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Está ficando

João Baptista Galhardo (*)

Nos anos 50 e 60, o namoro era mais recatado. Os jovens não tinham carro. Não havia motel. Liberdade para um dormir na casa do outro, nem pensar. As famílias se conheciam melhor só na véspera do casamento. Mãos ou braços dados. Um furtivo beijo. Uma contradança de rosto colado no 22 de Agosto, no 27 de Outubro ou no Araraquarense. Cinemas: Odeon ou Paratodos. Acompanhar a procissão na Semana Santa. Ir a cultos religiosos. Principalmente à missa das l0h. na matriz. No dia de Finados visitar juntos o cemitério. Essa a regra. Reinava o recato. Hoje a moda é o “tá ficando”, que nem os jovens sabem explicar bem no que consiste. Uns dizem que rola apenas um beijo, um abraço. Outros dizem que chegam ao sexo. Mas uma coisa é certa, “tá ficando” significa não assumir compromisso. Prevalecem a liberdade, amassos e beijos. E até mais.. Dorme um na casa do outro. Vão ao bar comer torresmo e tomar caipirinha. Tira-se o sapato. Coça-se o pé sobre a cadeira. Nenhum requinte ao se vestir. No tempo antigo o beijo era uma “bitoca”. Hoje é beijo de língua, de faringe, de laringe e de esôfago. Um mergulha dentro do outro. Não é nem beijo. É endoscopia. Se por um lado o “tá ficando” tira o encanto, a magia e o feitiço do namoro, escrachando o relacionamento, se este progredir para o casamento, não poderá nenhum dos dois, alegar futuramente que foi enganado. Com a autonomia do “tá ficando”, casará sabendo se o companheiro ou companheira, tem halitose, sudorese, asseio, caspa, unha comprida nos dedos dos pés, prisão de ventre, se ronca, sinusite, se escova ou não os dentes, etc., tamanha a liberdade já havida entre ambos. O casamento é tão sério que deveria ter prazo de carência ou como dizem os profissionais do direito “cláusula resolutiva”. Deveria ser ratificado depois de um ano sob pena de ser cancelado automaticamente pelo Registrador. Não haveria nesse intervalo qualquer comunicação de bens. Cada um levaria o que é seu, inclusive os respectivos presentes. No “tá ficando” tem essa vantagem de se conhecerem e facilitar a escolha do futuro consorte. Já no tempo antigo se casava mais “enganado”, “tapeado”. A regra era a dos namorados só apresentarem virtudes. Algumas inexistentes. Inclusive dos pais. “Papai é isto, papai é aquilo”. Descoberto era um pudim de pinga, com calo de umbigo de balcão de boteco. Mamãe? “É Professora”. Era chic naquele tempo ser filha de professora. Verificada, a realidade era bem diferente. Aos quinze anos conheci uma menina que fazia de tudo para se passar por rica. Nos finados chorava e rezava só em tumulo bonito de granito e metal dourado, que nada tinha a ver com a sua família. Naquele tempo prevalecia o romantismo, mas pouco se sabia um do outro. Num baile jamais um moço se retirava dizendo que ia ao banheiro. Iria comprar fósforos ou dar um recado para um amigo. Da mesma forma as moças “vamos retocar a maquiagem”. Minhas tias eram “bagueteiras”. Moças que se reuniam para bordar meias em casa para a Lupo. Serviço terceirizado que reforçou o orçamento de muitas famílias naquela época. Xeretando uma dessas reuniões de trabalho (e de fuxicos) ouvi a história do Biguá que freqüentava o bar do Monteiro, na companhia de amigos delas. Embora ele contasse mais de quarenta anos, não havia “conhecido”, ainda, uma mulher. Casou e quando voltou da lua de mel, os amigos e colegas de cachaça foram buscá-lo para tomar rabo de galo. Queriam mesmo é saber o que ele achara da sua primeira vez. Ele disse aos amigos: “querem saber mesmo? As mulheres não estão com tudo isso que falam não…..Mais é fama. Contavam, também, as bagueteiras, uma história que depois virou piada”. O Simão conseguiu esconder de Farida, nos dez anos de namoro, que ele portava um chulé terrível, usando talco de polvilho, pomadas ou leite de rosas. Ela, por sua vez, tinha um mau hálito de matar morcego voando. Camuflava com chicletes, balas de hortelã ou chita. Em último caso mastigava cravo da índia. Mas na lua de mel um queria contar para o outro as respectivas desventuras. Afinal dormiriam juntos. Chegando ao hotel de Poços de Caldas, o Simão colocou seus sapatos com as meias suadas e fedidas embaixo da cama e correu ao banheiro para lavar os pés. Voltando encontrou Farida, sentada no leito. Ela lhe pediu que aproximasse. Colocou as mãos nos seus ombros e bem pertinho disse “eu tenho um segredo para lhe contar”. Simão se adiantou : “não precisa falar Farida. Eu já sei. Você comeu as minhas meias”.

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