Texto: Carolina Marques
Eles são loucos, dispara o ator. Em América, Thiago faz o inescrupuloso atravessador Alex e garante que sua afirmação tem justificativas racionais. Afinal, ele sentiu na pele o que um imigrante ilegal passa em solo estrangeiro ao tentar chegar à terra prometida a qualquer custo. Thiago acompanhava Jayme Monjardim – até então diretor da novela – para selecionar locações no deserto mexicano. Enquanto fotografavam alguns locais, foram detidos e passaram horas na imigração até que tudo fosse devidamente explicado. “Eles têm os motivos deles, compreendo que vivam nessa adrenalina, mas são muito assustados”, minimiza.
Além da polícia, o deserto impressionou Thiago. Ele divaga ao lembrar as cenas que viu nas terras áridas que separam habitantes do terceiro mundo do sonho capitalista. “Só quem viu o que vi por lá, pode dizer. A sensação é de que praticamente é impossível sobreviver”, descreve. O ator destaca a aridez, o calor e a situação de abandono em que vivem os imigrantes e também os coiotes. “As pessoas parecem não se importar em passar por tamanho sacrifício, com a possibilidade de morrerem. São movidas por essa esperança de dias melhores”, teoriza.
É justamente da exploração dessa fé que vive Alex. O charmoso e não menos crápula aprendiz de traficante – seja de drogas, seja de gente -, também não mede esforços para conseguir o que deseja. O poder a qualquer custo. “Acho que ele é um sobrevivente. E em muitos casos o sucesso está em sobreviver”, argumenta Thiago.
Para chegar mais perto das verdadeiras razões de Alex, Thiago criou uma história particular para seu personagem, que pelo menos até agora não demonstrou ter passado na trama. Na visão do ator, Alex era um brasileiro como tantos que sonham em fazer a América. “Acho que ele chegou lá com US$ 100 no bolso e se virou como pôde para ser um cara bem-sucedido no que faz”, imagina.
Ao investigar o perfil de Alex, Thiago conheceu algumas histórias parecidas com a que desenhou para pontuar sua interpretação. “Tem muita gente que chegou com uma mão na frente e outra atrás e tem carro, casa, ajuda a família no Brasil”. Para Thiago, a grande questão da novela é saber de cada um qual o preço que pagaria para ir atrás do sonho. “Acho que isso é muito bem sacado. A gente sempre paga um preço, mas temos de ficar atentos para esse preço não ser alto demais”, diz.
Compromisso
O tema e a complexidade do personagem fizeram Thiago aceitar de pronto seu nome nos créditos da novela. Fazer um antagonista também pesou, apesar de não ser o primeiro. O ator já tinha vivido papéis controvertidos na apagada “As Filhas da Mãe” e em “Pecado Capital”.
“Geralmente os vilões são engraçados, têm humor. Me divirto com a total falta de compromisso do Alex”, justifica. A personalidade multifacetada do rapaz também agradou ao ator. “Ele é a possibilidade de fazer vários personagens em um só. Ele é inteligente, mau caráter. Ora está nas altas rodas, ora no deserto”, avalia.
Nos próximos capítulos, Alex pode conhecer o amor. Está previsto que ele se envolva com a doce Mari, papel de Camila Rodrigues. “Esse pode ser um caminho. Mas pertence à Glória. Acho que, politicamente falando, ele poderia rever conceitos”, opina. Thiago acredita que Alex é produto de uma cultura que se instaurou no Brasil. “Ele é intermediário de sonhos, sem contar sobre os pesadelos do caminho. Enfrentamos um abismo social e econômico no país e isso acaba justificando o número de pessoas que vai embora”, acredita.
O ator de 27 anos jura que nunca teve vontade de morar fora do Brasil para juntar uma grana, mas não descarta uma carreira internacional talvez até nos próprios Estados Unidos. “É um caminho. Quero morar lá um tempo para estudar”, revela.