Alan Fernandes (*)
Recentemente, um filme contabilizou um dos maiores públicos do cinema nacional. O filme que conta a trajetória do ídolo Cazuza foi assistido por milhares de pessoas. Sem entrar no mérito da qualidade, o filme me fez refletir sobre uma coisa que há tempos vinha me questionando: “perdas”.
Sim, esse mesmo filme me fez refletir que, definitivamente, não estamos preparados para as perdas. Fomos (somos) educados, desde muito cedo, para vencer, vencer, vencer… Uma espécie de hino do Flamengo. Recordo-me, vagamente, de ouvir alguém me falar:
– “Você nasceu para ser vencedor”.
Que ganhar é bom todo mundo sabe. Quem não gostava de ganhar os jogos na escola… um presente de Natal… Aquela bicicleta que tanto sonhou… O videogame. O primeiro beijo, a primeira nota alta, passar no vestibular, o primeiro emprego, a primeira namorada, e por aí vai… Uma infinidade de desejos e conquistas.
O “X” da questão é que de tanto almejarmos as vitórias nunca paramos para refletir sobre as derrotas. E o sucesso que o filme está fazendo nos prova justamente isso. Há pouco, o Brasil foi representado por vários atletas nas Olimpíadas (muito bem, por sinal). Ganhamos medalhas e isto foi bom. Mas, acontece que os únicos atletas que lembramos são os que ganharam medalhas, principalmente as de ouro.
Ninguém ligou a televisão para ver a Daiane dos Santos competir, ligamos para vê-la ganhar. Somos egoístas. Daiane se recuperou de uma lesão no joelho e o simples fato de vê-la saltando já devia ser motivo de orgulho para a nação brasileira. Mas não! Se não ganhar, não valeu a pena.
Esse condicionamento por vitória nos faz mesquinhos. Pensar, cada vez mais, no “eu”. Eu tenho, eu ganho, eu posso, eu compro… Quando alguém parte da nossa vida, muitas vezes “até para melhor”, não nos importamos. Queremos a pessoa perto de qualquer maneira, não estamos preparados psicologicamente para perdê-la. Não queremos que vá. A sensação de perda nos faz impotente.
Até hoje, veneramos e tornamos pessoas imortais porque não conseguimos admitir o fato de que se foram. Prova viva disso é Cazuza. Tenho certeza de que 50% das pessoas que assistiram ao filme, nem gostavam dele tanto assim. Muitos nem sabiam quais eram suas músicas. Mas precisamos vê-lo. Não podemos aceitar que se foi. Não mesmo. Vários outros permanecem e irão permanecer.
Pessoas nascem a todo o momento e, quando isso acontece, é motivo de festa. Mas não podem morrer. Isso não. Perdeu a namorada? Você não morre porque não vive sem ela, mas, sim, porque não aceita vê-la com outro.
Esse poder de posse faz com que nos tornemos mesquinhos. Passamos a amar mais as coisas do que as pessoas. Posso ver um enfermo gritando de dor, mas não posso aceitar que ele se vá. Vou me revoltar com Deus. Vou querer saber porque tirou ele de perto de mim.
Temos exemplos claros. Ninguém consegue aceitar que os tempos evoluíram. Chaves ainda é sucesso de audiência (não podemos perdê-lo). Os desenhos ainda são os mesmos de trinta anos atrás. Raul Seixas nunca vendeu tantos discos, e assim por diante. Não estou questionando méritos, fique bem claro!
Isso prova que Elis Regina, mais uma das imortais que não aceitamos perdê-la, estava certa quando disse: “Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo que fizemos ainda somos os mesmo e vivemos como os nossos Pais”.
(*) Alan Fernandes é estudante de jornalismo, repórter da Rádio Uniara e colaborador deste jornal. (alanf.b@ig.com.br)