JORNAL DE ARARAQUARA
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Correndo devagar... a gente chega lá

Correndo devagar é uma simbologia de que a vitória tem o seu momento exato e só os verdadeiros campeões conhecem a hora de aplicá-la. (Benê)

A corrida era para ser realizada nas ruas de Araraquara, assim como em outras oportunidades e fazia parte dos festejos de aniversário de nossa cidade. Por motivos de política e de segurança, a Prefeitura Municipal e Corpo de Bombeiros não concederam a autorização.

Como tudo estava em cima da hora, a mídia desenvolvida e convite feito para outras equipes também pólos de velocidade (como as de Bauru, Goiânia e Santos), o Moto Clube Araraquara conseguiu que esse evento fosse transferido para a vizinha Jaú, outro reduto de pilotos de competição, em especial dos "Lambreteiros": Waldemar Zago e Carlos Murari, campeões brasileiros da categoria.

Jaú sempre nos recebeu muito bem. Por quatro anos participei de corridas naquela cidade.

Primeiro com Adolpho Signini, que generosamente assumiu a responsabilidade no meu transporte junto à empresa de ônibus, que não permitia a viagem de menores de idade desacompanhados. Depois no ano seguinte com Diogo Faito, quando tive remotas expectativas de fazer minha primeira corrida, com a cinquentinha Italjet, sem preparo algum, com motor fraco e com a embreagem patinando, que resultou em um abandono antes mesmo da prova se iniciar.

MOTO NOVA

Em 1974, já de Yamaha FS1 caprichosamente preparada por Celso (Baiano Faito) Martinez, instalando em minha motocicleta um carburador Italiano de marca Dellorto para alimentar todas as modificações compatíveis com a nova motorização do cilindro e cabeçote preparados conforme projeto da fábrica da Yamaha no Japão, a motocicleta ganhou muita rotação e só trabalhava em alta, o que proporcionava para mim um grande prazer na pilotagem, andando sempre no limite da máquina e do homem, o que me dava esperança de voos maiores. Naquele dia tinha uma expectativa de grande resultado, pois carregava comigo um sentimento simples, quanto mais perto de Penha (José da Penha Moreira) e Neto (Olympio Bernardes Ferreira Neto) estivesse, mais próximo estava da vitória e para isso era necessária muita obstinação, o que não aconteceu porque cai.

PRIMEIRO TOMBO

Acho que foi meu primeiro grande tombo. Não sei por que aconteceu. Só me lembro que vinha acelerando muito, confiante e sem medo algum, ia a limites que achava não ter, quando de repente, numa curva que antecedia uma distância média de alta velocidade, vim fazendo o balé que imitava os grandes pilotos, a redução firme de marchas e freios muito fortes, corpo fora da motocicleta em pêndulo abusado e roda traseira que foi se desgarrando no asfalto me levando ao chão, carregando comigo o carburador diferenciado, instalado lateralmente, que na queda se desprendeu do bloco do motor, pondo fim de prova para mim, encerrando ali meu sonho de vitória.

ANO SEGUINTE

Já em 1975, vitima de outro acidente ainda mais grave, não vim mais para correr, e sim humildemente para aprender, pois nutria ainda as esperanças de algum dia voltar a pilotar, só assistindo e em circuito novo, diferente daquele ao redor da Igreja de São Benedito, das versões anteriores.

Nesta hora tive uma das maiores lições de humildade, própria dos grandes campeões. Acompanhando Penha (José da Penha Moreira), bicampeão Paulista da categoria e por sua sugestão, fizemos uma volta de reconhecimento da pista, fazendo uma caminhada de observação no que me sugeriu de limparmos um pequeno trecho, situação que nunca, nos melhores sonhos teria imaginado, de acompanhar um campeão com uma vassoura limpando uma área de escape. Sua observação para mim foi de que, na primeira volta, com certeza muitos pilotos chegariam juntos naquele local e era preventivo pensar em uma saída diferente de todos. Caminhamos lentamente até aquela esquina e com uma vassoura para cada um, de forma paciente, varremos aquele cantinho inóspito.

"Se precisar... é aqui que vou passar na hora do aperto".

Penha de complexão física muito leve, mecânico perfeccionista extraordinário que era, tinha em sua motocicleta um motor muito potente e ajustado, com muitas e muitas horas de trabalho e aperfeiçoamento, conseguindo com isso uma maravilhosa retomada de curva e manutenção de bom ritmo de corrida, pois sua italianinha Mondial era cercada de todos os detalhes, com o motor trabalhando sempre muito bem tanto em baixa como em alta rotação. Ela possuía também carenagem, o que lhe permitia ao quebrar o vento frontal, alguns Km a mais em velocidade final. Suspensão traseira redesenhada com amortecedores hidráulicos e de molas e ainda freio duplo dianteiro, recurso por demais apreciado aos grandes pilotos em suas estratégias vitoriosas, o que lhe dava o favoritismo para vencer a prova.

Na caminhada a pé, um repórter esportivo local lhe perguntou: "Como pensa vencer aqui?" e ele na sua santa ingenuidade respondeu: "Correndo devagar", o que foi motivo de chacota do entrevistador, que imediatamente retirou o microfone da direção de sua boca e foi embora sarcasticamente. A expressão "Correr devagar", que eu só vim a entender com o tempo, significava para ele nas primeiras voltas, ter calma, paciência, não se arriscar tanto e nem à toa, esperando para ver como ia ser o ritmo da prova e depois focar no que realmente interessava.

FIM DE PROVA

Terminada a corrida, com mais uma brilhante vitória sua, entre abraços e comemorações de todos nós, fomos novamente interrompidos pelo repórter, que agitado perguntou: "Como é vencer aqui?"

- "Correndo devagar.... Correndo devagar.... Correndo devagar... seu babaca." e risos para todos os lados.

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