O que os negócios e o planeta têm a ganhar com a semana de quatro dias

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Foto: divulgação - Dimas Facioli

Após experiências bem-sucedidas de empresas na Islândia, Reino Unido, Bélgica, Nova Zelândia, Escócia e EUA, o ambiente corporativo brasileiro começa a testar o modelo de jornada de trabalho de quatro dias – ou 32 horas – semanais sem redução de salário.

Conhecido como 100:80:100 – 100% do pagamento por 80% do tempo do colaborador, em troca de 100% de produtividade –, o modelo começou a ser adotado após o fenômeno da “grande debandada” (profissionais pedindo demissão) e do esgotamento profissional provocado pelo trabalho, listado oficialmente pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Mas os custos das empresas com saúde mental, elevados pelos meses de isolamento forçado pela pandemia de coronavírus, forneceram o incentivo decisivo para a adoção desse modelo disruptivo.

Antes e além disso, outros dados internacionais já sinalizavam para a necessidade de essa mudança no trabalho, como o cruzamento de dados do relatório mundial de felicidade de 2019 com informações da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), feito pelo Fórum Econômico Mundial. Chegou-se à conclusão que os cinco países mais felizes da OCDE trabalham mais de 100 horas a menos que a média do grupo.

No Brasil, dados da plataforma de recrutamento Indeed apontaram que a redução da carga horária de trabalho também melhoraria a saúde mental (85%) e o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal (86%) dos colaboradores.

Companhias brasileiras que já praticam o modelo, ainda que em caráter experimental, têm comprovado esses e outros benefícios, entre eles melhorias de eficiência, no bem-estar dos trabalhadores e retenção de talentos. Este último tem sido valorizado em um cenário de mercado em que sobram vagas com necessidade de qualificações em diferentes níveis – ao oferecer um dia a mais de descanso, as empresas ganham mais um trunfo na disputa por mão de obra com companhias estrangeiras, cujo grande apelo são salários maiores.

Tanto nas experiências brasileiras quanto nas do exterior há registros de ganhos também do ponto de vista organizacional. Por exemplo: com um dia a mais para suas agendas pessoais, os colaboradores diminuem o número de faltas por doença, bem como os de atrasos por consultas a médicos e dentistas. Os funcionários tendem a gastar menos tempo em tarefas contraproducentes, como reuniões, e evitam se distrair com mídias sociais ou pausas excessivas. E a ênfase na eficiência tende a aproximar as equipes e áreas, pois há menos tempo a perder com disputas internas. Por fim, trabalhadores menos estressados e mais felizes se envolvem mais com o trabalho.

O meio ambiente do planeta também tende a ganhar, e muito, com a semana de trabalho de quatro dias. Para começar, menos pessoas se deslocando entre suas residências e ambientes de trabalho e o menor uso de ar-condicionado nos escritórios reduzem de forma crítica a emissão de carbono – um dos gases responsáveis pelos fenômenos que contribuem para o aquecimento global – na atmosfera. Já em 2012 um estudo descobriu que, se gastássemos 10% menos tempo trabalhando, nossa pegada de carbono seria reduzida em 14,6%.

Menos horas de trabalho também significam sistemas de computador consumindo muita energia elétrica, entre outras taxas de manutenção de um escritório. Mas, já há antecedentes – em 1997, foi criado, na França, o Dia Mundial sem Carro que, no Brasil, começou em 2001.

Requer planejamento

Os benefícios citados não se materializam apenas a partir da decisão de se praticar a semana de quatro dias. Em todas as empresas em que essa experiência culminou bem-sucedida ela foi precedida de planejamento prévio, com atenção à legislação trabalhista – o que no Brasil implica consulta prévia a funcionários seguida de acordos coletivos firmados junto aos sindicatos – e à cultura organizacional. Neste último caso, implica revisão de metas e tarefas diárias e medição frequente de resultados.

O report “Burnout Britain: overwork in an age of unemployment” (Bornout britânico: excesso de trabalho em uma era de desemprego) apontou algumas condições chave para que a redução da semana de trabalho maximize os benefícios. Entre elas, que não implique aumento excessivo da intensidade do trabalho nos demais dias da semana.

E para garantir que as pessoas escolham atividades de baixo impacto ambiental em seu tempo estendido de folga, é preciso fornecer uma “infraestrutura de convívio”, ou seja, instalações públicas de boa qualidade que permitam a elas usarem seu tempo de maneiras divertidas, mas sem agressão ao planeta. Exemplos de infraestrutura de convívio incluem parques, bibliotecas, loteamentos, trilhas para caminhada e ciclismo, salões comunitários e campos esportivos.

Isso é importante para se alcançar uma economia mais ecologicamente sustentável, porque só mudar mentalidades não basta. É necessária uma mudança de comportamento no dia a dia com impacto positivo no meio ambiente.

Por fim, a futurologia fornece outro argumento de peso a favor da semana de quatro dias. A previsão de que, nas próximas décadas, uma nova onda de mecanização do trabalho substituirá uma média de 50% dos atuais postos de trabalho. Neste sentido, a adoção de fins de semana de três dias pode ser essencial para que a vida permaneça viável em condições econômicas diferentes.

Dimas Facioli é diretor da Facioli Consultoria
Administrador de empresas, pós-graduado em Administração da Qualidade pela FAAP com especialização em Recursos Humanos e Engenharia da Qualidade pela UNICAMP. Head-hunter e consultor para desenvolvimento organizacional. (Texto e Cia Comunicação – Blanche Amancio – www.textocomunicacao.com.br)

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