João Baptista Galhardo
Se eu morrer de repente, dê uma atenção à minha família. Foi a ligação que recebi de um amigo que acabava de sair de um consultório médico em São Paulo. Ele foi a um escritório de advocacia e no mesmo andar viu a placa de uma médica especialista em imunologia. Disse que era do interior e conseguiu ser atendido na tarde do mesmo dia. Queria apenas se consultar sobre a rinofaringite alérgica que o perseguia. A médica, sem muitas perguntas, mandou que mostrasse a língua. Mostrou. Xiiii pela sua língua percebe-se que muitos dos seus órgãos não andam bem. Olhou seus olhos. Xiiiii pelos olhos você não está legal. Depois de muitos Xiiiiissss mediu a sua pressão. Nossa você precisa ser desligado da tomada. Pegou o receituário. Foi escrevendo e falando: você vai fazer eletrocardiograma, eletroencefalograma, ultrasson abdominal, do tórax, radiografia da face, PSA, esteira, exame de urina colhida cedo, à tarde e à noite, fezes, glicose, triglicérides, colesterol, zinco, etc., HIV. Aids Doutora?
Sou casado há quinze anos. Nunca traí minha mulher.
Não tem importância, às vezes demora para aparecer.
Foi dali que ele saiu derrubado e me telefonou. Não voltou para o interior. Ficou na casa de um irmão. Levou dez dias para fazer todos os exames. Mais dez aguardando o laboratório. Nesse período de angústia quase morreu de infarto. Pensou em fazer testamento. Emagreceu. Empalideceu. Começou a andar devagar. Subir escadas nem pensar. Parou de tomar o seu vinho. Os exames ficaram prontos. Não teve coragem de dar uma olhada. Levou para a médica que analisou um por um e lhe disse:
Caramba você está com a saúde excelente. Olha só o seu colesterol. Que triglicérides! Difícil ver exames tão bons assim. Parabéns. Vamos medir sua pressão. Doze por oito. Excelente. Quanto à sua alergia vamos fazer uma vacina que tomada por certo tempo, vai erguer o seu sistema imunológico e logo não terá mais rinofaringite.
Depois, realmente, meu amigo se curou, revelando tratar-se a médica de excelente profissional, embora com a sutileza de um rinoceronte. Os profissionais precisam tomar cuidado com o que falam. Dependendo do que lhe perguntam e tendo em vista a especialidade de cada um a resposta passa ser a verdade para o cliente, podendo provocar preocupação e constrangimento desnecessários. Alguns desses especialistas traçam um padrão de comportamento e perdem a prudência e a sensibilidade com aqueles que lhes consultam profissionalmente. Outro amigo apareceu num congresso de Direito, com um pé descalço. O dedão do pé esquerdo parecia uma lâmpada vermelha de árvore de Natal. Aconselhado foi ao médico.
Tem antecedentes na família? Sei lá se alguém já teve unha encravada, disse o “Alemão” ao doutor. Você precisa emagrecer. Comer muita verdura. Doutor eu vim aqui por causa da unha. Você precisa andar bastante todos os dias. Com essa unha ? Doutor um amigo costuma dizer que se andar fizesse tão bem, os carteiros morreriam com mais de cem anos. Até que enfim foi-lhe arrancada a unha, amenizando de vez a sua dor. Todos os profissionais, sem exceção, devem ser hábeis e cautelosos nas suas recomendações, manifestações ou respostas. Principalmente o da saúde, uma vez que há mais doentes do que doenças. A maior parte das enfermidades está na cabeça do paciente. O que o médico lhe diz passa a ser verdade irrefutável. Quem ouviu não aceitará contestação. Um ônibus que removia os loucos de um manicômio para outro tombou. Muitos morreram. Outros ficaram feridos. Mandaram abrir uma vala para ali mesmo enterrarem os mortos. Um médico que viajava com eles pediu a ajuda de um louco, dizendo-lhe: vou examinar um por um. O que eu falar que está morto você joga no buraco. O que eu falar que está vivo você pega com cuidado e põe ali na margem da estrada para ser tratado. E assim foi. Morto, vala. Vivo, margem. Aí, um que o médico havia dado como morto, já nos braços do louco, disse “eu não estou morto, me solte”. O louco não quis nem saber. Atirou o ferido no buraco, dizendo “você quer saber mais que o médico?”.