João Baptista Galhardo
Joaquim e Manoel resolvem ir ao médico. O primeiro foi atendido. – Doutor toda vez que tomo um gole de café sinto uma pontada no olho esquerdo. Já tomei muitos remédios, mas não encontro solução. Depois que ele explicou como bebia, o médico lhe disse: experimente tirar a colherinha de dentro da xícara. Atendido o segundo, pediu-lhe o médico ouvindo seus pulmões: – Manoel diga 3 vezes 33. E o cliente quieto. – Diga 3 vezes 33 e o Manoel pensando. O médico insistiu e ele disse: 99. Quando se conta algum caso de humor ou anedota, para simples entretenimento, mesmo insinuando ser o personagem desta ou daquela nacionalidade, não se tem a intenção de agredir quem quer que seja. Rir ou ter bom humor não é pecado. Meu pai nascido na Espanha contava muitas histórias dos castelhanos. Falava que um espanhol, muito teimoso, o que é pleonasmo, entrou num armazém e vendo uma barra sobre o balcão, pegou o canivete, cortou um pedaço e colocou na boca. Foi imediatamente avisado pelo comerciante que não se tratava de rapadura. Era sabão. Com a boca espumando e para não dar o braço a torcer disse: “tem gosto de sabão, mas que é rapadura é rapadura”. Contava, também, que seu compadre, Miguel Salada, meu padrinho de crisma, comprava todos os dias o jornal mais volumoso da cidade. Tinha dupla serventia. Depois de se atualizar com as notícias, cortava as folhas em quatro ou mais pedaços que eram colocados num gancho ao lado do vaso sanitário para servir de papel higiênico. Um dia a mulher lhe disse: “se parar de comprar o jornal, economizaremos para comprar um rádio”. E o marido respondeu: si, después me limpio con la antena? E o judeu? Muito doente, chamou o filho mais velho e lhe pediu que pegasse no cofre o relógio de ouro e diamante: “veja filho, esse relógio meu bisavô quando estava morrendo, deu para o meu avô. Meu avô nos últimos minutos de vida deu para o meu pai, que deu para mim pouco antes de falecer. É uma jóia valiosa. Você quer comprar?” O bom humor não ofende ninguém. Ofensa é ser mal-humorado. O humor é a mais sagrada experiência da vida. Até mesmo quando se conta histórias de animais, não há qualquer agressão a eles. É apenas brincadeira. Ficção. Como os que viajaram no andar inferior da arca de Noé. Muitos dias na água, viagem longa, vieram o tédio e o cansaço. O leão subiu numa mesa, cruzou as pernas e alisando a juba com aquela arrogância que lhe é peculiar, chamou os bichos e começou a ler um manual sobre a arte de fazer amor, uma espécie de Kama Sutra. A bicharada ficou excitada. O macaco, muito sacana, misturou na comida deles folhas de losna (absinto), flor de trombeta e alecrim, acreditando nos seus efeitos alucinógenos e os afrodisíacos amendoim, ovo de pata e de codorna. A festa pegou fogo. Começaram com a dança do acasalamento. De repente a tartaruga, quem diria, sempre tímida e acanhada, resolveu fazer um strep tease. Saiu do casco e ficou peladinha rebolando a dança do ventre no meio da roda. Liberação total. O galo realizou seu sonho com a ema. A elefanta sentou no colo do mico leão dourado. O veado, doidão, querendo imitar a borboleta, se esborrachou no chão. O gorila, exibicionista mostrava a genitália para as fêmeas. A girafa, que não ri chorava num canto por não conseguir realizar o fetiche de transar com o porco espinho. Os papagaios falavam palavrões. A coruja com os olhos arregalados. A cigarra cantava feita uma louca: “abra suas asas, solta suas feras, caia na gandaia, entre nesta festa”. O coelho foi recordista em número de transas. O orangotango andou de lambreta com a cabra. O morcego sempre com raiva aproveitou a farra. Deixou o regime de lado e deu uma chupada geral na turma atordoada. A zebra se emocionou com os carinhos do crocodilo. Arrepiava com as mordidas que lhe dava no pescoço. Noé, no andar de cima, ouvindo aquele barulho, foi checar. O macaco vigiava a porta. Quando Noé apareceu foi avisado: “não entre que você vai se arrepender de ter salvo os bichos”. Empurrou o porteiro, entrou e colérico com aquela troca-troca de casais disse aos berros: – O mundo acabando em água e vocês numa safadeza dessas! O que vai nascer desse acasalamento maluco? Vocês deveriam ser mais responsáveis. Façam pelo menos como o jumento que está usando camisinha. Não é camisinha não, disse o macaco rindo. – Olhe bem. Ele tá é “transando” uma cobra.