João Baptista Galhardo
Pretendia escrever sobre o showmício dos parlamentares, mas não encontrei meu nariz de palhaço. Meus netos devem ter escondido. Ele me inspiraria sobre o tema. Como não achei aquele adorno hilário fiquei sem assunto. Entretanto quando chego ao Serviço, vejo no balcão de atendimento um senhor de cabelos brancos, face já marcada por rugas e pelo sol, aparentando pouco mais de sessenta anos. Perguntei seu nome. – Ricardo. – Não fizemos o ginásio na mesma classe nos anos cinqüenta? – No Duque de Caixas? -É isso mesmo. E me reconheceu. Convidei para tomar café e relembrar um tempo de meio século atrás. – Você é o “Rica” que sentava na minha frente. -Lembra? -Tem visto o Ticão, seu colega de carteira? Ele era bagunceiro. Quando a professora de História, que tinha problema de audição fazia a chamada dos alunos, ele respondia com a maior “cara de pau” “presunto” e não “presente”. As duas palavras têm quase o mesmo movimento labial. -Mas Rica, você era gago! Nos exames orais todos ficavam na sala de aula, mesmo dispensados, só para lhe tirar um sarro. Quanto mais nervoso ficava maior a dificuldade para falar. Se o professor ria, a situação piorava. -É verdade. – Depois do colégio, não agüentei mais as gozações. Procurei e encontrei a cura. Não gaguejei mais. – Precisou cortar alguma coisa? Como assim? – Porque eu fiquei sabendo que um gago foi ao especialista para curar sua gagueira e o médico mandou ele tirar a roupa. -Que absurdo. Pelado? Para examinar gagueira? Mas tirou. O médico olhou de cima para baixo, frente e verso. Mandou se vestir. -Já sei qual é a causa da sua gagueira. É o tamanho do seu pênis. É preciso cortar um pedaço. Uns doze ou treze centímetros. A causa da gagueira está nesse excesso. O gago foi para casa e discutiu com a mulher. Mediram. Viram que ainda sobraria o suficiente e ele decidiu pela cirurgia. No próprio consultório. Anestesia local. E lá se foi um pedaço da piroga do cara, que o médico, cuidadosamente, com uma pinça colocou num vidro com conservante adequado. -Volte na semana que vem para tirar o curativo. -Obrigado Doutor. “Viu, viu”, falou o médico: “não está mais gaguejando.” No retorno, o ex gago, triste e arrependido, perguntou ao médico se não dava para desfazer a cirurgia, reiplantando o que foi tirado. Aí o médico disse: “nã nã não dá não. A que queque quele pepe pe daço jájá já era”. – Qual o seu trabalho Rica? -Sou vendedor ambulante de produtos de limpeza. Para pedra, mármore, granito, ladrilho, xampu de carro, etc..Vou de casa em casa oferecendo. Se ainda fosse gago não daria para fazer isso. -Pode ser que sim, lhe falei. -Tinha um gago que vivia pedindo emprego numa livraria. O livreiro saturado com a insistência, encheu uma sacola com 50 bíblias e deu para ele vender. Receberia 15% de comissão. O gago saiu todo contente. O livreiro tinha certeza que no dia seguinte ele devolveria os exemplares e desistiria do trabalho. Para espanto, retornou quarenta e oito horas depois com a sacola vazia. Prestou contas e pediu a mesma quantidade de bíblias. O livreiro, surpreso, perguntou-lhe sobre o sucesso da venda e ele explicou que ia de casa em casa oferecendo, e quando era atendido, após apresentar o seu produto, perguntava: “quéqué quer comprar ou quer queque que eu leia? Disse o Rica: “você já reparou como todos os gagos são educados, simpáticos, prestativos, humildes e gentis.? -Quando eu ainda gaguejava conheci um gaguinho muito querido na cidade. Era amigo de todos. Adorava prestar favores. Tornava público o seu número de telefone. Quando alguém morria, ele se oferecia para lavar e vestir o morto. No sábado fazia a barba de velhinhos no Asilo da cidade. Dizia que se precisassem dele, era só chamá-lo. Numa noite o gaguinho recebe uma ligação. Era um conhecido de seu vizinho dizendo que a mãe dele tinha morrido numa cidade próxima e se ele podia dar-lhe o recado. O filho da falecida morava num sobrado. O gaguinho ficou nervoso, mas aceitou a incumbência. Tocou a campainha e o vizinho apareceu na janela do andar de cima: -o que foi gaguinho.? Essa hora da noite?. É que a su su su mãmãmãman. -Fala gaguinho. – Aaaaa iéééqueque aa mama -Gaguinho, fale cantando. Quando gago canta não gagueja. -Tátátátá tá bom é o sese se guinte: – Oh lêlê, oh, lálá, sua mãe morreu, amanhã vão enterrar!!!