JORNAL DE ARARAQUARA
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Jovens irreverentes na calmaria da cidade

Falo da pureza em jovens irreverentes, inclusive pilotos graduados, que por falta de habilitação não lhes era permitido passear livremente pelas ruas com suas adoráveis motocicletas.

Texto: Benedito Salvador Carlos (Benê) com a colaboração de Deives Meciano.

Zé Faito quando conheceu Marisa com a intenção de namorá-la, não foi bem aceito pela família da garota. Tinha uma vasta cabeleira, fios longos e cacheados cresceram acompanhados de uma vistosa costeleta, modismo dos anos 70. Além disso, tinha uma motocicleta e para piorar a situação, era piloto oficial do Moto Clube Araraquara. Tinha também, para o olhar evangélico dos pais da pretendida, a imagem de um jovem rebelde, que não seria por gosto, o genro de seus sonhos.

O mesmo quadro se desenhou para Marli quando conheceu Eduardo Luzia, para Sandra que se encantou com Dinho DallAcqua, para Fátima quando sucumbiu às graças de Diogo, para Ise aos encantos de Pinho, para Vera e o seu amor proibido de Celso, para Luzia do Carmo que queria se casar com Adolpho, para Vera Lúcia paixão de José Duvílio, para Shirley então noiva de José da Penha e para Stella a princesa de Evaldo.

Na verdade éramos todos iguais, cabelos longos, barba por fazer e sonhadores.

ÉRAMOS BONZINHOS?

Não, Claro que não, nem nossa mãe achava isso. Apenas éramos jovens, honestos, vivendo suas plenitudes, não fumavam e bebiam o saboroso refrigerante Mimosa da fábrica Ciomino e simplesmente apaixonados por velocidade, em especial corrida de motocicleta, esporte de poucos praticantes, tão poucos que de regra éramos identificados não por nossos nomes, mas, pelas poderosas máquinas que guiávamos.

Neste período, existia uma pureza na vida.

Não havia o consumo disseminado das drogas, ladrão de celular, aliás, nem celular existia e o contato era de forma pessoalíssima e visceral.

Uns jovens, outros meninos, e a coisa em comum de errado que praticávamos, até de forma inocente, era "desviar de comandos policiais", especialmente pela falta de habilitação. Por mais paradoxal que fosse, era muito difícil para todos nós entender que era permitido "correr" em Interlagos, o maior autódromo do país e um dos melhores do mundo, representando nossa cidade e, ao mesmo tempo, não ser permitido simples volta "livre" na encantadora Avenida Bento de Abreu. Temíamos até o último fio de cabelo a possibilidade de encontrar o policial Joel nas ruas. Capitão Bordini, só de pronunciar seu nome tínhamos pesadelos.

CERTA OPORTUNIDADE...

Pinho e eu, passeando com sua Yamaha, num sábado de verão, à noite, na Rua 3 (São Bento), entre o perímetro que cobria o Cine Veneza ao Capri (da Av. Espanha até a Av. São Paulo), no horário de saída do cinema, com o trânsito completamente paralisado, íamos tranquilamente no meio dos carros transitando lentamente e aproveitando para paquerar, quando de longe, na esquina da Avenida Portugal, ao som de seu apito estridente, o policial para manter a ordem, que julgava necessário, com seu braço direito em riste, primeiro arrumou o seu quepe, em seguida ajustou seu uniforme para depois incontinente parar por completo o trânsito, caminhando em passos largos ao nosso encontro naquele funil, objetivando fazer a conferência dos documentos da motocicleta e do piloto. Tudo foi muito rápido. O soldado, acelerando ao nosso encontro e eu, ao mesmo tempo para facilitar a fuga, descendo discretamente da garupa e me misturando na multidão em footing na calçada despejada pela saída dos cinemas. Pinho, com suas enormes e ágeis pernas foi dando marcha-ré na velocidade de seu oponente até a Av. Duque de Caxias, para em seguida, como um corisco, sumir no infinito dos olhos da autoridade.

NÃO TEVE JEITO

Tempos depois, Pinho foi abordado e retido, sua "ficha" conferida de todas as maneiras, sua motocicleta vistoriada em todos os detalhes, mas o tempo, sempre senhor, já havia conspirado a seu favor e ele não era mais simplesmente um piloto graduado pela Federação de Motociclismo, era também "habilitado" pela CIRETRAN de Araraquara.

OUTRO EPISÓDIO MARCANTE

Com Adolphinho Signini, na Rua 9 de Julho com a Avenida Duque de Caxias, prometendo aos policiais colocar "a carniça de sua lambreta irregular" no caminhão que a levaria para o pátio zero. Balanço vai, balanço vem, a lambreta sob o seu comando subiu até meia plataforma; balanço vai, balanço vem, quando em movimento brusco, mudou de direção e deu linha... até hoje essa lambreta não foi presa.

Velhos Tempos, Belos Dias.