Mãe: padecer no paraíso ou prá descer do paraíso?

Rosa Godoy (*)

Literalmente, não é fácil. Ser mãe é uma das funções sociais mais difíceis e complicadas. Cantada em verso e prosa, mãe é pau prá toda obra, tem os maiores ombros do mundo (pois neles carrega o próprio mundo), serve para equilibrar emoções (veja-se mãe de juiz de futebol ou de político), enfim, está mais prá Bom Bril do que prá gente: tem mil e uma utilidades. Todas em prol de, diga-se de passagem – em prol dos filhos, da humanidade, da sociedade, do escambau, como diria o rappy de outrora. E ainda por cima, são consideradas santas. Aí é que o bicho pega, não tem coisa pior que isso. Sim, porque santa não reclama, não pode recusar-se a atender pedido, tem que agüentar tudo calada, sofrer fazendo cara de êxtase e daí para frente, como se a tal função se realizasse sempre no paraíso, entre brancas e lindas nuvens, sem qualquer manchinha que pudesse estragar a visão idealizada que sustenta uma das maiores sacanagens da humanidade: colocar sob a responsabilidade de algumas, a felicidade de todos (em tese, é claro). Sim, porque se o filho não dá certo, além de tudo, a culpada é a mãe. Não que não existam mães que não sejam, porém, a maioria se esforça… e muito para que os filhos sejam pessoas que se recomendam, como diria a finada Tia Pequenina, carioca da gema, se pode ver até pelo apelido.

Antes que eu apanhe das mães, dos filhos e de todos os demais (se é que há “demais”), explico: acredito que a sociedade exagera e é extremamente injusta quando produz e reproduz a imagem de mãe padecendo no paraíso, veiculada principalmente pelas mídias. Vejam-se as inúmeras cenas televisivas ou da imprensa escrita da semana passada em que mães choravam os seus filhos mortos na grande onda de violência que sacudiu a cidade de São Paulo e outras do Interior: praticamente todas elas, qual mater dolorosas, eram a própria face da dor, sem forças ou a quem recorrer para pelo menos questionar a perda dos filhos e tudo o que levou a isso. Eram mães de policiais, mães de bandidos, mães de qualquer tipo, cor, raça, religião, idade, mães de filhos de barriga ou de coração (incluo aí as esposas, irmãs, filhas até).

Nenhuma delas foi enfaticamente mostrada dizendo o quanto esta situação é de responsabilidade do próprio Estado que, durante muito tempo, negligenciou a segurança, as conseqüências do tráfico de drogas, a falência do sistema prisional e tudo o quanto pode ser tomado como determinante daquelas mortes. Às mães restou lamentar, chorar, sofrer e mostrar o sofrimento, quando maior, melhor, e melhor porque mais vende… Mãe serve prá chorar, comover e emocionar!

Lidar com as demais dimensões ou com o outro lado da situação foi legado aos homens, ao âmbito da racionalidade masculina, justamente aquela que tudo causou e acabou deixando-nos a todos e todas à mercê da enorme e vil armadilha de morar em cidades em que não se pode ir à esquina sem o risco de morrer no meio do caminho. Será que nenhuma daquelas mães tinha capacidade para fazer uma análise mais profunda e para além das lágrimas a respeito do que ocorreu com seus filhos? Tenho certeza que sim, cada qual no seu limite, sem ficar apenas na lamentação. Talvez até o tenham feito, porém como isso não vende, às mídias não interessa mostrar.

Mesmo que não tenham literalmente perdido filhos, tenho certeza que há mães e mães extremamente competentes para participar desta discussão e da tomada de providências que ela enseja. Ao não admiti-las (e também às outras mulheres – só vi homens discutindo, falando, sugerindo, criticando, dando soluções, fazendo parafernália dentro da própria parafernália) o que a racionalidade masculina faz é justamente continuar a admitir que ser mãe é [apenas] padecer no paraíso, mesmo quando o paraíso é o próprio inferno.

De minha parte, acho que está na hora de tirar-nos as mães do paraíso, de fazer-nos descer à terra, de acreditar e admitir que a experiência de ser mãe é também pra descer do paraíso, para se tornar mais real, mais pé no chão, permitindo-nos participar efetivamente dos destinos desta sociedade maluca em que vivemos. Quem sabe assim nossos filhos sejam poupados!

(*) É Enfermeira e colaboradora do JA

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