Antonio Delfim Netto
Há vinte anos um caloroso aperto de mãos dos presidentes José Sarney e Raul Alfonsín inaugurava uma era de relacionamento inteligente entre Brasil e Argentina, que trouxe excelentes resultados para os negócios, com a expansão dos investimentos e uma ampliação importante do comércio no sul do Continente. No encontro histórico em que decidiram dar todo o apoio à formação do Mercosul, os dois estadistas decidiram que era possível acabar com uma das maiores amolações em nosso relacionamento, que era o sentimento de desconfiança recíproco que mobilizava as forças armadas do Brasil e Argentina e que se exprimia em todas as nossas divergências, na economia, na política, etc. Esse sentimento foi plenamente substituído por um sistema de parcerias no campo político e na esfera dos negócios dos setores privados, sustentado na simples e boa compreensão que nós precisamos da Argentina e eles precisam de nós.
Na última semana o jornal Clarín, de Buenos Aires, publicou uma notícia, aparentemente estimulada por algum comentário da Casa Rosada, dando conta do desgosto do presidente Néstor Kirchner com a “desenvoltura” diplomática de seu colega brasileiro. O dirigente argentino não é propriamente uma pessoa bem humorada e, abstraindo-se a crise de ciúmes em relação a Lula, ele tem algum motivo para os amargos comentários dirigidos ao Brasil. Quando foi para a queda-de-braço com os mercados financeiros após a suspensão dos pagamentos das dívidas interna e externa, a Argentina esperava receber apoio do Brasil e ficou muito ressentida com a nossa “indiferença”. Ora, o governo brasileiro, enfrentando uma situação de perigosa vulnerabilidade externa, não tinha como dar apoio à política argentina de decretação da moratória. Eles acreditavam, ainda, que o Brasil deveria ter tido uma ação mais enérgica junto ao FMI, em defesa dos seus pontos de vista durante o período dramático que precedeu a retomada das negociações.
As questões comerciais produzem alguma discussão mas normalmente as divergências se acertam entre os parceiros privados e ninguém precisa dar murro na mesa. Nas contas do comércio dos últimos 10 anos, a Argentina teve saldos importantes até 2004, quando a balança se inverteu a nosso favor. Não é por aí, então, que a arquitetura criada por Alfonsin e Sarney pode desarrumar. O problema é que, apesar de um aparente alívio das tensões sociais e políticas nos últimos meses, a realidade da situação econômica da Argentina continua muito delicada. Houve uma ligeira recuperação, mas não se deve imaginar que isso pode caminhar sem dificuldades. Kirchner precisa se convencer que é do interesse do Brasil o progresso argentino e portanto vamos ter um papel importante nessa recuperação. Ele deve segurar um pouco sua reserva de mau humor, porque tem cobrança pesada pela frente, interna e externamente. Nós temos experiência para ensinar-lhe que não se pode dar o cano no mundo e sair por aí assoviando, como se tudo estivesse resolvido. O tango está apenas começando…
E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br