JORNAL DE ARARAQUARA
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Se aquele fusca falasse... A viagem para Interlagos

Texto: Benedito Salvador Carlos, Benê. Colaboração de Deives Meciano. Originariamente veiculado pela RCI do jornalista Ivan Roberto Peroni.

Este é um "acontecido" que até hoje é motivo de muitas risadas. Tivemos que pedir desculpas e dar três pulinhos para voltar para casa. Uma brincadeira muito saudável de amigos que se tornaram irmãos pela vida, tempo em que só um pedido de desculpas já era o suficiente para a felicidade voltar ao seu lugar. Benê

Dioguinho... Dioguinho, fala Dioguinho três vezes ou a gente não vai sair daqui. As motocicletas de corridas haviam sido embarcadas para Interlagos (SP), em uma camionete no sábado à noite e nós, domingo de madrugada, fomos em um Volkswagen de cor creme e com 1200cc que Negão (Luis Antonio Candido) havia comprado e queria experimentá-lo na estrada. Como sua experiência era só na direção de motocicletas, pediu para Diogo Faito dirigir e assim seguimos. Negão era cuidadoso ao extremo e por medida de cautela ia falando sem parar: Devagar... breca... cuidado... olha a seta e na medida que ganhávamos a estrada, o estresse foi aumentando.

CALMA NEGUINHO

No banco de trás comigo, viajou Maurinho Martinez. Maliciosamente para atormentar Negão, colocava a mão em seu ombro e dizia: Calma Neguinho, calma, e dava risada... O Diogo conhece São Paulo e você não... então calma, calma pô.

Já na capital, quando estávamos na Av. 23 de Maio e o semáforo fechou Negão gritou, olha o sinal. Foi a gota dágua. Diogo brecou instantaneamente, desceu do carro, subiu na calçada e bradou: "Você está enchendo meu saco, pede desculpa e fala Dioguinho três vezes ou este carro não sai daqui". Negão se transformou, enfurecido gritou - entra neste carro, entra logo e Diogo nada de entrar. A tensão com o barulho das buzinas dos veículos que estavam atrás de nós foi aumentando, xingos de todos os lados e Negão desesperado cedeu. Desculpa, desculpa. fala, fala, fala e Negão, com a voz embargada balbuciou... Dioguinho, Dioguinho, Dioguinho me desculpa.

Diogo entrou no carro e logo estávamos no autódromo.

Lá a noticia se espalhou e o sarro continuou o dia inteiro. Na volta, ainda dentro de São Paulo, Negão que era faixa preta em judô, não falava uma única palavra e Maurinho provocando... fala, fala Neguinho, conversa com nós. Quando entramos na via Anhanguera, Negão pediu para entrar em um posto de gasolina para fazer xixi e foi atendido no que pegou a chave do carro e senhor da situação, gritou: Agora todos vocês, gritem três vezes e pulem repetindo: Neguinho, Neguinho, Neguinho... desculpa, senão, além de apanharem, vão voltar a pé para Araraquara. Eu mais que depressa já pulei, pedi desculpa e corri para dentro do carro, sendo acompanhado rapidamente pelos outros dois. Negão era uma pessoa maravilhosa, amigo leal e companheiro de todas as horas. Nascido na Rua Américo Brasiliense, criou-se na oficina dos Faitos feito um membro da família.

Certa oportunidade fui com ele numa noite de sábado ao Restaurante Gimba, point da galera, que estava completamente lotado e sem o menor pudor pediu que nos fosse servido uma jarra de leite puro e gelado para o espanto dos demais. "Moleque, piloto não bebe e não fuma... entendeu".

Ele trabalhou na empresa Miloil aqui em Araraquara, estudou química na Unaerp em Ribeirão Preto, passou para outro plano espiritual muito cedo e muito provavelmente foi o primeiro Negro a ganhar uma corrida válida pelo Campeonato Brasileiro, em prova realizada em Curitiba.

Diogo continua o mesmo. Sempre andando com pressa, sempre falante, sonhando com a descoberta de um tesouro que vai transformar sua vida, sempre o mesmo jovem que conheci ainda menino.

MOTO CLUBE ARARAQUARA

Foi muito mais que uma escuderia de pilotos apaixonados por corridas de motocicletas, foi uma grande família: amigos que se tornaram irmãos de uma vida toda.

Velhos tempos, belos dias...