João Baptista Galhardo
Estava preparando um artigo em homenagem ao Dia Internacional da Mulher. Inspirado em minha esposa já havia escrito que a mulher é a sementeira de todos os bens do porvir. Que é o ideal e o santuário. A sublimação em forma humana. E discutindo o tema com minha mulher, pessoa de alma perfumada, límpida e humilde, relembrava palavras de Victor Hugo que “o homem é a mais elevada das criaturas e a mulher é o mais sublime dos ideais”.
Deus fez para o homem um trono e para a mulher um altar. O trono exalta, mas o altar santifica. A mulher é o coração que produz o amor que ressuscita. Anjo indefinível. É capaz de todos os martírios que purifica. É um evangelho que aperfeiçoa. Um sacrário perante a qual ajoelhamos. A mulher sonha e sonhar é ter na fronte uma auréola. É um rouxinol, que com seu canto conquista a alma. Quando acabo de ler as primeiras linhas, ela diz:
– Está muito sério. Coloque um pouco de humor nesse artigo. Conte o caso do caranguejo…
Sábado de manhã. Ao acordar, a esposa grávida diz para o marido que estava com vontade de comer caranguejo.
– Mas não se preocupe. É coisa de mulher grávida. Logo passa.
O marido ficou preocupado. E se o filho nascer com cara de caranguejo? – Eu pego o carro, desço até Cubatão e compro uns caranguejos.
– Tem certeza? Não é muito trabalho?
– Trabalho nenhum. Faço por você qualquer sacrifício.
O cara troca de roupa, pega o carro e sai com destino a Cubatão. Antes de pegar a estrada, pára numa padaria para comprar cigarro. Ali encontra uma antiga namorada da época do colégio, que ele não via há muito tempo. Animados com o encontro, resolvem tomar uma cervejinha. Ele repara que aquela garotinha da escola se transformara num mulherão….Os dois colocam as fofocas em dia. Beberam. Brincadeiras, sorrisos. Se atraem e acabam passando a tarde num motel. Cachaçado, vira para o lado e dorme como um anjo. Na manhã seguinte acorda com tremenda dor de cabeça. De repente, dá um salto na cama e percebe a traição que cometeu e lembrou dos caranguejos. Nem se despede da moça, daí feito louco, rumo a Cubatão, recriminando a perfídia e se achando a pior criatura do mundo.
– Caramba. Eu sou um canalha. Não podia ter feito essa sacanagem. E agora? O que eu falo para ela. Sou um cafajeste. Traidor.
Em Cubatão compra um saco de caranguejos vivos e volta rapidamente com a maior dor na consciência.
– Que loucura. A esposa grávida, com desejo e eu num motel com aquela vagabunda. Como é que explico essa demora? Eu vou contar tudo para ela! Não tem outro jeito, tenho que contar… .
Transtornado, ele guarda o carro na garagem, pega o saco com os caranguejos e sobe pelo elevador, ainda tentando achar uma história convincente. Mas não vinha nada na cabeça.
– Eu tô perdido! Eu vou contar..
Ao sair do elevador ele tropeça e o saco vai para o chão. Na queda se abre e espalha caranguejos pra tudo quanto é canto do corredor. A esposa ouve o barulho e abre a porta do apartamento. Ele se agacha rapidamente e com as mãos vai empurrando os caranguejos para dentro de casa:
– ô vamos lá, minha gente! Vamos entrando! Demorou, mas chegamos!!!
E por falar em traição conta-se que Jesus reuniu no Céu os seus apóstolos, preocupado com o mal dos viciados na terra. E para conhecer as drogas a fim de buscar a forma de recuperar os jovens do vício, recomendou que alguns voltassem a terra e retornassem com uma porção de cada uma. Tempos depois:
– Quem bate?
– Sou eu João, o Batista.
– O que você trouxe?
– Dez quilos de crack.
– Pode entrar. Quem bate?
– André, eu trouxe cocaína.
– Pode entrar. Quem bate?
– Mateus, eu trouxe maconha.
– Pode entrar. Quem bate?
– Felipe, eu trouxe ecstasy.
– Pode entrar. Quem bate?
– Tomé, eu trouxe heroína.
– Pode entrar. Quem bate?
– Judas Iscariotes. O que você trouxe?
– O que eu trouxe? A Polícia Federal. A casa caiu. Todo mundo com as mãos na parede.
– De novo?!?!