Antonio Delfim Netto (*)
Não há dúvida que a queda dos preços dos produtos agrícolas está contribuindo fortemente para a redução do ritmo da inflação no Brasil. Esse efeito na inflação acontece não apenas porque os preços dos nossos produtos básicos da alimentação, em especial a soja, milho e arroz caíram lá fora mas também em decorrência do aperto monetário interno. Quando o COPOM decidiu manter a taxa SELIC em 19,75% semana passada muitas pessoas acreditaram que era um prenúncio de queda da taxa real mas na verdade, como a perspectiva da inflação caiu, o juro real daí resultante subiu para 14% ao ano. O elevado nível da taxa de juros é que mantém a valorização do Real, hoje a moeda mais valorizada do mundo. Os efeitos dessa valorização mais a queda de preços atingem brutalmente a economia agrícola que já vem sofrendo com a seca nos estados do sul e com a demora nas decisões do governo de liberar recursos de emergência para as regiões atingidas.
O Ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, ele mesmo um produtor, reclamou recursos desde o final do ano passado, mas só agora eles começaram a ser liberados, depois que o agricultor perdeu suas máquinas, fábricas de implementos paralisaram a produção e os municípios flagelados decretaram o estado de calamidade. Os agricultores que ainda não foram abatidos vão ter muita dificuldade para sair dessa situação porque a venda das colheitas aos preços atuais não será suficiente para cobrir os custos de produção. É fácil ver que as contas não fecham porque os insumos que entraram nos custos das lavouras (fertilizantes, adubos, corretivos, etc) foram comprados quando o dólar era cotado a 2 reais e 80 ou 2,85 e agora terão que vender a produção com o dólar a 2,40 ou 2,50. A queda no valor da produção vai obrigar o produtor a novamente enfrentar aquele ciclo de inadimplência, renegociação de dívidas, a tragédia que se repete diante da incapacidade dos governos de se anteciparem ao problema apesar de facilmente previsível.
Com os preços dos alimentos em queda, o que é bom para os consumidores este ano é ruim para o produtor este ano e nos anos seguintes. Provavelmente já será ruim também para o consumidor no ano que vem, pois haverá redução da área plantada e obviamente menores colheitas. Significa problemas de abastecimento e preços pressionando a inflação.
O Ministro Rodrigues calcula que as perdas da safra 2004/2005 somam 10 bilhões de dólares que deixarão de irrigar a economia no campo, exatamente o setor que tem conseguido manter o crescimento do Produto nos anos de fraco desempenho da indústria. O que deixou de ser liberado para socorrer o setor na época adequada é menos do que 10 % disso.
(*) e-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br