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O livro que descreve a luta e perseverança que nortearam a vida dos Zanin desde Herminia e Domingos, na construção de um lastro afetivo

Este livro teve origem na intenção de prestar culto e exaltação ao trabalho. O trabalho como essência da condição humana, no sentido mais amplo e despojado que a expressão encerra, o da diligência que ocupa e dignifica o homem no viver de todos os momentos, o trabalho que permite a realização humana em toda a sua plenitude.

E o personagem principal que inspirou este livro a partir do qual se irradia esta exaltação ao trabalho, foi um imigrante que chegou em terras da América na verde adolescência dos 16 anos, em 1888, mesmo ano em que se dava a mais importante mudança na história das relações de trabalho no Brasil, a promulgação da Lei Áurea, que punha fim a três séculos e meio de servidão negra.

Escravidão – Trabalho – Liberdade, contraditória confluência, Domingos Zanin com os pais e irmãos chegam ao Brasil como tantas outras centenas de milhares de italianos do norte, como alternativa ao negro escravo nas lavouras de café de São Paulo. A chama que acalentava os Zanin era um sonho, o sonho Vêneto de reconquistar a liberdade perdida na terra de origem. Através do trabalho na lavoura paulista, almejavam tornar-se novamente donos de um pedaço de terra que lhes assegurasse refazer o modo de vida que as profundas mudanças na economia italiana haviam desarticulado na segunda metade do século XIX. Em outras poucas palavras, recuperar a vida autônoma com base no amanho da terra em regime de trabalho em estreita solidariedade familiar.

Depois de um período de poucos anos numa fazenda em Guatapará, na área entre Araraquara e Ribeirão Preto, onde a cafeicultura havia se expandido vigorosamente durante as últimas décadas do século XIX, Domingos Zanin, convencido de que eram muito diferentes as condições reais da vida na América, do que aquelas apregoadas na Itália para atrair os imigrantes, partiu sozinho em busca de melhores condições para toda a família.

O deslocamento de grupos familiares era então não só dificultado por óbvias razões, mas também pela resistência dos fazendeiros. Graças ao inconformismo do jovem, com as condições adversas inicialmente encontradas, a situação se reverteria em poucos anos.

Das andanças do moço mal entrado na idade adulta, que partiu solitário, não há registros escritos. A tradição familiar reza que, após uma tentativa em fazenda de Descalvado, logrou encontrar em Limeira, as condições que julgou recomendáveis para a vida de toda a família. Em pouco tempo, tostão por tostão acumulado, juntaram o suficiente para a compra de uma pequena gleba no município de Piracicaba. Era então maio de 1894.

No ano seguinte, o casamento com a compatriota Maria Hermínia Alberoni, chegada ao Brasil pouco depois dele, em 1891. Toda a prole, os 14 filhos, sete homens e sete mulheres, nasceriam em terras piracicabanas, vivendo da lavoura na pequena propriedade, depois de engenho para o fabrico de açúcar batido ou mascavo e aguardente.

Repetindo o ciclo imemorial do lavrador do norte italiano, completou-se a reconstituição do antigo modo de vida de que vinha à procura. À medida que cresciam, os filhos de Domingos e Hermínia iam se integrando na atividade coletiva, sustentáculo da vida em liberdade tão almejada. E como decorrência, a prosperidade material através do diuturno trabalho em harmonioso regime de solidariedade familiar, traço que se manteria como legado do patriarca mais de 110 anos após a sua chegada ao Brasil.

Depois de meio século em terras piracicabanas, Domingos já na casa dos setenta anos, durante o decênio de 1940, com as economias acumuladas e a venda das propriedades em Piracicaba, a família se transfere para Araraquara, onde vai iniciar uma nova etapa a partir da aquisição da fazenda São Joaquim, no bairro do Chibarro, ponto de partida da Usina Zanin para a produção de álcool e açúcar.

É assim, portanto, que entendemos por bem dividir o presente livro em três partes complementares entre si – são os três tempos do título. O Primeiro Tempo abraça as origens (tanto dos Alberoni quanto dos Zanin) na Itália, a travessia e os primeiros anos de Brasil, quando o casal central ainda não se conhecera. O Segundo Tempo inicia-se no casamento e abarca a constituição da família de Domingos e Hermínia, assim como a construção de seu patrimônio e seu enraizamento na região de Piracicaba. Finalmente, o Terceiro Tempo inicia-se com a transferência da família para as terras de Araraquara, culminando com a morte do patriarca Domingos em 1951.

Nesta história da família de Domingos Zanin, as realizações materiais e a atividade empresarial entram não como um tácito elogio ao acúmulo de bens, mas tão somente como inelutável contingência do essencial, que é a recuperação da memória e da trajetória da família, iniciada pela união de Domingos Zanin e Hermínia Alberoni. O foco da narrativa sempre está direcionado para aspectos da história da família. Óbvio, porém, que sendo a vida uma globalidade cujo desenrolar não se compartimenta, as realizações no campo empresarial acabam sendo inevitavelmente abordadas.

A idéia de escrever a história da família de Domingos Zanin ganhou corpo no entusiasmo de seus netos, ouvindo tio Osvaldo, o único dos filhos homens de Domingos-Hermínia vivo e em plena atividade, contar antigos casos dos tempos da Água Santa, em Piracicaba. Aos casos de Osvaldo juntaram-se lembranças dos netos mais velhos e fragmentos do que os mais novos ouviram dos pais sobre as vicissitudes, venturas e desventuras de outros tempos.

As alegres rememorações terminavam sempre com a entusiástica assertiva de um, que logo lograva obter concordância dos demais: “É preciso escrever isso tudo antes que se perca como muito já se perdeu levado na memória dos que se foram”

Subjacente a isso estava implícita em cada um a idéia seguinte: quanto eu gostaria de saber mais sobre meu passado através do passado de minha gente e não sei por falta de uma história escrita.

E, mais: que os meus filhos e os meus netos não venham a lastimar o mesmo que deploro agora. Pois, então, sempre é tempo de começar para que outros completem, no futuro, a partir do ponto a que chegarmos hoje. Em outras palavras, a percepção de que quanto mais se posterga, mais empobrecida será a recuperação, especialmente no que diz respeito àquele importante acervo informativo que não está escrito em lugar algum, senão nos recantos da memória humana que se apaga inexoravelmente pela borracha do tempo, quando o tempo se acaba para os que guardaram as lembranças.

A singela e despojada preocupação de impedir que a memória dos antepassados caia na vala comum do esquecimento acaba sendo também uma forma de mantê-los vivos, como se aqui estivessem, e não apenas, uma lembrança fugidia como uma sombra difusa.

De resto, uma história de família deve ser para os mais jovenzinhos que não chegaram a conhecer os bisavós, assim como para as gerações futuras, uma fonte inspiradora a moldar o cidadão, pois o homem só alcança a maturidade da cidadania através da plena consciência da própria identidade. O auto-conhecimento através da história permite vincar claramente a própria identidade.

Enfim, conhecer as raízes da própria história representa, além do merecido preito que se deve aos ancestrais que se assentaram os alicerces da vida de tanta gente, uma condição substantiva para o fortalecimento do espírito de cidadania.

A memória oral neste tipo de reconstrução da história é um recurso fundamental e muitas vezes único para a recuperação do passado. Especialmente naquela fase da vida em que os protagonistas não se integraram ainda numa atividade econômica que forçosamente exigiria registros fiscais e burocráticos que deixam sinais para a posteridade. Não é por outra razão que a grande maioria dos imigrantes italianos que vieram para a lavoura de São Paulo são homens sem história. Chegaram no anonimato dos milhares que vinham espremidos nos porões de navios e morreram na obscuridade da dura imensidão rural paulista.

Nesses caso o recurso único para a recuperação da memória são as recordações guardadas pelos mais velhos sobre o que viveram e ouviram contar. Ao morrerem desaparece também definitivamente a história da família.

Os depoimentos iniciais de osvaldo Zanin foram o ponto de partida desta história da família do pai, contando o que ouviu e o que viveu desde os tenros anos na Água Santa, em Piracicaba. Muitas janelas e portas entreabriram frestas no tempo e no espaço, que permitiram recompor o passado.

Essa memória oral sobre as lembranças guardadas do período mais remoto, de um tempo que não deixou outras marcas senão mãos calosas, pele queimada pelo sol tropical abrasador e suor vertido no dia a dia da dura faina da lavoura, sinais há muito desaparecidos. E a confiança na tradição oral ia aumentando durante a pesquisa à medida que tantos detalhes foram sendo confirmados com exatidão pela localização de registros insofismáveis.

Nebuloso, como já se disse, aquele período que decorre entre a chegada de Domingos Zanin ao Brasil e a aquisição da pequena gleba em Piracicaba (1888 a 1894). Nada porém que impedisse a montagem do quebra-cabeças da existência familiar.

Afinal, entre o antes e o depois, estiveram condições de vida facilmente imagináveis, e até com precisão, pelo conhecimento que se tem da história dos imigrantes e do modo de vida no meio rural paulista, sobejamente conhecidas.

Quanto às fontes escritas recorreu-se a antigos registros como os da Hospedaria de Imigrantes (hoje Museu do Imigrante), onde, no Brás, os italianos desembarcados em Santos aguardavam por alguns dias a partida para o destino final no interior; registros da Cúria Diocesana de Limeira, Piracicaba e Araraquara, relatórios oficiais diversos, registros tributários, documentos contábeis, fiscais, estatísticas, relatórios, correspondência e fotografias dos arquivos da Usina Zanin, além de outros papéis. Tudo se completando com um pouco do muito que se escreveu sobre a imigração no período e as condições de vida no universo rural de São Paulo, bem como notícias em jornais e revistas.

Se a pesquisa procurou por um lado, resgatar os momentos primordiais da história familiar, por outro, não negligenciou aqueles fatos comezinhos do cotidiano, as banalidades que não estão preservadas em outro lugar senão num recanto perdido da memória dos que depuseram sobre situações vividas e ouvidas. Trivialidades como o caso da jararacussu de mais de dois metros que passou a noite no quarto das crianças no primeiro dia da família de Martinho, que chegando de Piracicaba dormiu na casa velha da Boa Vistinha, encravada no vale do Chibarro. E a cobra só foi descoberta na manhã seguinte, porque, raivosa, se debatia com o rabo enroscado no grande baú.

É justamente no tratamento destas trivialidades – daqueles pequenos casos sensíveis que ao mesmo tempo que humanizam e aproximam, também distinguem cada história de família, umas das outras – que tomamos a liberdade de soltar a imaginação e recriar sentimentos e pensamentos de alguns destes personagens reais que compõem a história que ora apresentamos. Se, de um lado, é impossível o resgate preciso de emoções e pensamentos, de outro lado, ao entrarmos de corpo e alma nas vidas dessas pessoas, fica bastante plausível que os medos, inseguranças, anseios, amores, universais que são, possam ser resgatados de dentro de nós mesmos e transpostos para estas pessoas que enfrentaram a grande travessia do Atlântico e desembarcaram em nossas vidas.

De resto, além do valor afetivo particular para a família, esta história dos Zanin pretende ser também uma homenagem modesta a tantos milhares de iguais que não tiveram a sua vida contada e, ainda, uma despretenciosa contribuição para a memória da imigração italiana destinada ao labor na cafeicultura paulista e do cotidiano do mundo rural em que viveram . É uma afirmação comum entre os especialistas, que a grande história do Brasil não será conhecida enquanto não se multiplicarem os estudos da “pequena história”, como as de famílias, pessoas, instituições.

A história da família de Domingos Zanin, na forma como se encontra neste livro, é fruto de uma terceira versão, acabada após a leitura dos originais por diversos familiares. Exclusivamente por razões de conveniência, para a agilidade e fluência da leitura, foram feitas reduções nos primeiros textos. Assim, permanece em poder da família uma versão mais caudalosa e minuciosa em vários aspectos, uma espécie de “Ata Familiar” que servirá àqueles que eventualmente se interessarem por maiores detalhes.

Cumpre uma palavra final de agradecimento a todos quanto facilitaram o acesso a documentos, bem como às inúmeras pessoas que prestaram depoimentos ou deram informações, cujos nomes estão arrolados no final deste livro.

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