Nhô Pedro

Ela foi embora como chegou. Não tomou conhecimento de nada pois, a sua vida sempre foi assim. Dona do seu nariz só fazia o que bem queria, independente dos amigos e vizinhos. Tinha afinidade pelo pai e era só. Foi aluna do Santa Marcelina, em São Paulo. O pai a tirou de lá na marra, estava doente e as freiras não permitiam que ninguém interferisse, mas, o pai o fez. O maestro Tescari e seus músicos se deliciaram da sua postura e perfeição no piano. Tocava com a maior sensibilidade o que os outros nem sequer tentavam. Era uma pianista de primeira mão. Formou-se professora pelo famoso colégio de Itápolis em primeiro lugar. Assim era ela. Foi candidata a rainha da cidade e ganhou numa tranqüilidade que só ela fazia. Foi aí que eu a conheci verdadeiramente. Uma vez passava por Itápolis com o Taina e o Mário, vi uma menina saindo do portão de sua casa e falei a eles que aquela era a mulher que eu iria casar. O namoro foi difícil pois o pai era muito exigente, veio até em Araraquara saber quem eram meus familiares e onde morava. O casamento foi uma festa inesquecível e rica. Fomos para o melhor hotel do Brasil. Na época Hotel Araxacom água mineral nos banheiros e só se comia com traje à rigor. Música clássica e comida farta dos melhores cozinheiros da época. A viagem de núpcias foi uma graça e um amor, que parecia nunca iria acabar. Nos amamos muito e valeu a pena, só que suas malas eram pra passar um ano e ficamos lá só um mês. Depois fomos pro mar de avião, em São Vicente, acabar o que tinha tão bem começado. Houve uma tempestade no dia do casório, segundo alguns, felicidade para os noivos. Quem nos levou para Ribeirão foram dois amigos do meu sogro, que se tivessem vindo me buscar em casa, talvez eu nunca tivesse casado de tanto mal que falaram de suas mulheres. Voltamos para Itápolis, ficamos lá pouco tempo pois a família ingeria em tudo que a gente fizesse. Fomos para São Paulo com a cara e a coragem. O meu conselheiro era o Aldo que lá foi um pai, e ela voltou a ser o que sempre fora: nariz empinado dona de suas vontades. Apesar de ter me dado três filhos maravilhosos o casamento começou a degringolar. De repente, como sempre, ela foi embora e me largou com os três e limpou minha casa. Trinta anos se passaram, eu mudei, ela encostou nos meus filhos que já estavam bem. De repente, sem aviso ela se foi e largou-os sozinhos como sempre fez. Ela não quis ser enterrada como as pessoas comuns, foi cremada, e as cinzas jogadas na imensidão do mar como sempre quis.

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