócios, novos clubes, novos países, que em amplitudes cada vez maiores, sensibilizou adeptos e participantes, irmanados pelo sadio companheirismo, pela idéia de construir uma sociedade mais fraterna e humana, pela disposição de lutar pela paz. Está presente hoje, em 166 países. Seu fundador se consagrou como uma personalidade mundial, reconhecido pela participação efetiva em obras filantrópicas e pela liderança em atividades profissionais. Foi condecorado em vários países com as mais altas comendas, como a de Oficial da Legião de Honra da França, a Ordem do Mérito no Chile, a Ordem do Sol no Peru, e finalmente, a Ordem do Cruzeiro do Sul, em suas andanças pelo Brasil. Paul Percy Harris tornou-se pela obra humanitária de unir os homens e voltar-se para as necessidades do próximo, um exemplar cidadão do mundo.