João Baptista Galhardo (*)
Mendigo é aquele que vive de esmola. Além de obter com dificuldade os meios necessários para viver, foi sempre um perseguido pelo destino. E por todos. Em Roma, no tempo dos imperadores Graciano, Valentiniano e Teodósio (Codex, 1.II, t. 25), quem denunciasse um mendigo tinha o direito de fazer dele o seu escravo. O mendigo de rua só vira notícia de jornal quando alguns deles são assassinados. E de forma brutal. De chamar a atenção. Porque se for com incêndio no cobertor, que pode simular acidente ou com pinga envenenada, passará despercebido. Quem vai fazer necrópsia num mendigo ? Há muita gente boa de coração dando-lhe um prato de sopa, mas nenhum órgão governamental procura tirar do mendigo o mendigo que ele tem por dentro. Recuperar a sua identidade. E quando vira manchete aparecem políticos para eleger culpados: “a culpa é sua. Não, é sua”. A autoridade que ao mesmo tempo não acha tanta hediondez no crime hediondo, propondo alteração da respectiva lei, oferece os préstimos para prender o assassino. De três hipóteses, acontecerá uma. Primeira: não conseguirão achar o assassino. Segunda: prenderão o assassino que não permanecerá preso e terceira: ele será detido e a sua detenção será um prêmio: levará vida melhor da que suas vítimas levavam. Não terá mais a preocupação com taxa de lixo, de limpeza, de esgoto. Não terá o fornecimento de água e de energia elétrica interrompido por falta de pagamento. Não pagará mais aluguel ou prestação da casa própria. Terá banho quente, cama limpa, roupa lavada e passada, lazer, televisão, cinema, um lauto café pela manhã, três refeições quentinhas. Se tiver úlcera a alimentação será adequada. Direito à visita para sexo, etc Ninguém liga para os mendigos de rua porque eles não recebem verba de Governo. Muito menos do exterior. Não têm entidade de representação. Não fazem passeata. Não têm sigla. Poderiam ter: MSN (Mendigos Sem Nada). Não têm boné nem bandeira. Não têm documentos. Não votam. Não têm sequer esperança. São modestos até em sonhos. O que sonham ? Com um aniversário com parabéns que tiveram um dia. Com um amigo de infância. Com os pais. Com irmãos. Com filhos. Com um grande amor vivido. Por que não? Com um prato cheio de mocotó com feijão branco e lingüiça. Uma feijoada. Com uma polenta a bolonhesa. Com um banho inteiro com sabonete perfumado. Com dentista para aliviar sua dor de dente. Com um beijo, um abraço, um afago. Ouvir de alguém “eu te amo”. Na certa também rezam. Com o olhar perdido no firmamento e mãos levantadas como se esmolassem ao Criador. O que pedem a Deus? Que não lhes falte jornal para deitar em cima. Que nenhum malvado ateie fogo no ensebado cobertor. Que ninguém roube o chapéu que à noite é travesseiro e durante o dia recolhe as esmolas. Rezam para o cachorro fiel e amigo não ser atropelado. Rezam para que ninguém lhes dê pinga com veneno de rato nem estourem suas cabeças por divertimento. Rezam para não ficarem doentes. E se ficarem que o sofrimento seja breve. Lazer? Quem sabe? Olhar os vaga-lumes que chegam com o verão. A alvorada. O sol que enxuga o sereno que molhou o corpo. Os bandos de pardais brincando de esconde-esconde nas árvores. O canto da cotovia. As folhas de outono que com o vento envolvem carinhosamente os seus pés. Os mendigos perderam a capacidade de raciocinar. Perderam a dignidade. A cidadania. São anônimos na multidão. Mas se um dia, apenas um dia, tiverem lucidez para comparar a vida que levam com a que levará na prisão o assassino de seus colegas de rua, se porventura for preso, eles ficarão valentes. Haverá a revolta dos mendigos. Fundarão sindicato. Farão passeata na avenida Paulista. Marcharão em direção ao Congresso Nacional, com boné e bandeira, para reivindicar o mesmo tratamento dado a condenados reclusos. E aí então.. as penitenciárias terão que erguer o muro. Não para impedir a fuga dos presos, mas para evitar a invasão dos mendigos. E tomara que eles não resolvam fazer jus como os detentos fizeram para ali entrar por ordem de juiz criminal.