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O jacaré vegetariano

João Baptista Galhardo

Meu tio Maneco era sócio de uma serraria-marcenaria. Transformava enormes toras de madeira de lei em belos móveis. Era um dos meus tios preferidos. Presenteava-me com pião para soltar com fieira e cofre de madeira em forma de coração para guardar moedas, que ele mesmo fazia. Tocava violão. Sabia cantar. Tinha uma bicicleta de guidão baixo. Casado com minha tia Lola. Mulher sensacional, inteligente, amorosa, cabeça do lar. Não tinham filhos. O seu xodó, além da esposa é claro, era Diana sua cachorra perdigueira, levantadora de codornas que o acompanhava nas caçadas de fim de semana, quando a seu pedido eu ia dormir em sua casa para fazer companhia para a tia. Um dia ele retornou da caçada trazendo consigo um filhote de jacaré vivo. Não tinha três palmos. Minha tia, de início, ficou brava: aonde vamos colocar esse bicho? Vou levar para o zoológico municipal, disse ele. Acontece que minha tia começou a tratar o bichinho como um animal doméstico, dando-lhe na boca chuchu cozido, abóboras, raspa de mandioca, cenouras, mamão e banana que plantavam no quintal. Todo dia dava-lhe um banho com o esguicho de molhar a horta. Afeiçoou-se e deu-lhe o nome de Dentão. À noite, o casal ouvia novelas pelo rádio e ela com o Dentão no colo, apoiava a cabeça do réptil no braço esquerdo, fazendo-lhe um cafuné na barriga enquanto entoava canções de ninar. “Boi da cara Preta”, “Sapo Cururu da Beira do Rio”. E o jacaré chegava a se espreguiçar nos seus braços. Não saía de dentro de casa. Quanto meu tio viajava o jacaré dormia na cama com minha tia. Barriga para cima e roncava como gente grande. Antes ela rezava para ele ouvir. E parecia entender. Acontece que o animal cresceu e não dava mais para dormir no leito do casal, nem ouvir rádio na sala. Meu tio levou um veterinário para saber até quanto cresceria. Disse o veterinário: “pelo seu focinho e a formato do rabo, esse aligatorídeo é um jacaré-coroa da espécie palpebrosu. Atingirá dois metros de comprimento, mais ou menos. E confesso que nunca vi um jacaré vegetariano”, acrescentou ele. Aonde Lola ia o jacaré seguia atrás. Sabia a hora da comida, bem como a hora do banho. Convivia bem no quintal, com a cadela, gato e galinhas. Até permitia que elas passeassem sobre ele. O gato também cochilava sobre sua carcaça. Sabia que só podia fazer as suas necessidades fisiológicas no quintal, cobrindo-as com terra com suas patas traseiras. O que aprendera com a Diana. Eu tinha impressão que ele não sabia que era jacaré. O seu comportamento era exemplar. Tempo passando e afeição aumentando. Mais por parte de minha tia. Pois era ela quem cuidava dele. Não podendo mais dormir na cama, embaixo desta passava a noite. Dentão conhecia Lola de longe. Ao vê-la abanava o rabo como um cachorro. Quatro anos depois de feliz convivência com Dentão, meu tio tomou uma atitude: a de levar o jacaré para o rio Chibarro, dando lhe liberdade que por certo ele não queria. Afinal casa, comida, cama e banho… O que mais? A despedida foi triste. Minha tia chorava. Tive impressão que o jacaré também. Vi pela primeira e única vez lágrimas de crocodilo. Meu tio, com a ajuda de vizinhos, amarrou sua boca. E colocaram o bicho em sua pequena camioneta 1934. Minha tia inconformada passava-lhe a mão dizendo-lhe: “adeus Dentão, saiba que eu te amo como um filho. Te Cuide”. O caminhãozinho partiu e o tio Maneco cumpriu sua missão, soltando-o carinhosamente naquele rio, com a boca já desatada. Nunca mais tiveram notícias dele. Minha tia por muito tempo sonhou e teve pesadelos de que ele havia retornado e que estava sob a cama. Um dia meu tio sentiu-se mal no trabalho, prognosticando que teria um derrame. Fez samgria nos próprios pulsos acreditando evitá-lo e foi para o hospital dirigindo a sua própria condução. Era sócio e dizia que seu pai tinha sido um dos fundadores da Beneficência Portuguesa.

Chegou a ser atendido, mas horas depois veio a falecer. Minha tia vendeu a casa. Mudou-se. Pois ali tinha a permanente lembrança do marido e do Dentão. Cresci. Casei. Por muitos anos não tive notícia dela. Há certo tempo fiquei sabendo que já afetada pela esclerose vivia num pensionato para idosos, pago com sua pensão. Fui visitá-la. Conduzido ao seu aposento, o servidor que me acompanhava lhe disse que ela tinha uma visita que iria gostar. Olhou-me com ternura por alguns instantes e com uma voz suave e maternal disse: “Dentão, meu querido, você voltou para mim?”. Choramos juntos. Não lhe disse que era eu. Melhor no seu delírio acreditar no retorno do jacaré. Dias depois ela faleceu. E talvez contente por ter “visto” o Dentão antes de morrer…

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