Especialistas vêem “fator 11 de setembro” nas explosões de Madri

Mark Trevelyan

Matando grande quantidade de civis aleatoriamente, as explosões de quinta-feira em Madri carregam a assinatura da moderna era da militância, criada pela Al Qaeda, seja quem for o verdadeiro autor dos atentados.

Analistas de segurança disseram que, caso os separatistas bascos do ETA tenham colocado as bombas que mataram pelo menos 192 pessoas em trens madrilenhos na manhã de quinta-feira, esse ato foi ao menos em parte inspirado nas táticas da Al Qaeda.

Apesar da insistência espanhola em atribuir o ataque ao ETA, alguns especialistas se mostraram relutantes em descartar o envolvimento de militantes islâmicos.

Ainda nesta quinta-feira, uma suposta carta da Al Qaeda, publicada pelo jornal árabe Al Quds, a organização islâmica assume a autoria do atentado em Madri e disse que um grande ataque contra os EUA está “90 por cento pronto”.

“Este tipo de operação é o estilo do terrorismo no nosso século. É o novo modus operandi que vem dos militantes islâmicos”, disse o analista alemão Rolf Tophoven, lembrando que tradicionalmente o ETA escolhe banqueiros, políticos e policiais como vítimas.

Roland Jacquard, diretor do Observatório Internacional do Terrorismo, em Paris, disse que as explosões de quinta-feira sugerem a influência do “efeito World Trade Center” nas estratégias de grupos militantes tradicionais — uma referência aos atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, atribuídos à Al Qaeda.

Manuel Coma, especialista em segurança no Real Instituto Elcano, de Madri, sugeriu que a rede de Osama bin Laden pode ter “inflacionado” o terrorismo global.

“Desde o 11 de setembro, houve um salto qualitativo. Ataques menores já não são adequados. Eles (o ETA) precisam ter objetivos maiores para ter influência”, afirmou.

Um quarto analista, Sebestyen Gorka, disse que qualquer evidência da participação ou influência islâmica em uma guerrilha européia tradicional, como o ETA, representaria um importante precedente.

Seria uma completa reversão da antiga tendência pela qual grupos como o norte-irlandês IRA transferem sua experiência para militantes em países subdesenvolvidos, como as Farc colombianas, fornecendo tecnologia e treinamento, segundo ele.

Pesam contra o ETA fatores como o momento dos ataques, três dias antes das eleições gerais na Espanha, e uma série de recentes prisões e apreensões de explosivos, que indicavam o planejamento de um grande ataque por parte do grupo basco.

Mas, ao contrário do que normalmente ocorre em atentados do ETA, não houve aviso prévio. Também é inédita a magnitude do ataque, que fez oito vezes mais mortos do que o atentado mais violento comprovadamente já cometido pelo grupo.

Além disso, a ocorrência de explosões simultâneas, dez no total, é uma característica da Al Qaeda.

As Bolsas européias tiveram uma forte queda por causa da possibilidade do envolvimento islâmico, mesmo que o governo espanhol tenha em princípio rejeitado tal possibilidade.

“Há característica de cada um deles (do ETA e da Al Qaeda)”, disse um funcionário norte-americano à Reuters. “Você tem ataques múltiplos, múltiplas explosões, em diferentes lugares em um curto período de tempo, o que é muito a cara da Al Qaeda.”

Os militantes islâmicos têm muitos motivos para visar a Espanha, que prendeu vários supostos seguidores da Al Qaeda nos últimos anos. Interesses espanhóis já foram atingidos antes, como por exemplo em maio de 2003, quando houve um atentado suicida contra um restaurante espanhol em Casablanca, no Marrocos.

“A Espanha é um alvo dos muçulmanos. Ela se alinha à Grã-Bretanha e aos Estados Unidos na guerra ao terror, e já vi declarações de militantes islâmicos reivindicando partes da Espanha para o mundo islâmico”, disse Richard Evans, editor do Jane’s Terrourism and Insurgency Centre. “Seria prematuro descartar a esta altura o possível envolvimento dos militantes islâmicos”, afirmou.

Caso o ETA tenha cometido os ataques, vários analistas consideram que isso demonstra uma divisão no grupo e o surgimento, após a prisão de vários militantes de primeiro escalão, daquilo que Jacquard chamou de “terceira geração” — ativistas mais jovens, menos experientes, porém mais radicais.

“A única explicação que tenho é que há um ETA enfraquecido, mas mais radical, por trás disso. Em outras palavras, os membros mais velhos foram todos presos, e sobraram essas pessoas muito jovens e muito radicais”, disse Joachim Krause, da Universidade de Kiel, à emissora alemã N-TV.

“Talvez eles tenham tomado a Al Qaeda como modelo, ou outros terroristas que recorrem a ataques espetaculares, como em Nova York e Washington. Eles viram que é assim que se atrai a atenção da mídia mundial.”

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