Março: Os 60 anos da Revolução (hoje dita Golpe) de 1964

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Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves (*)

Abre-se em (01/03) o mês em que se completa a sexta década da Revolução de 1964, assim denominada pelos que a empreenderam e rebatizada como “golpe” ou “ditadura” pelos seus adversários que, a bem da verdade, só adotaram a nova nomenclatura depois de 1985, quando os militares deixaram o poder e o devolveram aos civis, entre os quais aqueles que se ausentaram em 1964, viveram no exílio, e só voltaram na certeza da reabilitação através da Lei da Anistia, assinada pelo general João Batista Figueiredo, o último presidente do ciclo militar.

A tônica do levante – pouco importando o nome que lhe deram no seu vigor ou depois dele – era de que, naquela época, as forças políticas de direita temiam que o presidente João Goulart desfechasse um golpe de esquerda. Já a esquerda temia que os adversários do presidente o golpeassem e instalassem uma ditadura de direita. Goulart prometia reformas de base que os adversários enxergavam como instrumentos do golpe esquerdista supostamente apoiado pela China e União Soviética. Os quartéis estavam sensíveis e ,principalmente, os fuzileiros navais comandados pelo almirante Cândido Aragão, fiel ao presidente, que quebram à hierarquia.

O presidente Goulart convocou, para a noite de 13 de março, o Comício da Central do Brasil, cujo palanque foi montado na Praça da República (RJ), onde, juntamente com seu cunhado Leonel Brizola, ex-governador do Rio Grande do Sul, explicou as reformas a uma multidão de 150 a 200 mil expectadores (os atores divergem quanto ao número dos presentes). O Pais vivia sob intensa boataria, mas o presidente ainda tinha como certa a sua permanência no poder.

No dia 19, realizou-se, em São Paulo, a Marcha com Deus pela Família e pela Liberdade, que reuniu muitos manifestantes, capitaneados por entidades de mulheres católicas com o apoio da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e políticos proeminentes,como os governadores Adhemar de Barros (SP) e Carlos Lacerda (RJ) e o presidente do Senado Federal, Auro Soares de Moura Andrade. Nos dias seguintes a mesma manifestação, contra Goulart e seu governo, ocorreu em diferentes localidades do interior e capitais, sempre reunindo um segmento da Igreja Católica e forças de direita.

Na madrugada do dia 31, o general Olímpio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar, partiu de Juiz de Fora (MG) com sua tropa, rumo ao Rio de Janeiro, com o objetivo de depor o presidente. No caminho, em vez de encontrar tropas legalistas com quem poderia até ter de combater (o que transformaria a marcha em guerra civil), deparou com outros descontentes, que engrossaram sua coluna e todos foram para a ex-capital federal. Chegando ao destino, Mourão apresentou a tropa ao general Castello Branco, o mais antigo no posto que dias depois seria anunciado como próximo presidente da República. João Goulart seguiu para o Rio Grande do Sul, seu Estado de origem, onde se sentia mais protegido, enquanto o presidente do Senado, Auro Soares de Moura Andrade – que já havia participado da manifestação em São Paulo, ao final de uma tumultuada sessão, declarou vaga a Presidência da República em razão da ausência do seu titular e deu posse ao deputado Ranieri Mazzili, presidente da Câmara, como presidente interino.

Goulart seguiu para o Uruguai, onde recebeu asilo político. , e Castello Branco, escolhido em eleição indireta realizada pelo Congresso Nacional, foi empossado em 15 de abril, . declarando fazê-lo para garantir a manutenção da democracia. Aliás, durante os 21 anos que estiveram à frente do governo, os militares se disseram democráticos, mesmo quando adotavam medidas de força, todas justificadas como defesa do regime.

Passados 60 anos – 5 presidentes militares e 9 civis, independente do desenvolvimento tecnológico do mundo globalizado, o Pais continua a viver o mesmo impasse político. A direita e a esquerda divergem e acusam-se mutuamente de pretenderem dar o golpe de Estado ideológico. Não evoluímos em termos de definição política. Foi um voo de galinhas que durou todo esse tempo e não proporcionou a evolução que esperávamos.

O movimento de 1964 já se encontra sob a poeira da História. Mas ainda pode render às novas e futuras gerações preciosas lições do que fazer e também do que não fazer para o País e a Sociedade evoluírem. O melhor, no entanto, seria todos esquecerem as motivações das revoluções já vividas pelo País – que tiveram significado em suas épocas mas hoje são apenas registros cronológicos – e olhar para a frente, em busca de novas definições para a Pátria e a Nação. Águas passadas não movem moinhos, mas as águas do presente se bem administradas podem fazer o futuro melhor, da mesma forma que, negligenciada, levarão ao desastre. A guerra ideológica já trouxe muito sofrimento à população. Melhor seria arquivá-la no passado – que é o seu lugar – e dar a oportunidade para aflorar o Brasil que todos sempre sonhamos, mas, tristemente, ainda está no futuro e os acontecimentos do presente não garantem que um dia vamos alcançá-lo… Acordem todos!!!

 (*) É dirigente da ASPOMIL (Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo)

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