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Não existe prótese para a alma

João Baptista Galhardo

Numa noite, já bem tarde, batem à porta da modesta moradia de meus pais. – Quem é?

– Miguel, seu compadre. O que batizou o Juanito.

Meu pai tira a tranca. Entram Miguel, sua mulher Isabel e três filhos menores: Isabelita, Manoel e Mauro. Pediam abrigo por um ou dois dias. Despejados e desempregados não tinham onde ficar. Não se viam há muito tempo. Cada um deles trazia embaixo do braço um acolchoado enrolado e nas mãos uma sacola com roupas. Isabel carregava, também, uma imagem de Jesus Cristo, em branco e preto, numa moldura protegida por vidro. Meu pai ponderou que o espaço era pequeno. Mas… “onde comem oito, comem treze”, disse. E esses “dois dias” se prolongaram por sessenta ou setenta. Dormiam sobre aqueles colchões improvisados, colocados em círculo no piso de cimento da pequena sala. Nesse tempo eu já trabalhava em cartório no prédio do Fórum, hoje Delegacia de Polícia. Numa tarde, encarregaram-me de pagar uma conta de energia elétrica, na empresa de Força e Luz, na esquina da rua São Bento com a Avenida São Paulo. No trajeto achei, no chão, em frente ao Banco Moreira Salles S.A. (hoje Unibanco), um pequeno maço de dinheiro. Peguei. Coloquei no bolso e fui fazer o que me pediram. Com muito cuidado contei. Três contos ou três mil cruzeiros. Fiquei mais preocupado do que alegre. Como iriam acreditar que um menino de onze anos, descalço, de calça curta presa ao corpo por suspensórios de pano, teria achado três mil cruzeiros? E meus pais? Rigorosos nos conselhos.

“Não fique com o que não é seu. É preferível passar fome do que mexer no que é dos outros”. Ao mesmo tempo pensava no que era possível comprar com aquela fortuna: a bicicleta que eu não tinha, um jogo de panelas novas para minha mãe, um guarda-comida, um rádio, muda de roupa pára a família toda e até para os infortunados hóspedes. Precisaria trabalhar alguns anos para acumular quantia semelhante. Cumpri minha tarefa e voltei para o Fórum. Ao entrar ouvi uma gritaria nos fundos do corredor. Era o senhor Arlindo, oficial maior de uma das serventias, gritando com um garoto, seu empregado, de treze ou catorze anos de idade: “seu desgraçado, perdeu os três mil cruzeiros que eu mandei depositar no Banco. Seu pai vai ter que trabalhar uns três anos para me pagar. Imbecil …”.

Aproximei-me da roda furiosa: “seu Arlindo, eu quero falar com o senhor”.

– Saia daqui moleque.

Com mão direita ele safanava o empregado e com a esquerda me empurrava cada vez que eu tentasse chegar perto. “Sai daqui moleque”.

Precisei gritar: “eu achei o dinheiro”. Tirei as notas do bolso. Ele pegou estupidamente e retornou para o trabalho. Não me disse (nem depois) sequer muito obrigado. À tarde, chegando em casa contei o ocorrido para o meu pai que conversava com seu compadre Miguel. Disse ele: “filho, estou contente da forma que você fez”. E o outro: “estou orgulhoso de ser seu padrinho”. Meu pai afundou a mão no bolso, pegou uma moeda e me pediu: “vá ao bar do Gonçalves e me compre seis cigarros”. Não sei se ainda vendem cigarros avulsos.

– Olhe filho, se não tiver Aspásia (era o mais barato) compre Fulgor. Lembro do orgulho que eles tiveram, embora eu não tenha feito nada de sensacional. Seria desonestidade ficar com aquele dinheiro. Estaria até hoje carregando um peso enorme ao lembrar daquele menino despedido e quem sabe passando por desonesto perante o patrão. Digo isso porque não sei como reagem os filhos, netos, irmãos, amigos, pais e cônjuges dessas pessoas envolvidas nessa velhacaria que a imprensa noticia. O termômetro da felicidade dentro de uma família é o brilho nos olhos de cada um quando conversam. Quando se encaram.

O deficiente físico pode substituir perdas parciais do corpo com aparelhos ortopédicos e transplantes. E dar exemplos de superação. Mas para o espírito amputado não há remédio. Não há salvação. E mesmo que a pessoa safada, autora de crime de qualquer natureza, por ação ou omissão, se livre de processos com mentiras e simulações, será ela condenada pelo olhar daqueles que lhe são próximos e que não aprovaram a sua conduta. Será eternamente perseguida pela própria consciência que é incorruptível. Que não se deixa subornar. A consciência tem prêmio para o bem e tem castigo para o mal. Ela é o céu ou inferno. É ao mesmo tempo a acusação, a prova, o tribunal e a justiça. A condenação será perpétua porque não existe prótese para a alma mutilada.

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