Robson Antônio Rodrigues, arqueólogo dos mais respeitados, foi indicado pela Sarah Coelho para ser destaque e oferece a chance de conhecermos profundamente os pormenores da arqueologia, da nossa cultura. Os estudantes podem recortar e guardar. Certamente será de grande valia.
JA- Como define a Arqueologia?
R.A.R. Para termos presente a definição da Arqueologia é necessário entender que a vida e o cotidiano dos nossos antepassados sempre foram uma curiosidade e uma preocupação dos seres humanos em diferentes tempos históricos. É dessa curiosidade e preocupação que deu origem a ciência arqueológica. Nesse sentido, a Arqueologia pode ser entendida como o estudo dos objetos e representações produzidos pela humanidade, como parte de uma cultura total, material e imaterial, sem limitações de caráter cronológico, visando a compreensão do funcionamento e da transformação dessas sociedades na busca de correlações entre o homem e a natureza, ou seja, o estudo da materialidade apropriada pelas sociedades humanas. Este processo se dá por meio de uma abordagem interdisciplinar para explicar a complexidade das sociedades estudadas. Isto é, na medida que seus objetos se referem às sociedades humanas, esta ciência compartilha com outras ciências sociais e naturais – História, Geografia, Geologia, Antropologia, entre outras -, a necessidade de uma abordagem mais ampla para sua interpretação. Essa interdisciplinaridade é ampliada na medida em que se observa a importância da troca de dados entre as áreas do conhecimento, para possibilitar um enfoque único na reconstituição da vida humana, como um todo, e o entendimento das relações com o seu meio, buscando visualizar as peculiaridades dos diferentes agrupamentos humanos estudados. Enquanto ciência, a Arqueologia é, antes de tudo, uma forma de olhar o passado das populações humanas, e esse olhar é um reflexo ou produto de seu próprio tempo como resultado da natureza dinâmica que a disciplina possui.
O que esse caminho representa para você?
Uma oportunidade de conhecimento e valorização da diferença humana.
Como se envolveu?
Meu envolvimento com a Arqueologia deu-se a partir da graduação, na universidade, porém, antes mesmo de iniciar a faculdade já me interessava pelas populações do passado. Gostava de ler sobre o folclore brasileiro, sobre as populações indígenas, sobre a história do Brasil. Também sempre viajei e acampei muito. Sendo assim, a relação com locais, pessoas e a natureza já era uma constante em minha vida. Lembro-me de uma viagem que fiz para Minas Gerais fazendo um roteiro pelas cidades históricas (São João Del Rei, Tiradentes, Ouro Preto, entre outras). Além de visitarmos a região de Lagoa Santa onde se encontram as cavernas que um pesquisador dinamarquês, ainda no século XIX, encontrou várias ossadas humanas e que tive a oportunidade de conhecer no Museu que fica no parque de Maquiné, vimos uma caverna bem conhecida em Minas. Posteriormente vim a saber que estas ossadas estão entre as mais antigas já encontradas no Brasil com a data de +/- 12 mil anos. Na FCL, campus da Unesp aqui em Araraquara, tive a oportunidade de ter aula com a Profª. Silvia de Carvalho, minha mestra até hoje, e me envolver com o CEIMAM – Centro de Estudos Indígenas “Miguél Angel Menendéz” – que me orientou para os primeiros estudos sobre a cultura material de populações indígenas e me levou a entrar em contato com um grupo de pesquisa em Arqueologia da Unesp de Presidente Prudente, onde iniciei meus estudos arqueológicos.
Qual a importância dessa ciência?
A relação entre Arqueologia e sociedade deve ser entendida a partir de uma perspectiva educacional. Conhecer o passado implica em definir muitos aspectos da nossa atualidade. Compreendendo o ser humano do passado poderemos entender a ocupação humana nos diversos ambientes naturais, os indivíduos e suas organizações hoje. Essas questões são de grande interesse da nossa sociedade. Por intermédio da teoria arqueológica podemos desenvolver idéias e interpretar aspectos do comportamento humano do passado procurando organizar elementos para explicar por que determinados fenômenos humanos aconteceram num tempo e lugar; suas origens, desenvolvimento, mudanças e, muitas vezes, seu fim. A sociedade é curiosa e tem sede de explicações. As pessoas querem saber por que tratar os mortos de diferentes modos, o por que das ações religiosas, o que se comia, por que as cidades e as populações se desenvolveram de modos tão diferentes, de onde viemos, entre tantas indagações. A Arqueologia tem uma série de públicos diferentes e em vários níveis de apreciação. O interesse pela Arqueologia não deve se limitar apenas aos indivíduos que lêem livros e visitam monumentos ou se informam por meio dos veículos de comunicação especializados. É importante que cada vez mais pessoas tenham acesso ao conhecimento do passado e que seu desejo pela informação seja saciado por intermédio de ações públicas e de comunicação social promovidas pelos espaços culturais estruturados na cidade, pois uma sociedade interessada e informada não destruirá seu próprio passado, além de criar uma visão mais crítica quanto às ideais que costumam ser transmitidas, não se deixando levar por ações políticas e ideológicas que não visem seu bem estar social.
Como é o trabalho do arqueólogo?
A Arqueologia, enquanto ciência, investiga o passado do homem, por meio da obtenção e detalhada análise de seus bens culturais. As principais atividades desta área de estudo compreendem: pesquisa bibliográfica, escavações, estudos ambientais, trabalhos de laboratório bastante complexos e os procedimentos interpretativos. Os dados são obtidos diretamente no campo, ou seja, no sítio arqueológico, que é a fonte primeira e de maior importância na pesquisa e no seu planejamento. Este trabalho se dá por intermédio do levantamento de informações diversas, confirmação e fotografias do local, coletas de superfície, entre outros trabalhos, para se constatar a dispersão máxima dos vestígios arqueológicos no solo observado e projetar posterior escavação. Para detalhar um pouco mais esta idéia posso dizer que as principais etapas do processo de pesquisa abrangem atividades de gabinete, de campo e de laboratório. As Atividades de Gabinete compreendem levantamento, aquisição, leitura, análise e seleção da bibliografia e da documentação essencial à pesquisa; a aquisição da documentação cartográfica disponível, entre outras atividades. As Atividades de Campo compreendem o reconhecimento de área a ser pesquisada visando a localização e registro das ocorrências e sítios arqueológicos; o levantamento arqueológico com coletas de dados e o detalhamento ambiental, observando-se o potencial arqueológico e o conseqüente levantamento e registro de sítios em uma determinada região. As prospecções que envolvem técnicas de evidenciação do registro arqueológico ligadas às intervenções de pequeno porte, tais como a limpeza e o estaqueamento do terreno, sondagens, retificação de perfis, coletas superficiais cartografadas, cortes e pequenas decapagens, etc., que proporcionarão o detalhamento ambiental local e, principalmente, as coletas sistemáticas intensivas. Por fim, a escavação que é a prática arqueológica por excelência, onde se promovem intervenções de porte no registro arqueológico (sítios), mediante metodologia definida por meio de diferentes técnicas (limpeza superficial e levantamento planialtimétrico do terreno, registro extensivo dos sítios arqueológicos, incluindo núcleos de solos antropogênicos, áreas de processamento das indústrias líticas e de confecção de cerâmica, enterramentos, etc.). As Atividades de Laboratório implicam na análise dos materiais arqueológicos obtidos nas coletas realizadas nos estágios de reconhecimento de área e levantamento arqueológico; a análise e aproveitamento da documentação cartográfica; as análises tecno-tipológicas dos materiais arqueológicos (líticos, cerâmicos e outros), incluindo registro, limpeza, numeração e catalogação; datações; catalogação e sistematização do material fotográfico e a produção de documentos da investigação sistemática para subsidiar a organização da divulgação científica.
Mensagem
Aos jovens interessados em seguir uma carreira diferente das mais conhecidas do mercado quero dizer que vale a pena acreditar em seus sonhos mesmo que a sociedade ou a família não vejam da mesma forma o seu desejo ou queiram desencorajá-los argumentando pelo insucesso. Além disso sempre é tempo de começar de novo se algo der errado ou não sair como o esperado.