“Era tudo uma brincadeira”
Natália Lage conta como é crescer diante dos olhos dos telespectadores
Texto: Fabíola Tavernard/PopTevê
Para Natália Lage, os corredores da Globo são tão familiares quanto a casa da avó é para outras pessoas. A atriz até ouve comentários típicos de tias que não se vê há muito tempo: “Como você cresceu!”, repetem funcionários e colegas do elenco de “A Lua Me Disse”, novela em que faz a misteriosa Beatriz. Essa intimidade não é gratuita. Entre idas e vindas, a atriz de 26 anos já tem 17 de emissora – aos nove participou de seu primeiro seriado, “Tarcísio & Glória”, protagonizado pelo casal mais famoso das telenovelas brasileiras. “Eu não tinha a menor noção do quanto os dois eram famosos. Para mim, era tudo uma brincadeira em que, depois do colégio, eu ia para casa, decorava os textos e gravava depois”, recorda.
Por ter começado a carreira muito cedo, a atriz teve uma série de dúvidas na adolescência, além das intermináveis questões típicas dessa fase. “Tive um período meio escorpião revoltado, pensava: Não fui eu que escolhi e já tenho uma história dentro da tevê”, lembra. A situação piorou quando Natália percebeu que seu tipo físico em alguns momentos não se adequava aos papéis. “Eu engordei um pouco e saí do padrão. Se não podia ser a ninfeta gatinha, faria o que?”, conta.
Mas logo os hormônios se acalmaram e Natália pôde se adequar a personagens no teatro e cinema. Além das 12 novelas que hoje contabiliza na carreira, a atriz encenou, entre outras coisas, “Zastrozzi”, uma adaptação de Daniel Herz e Selton Mello para o texto do canadense George Walker. No cinema, fez uma aplaudida participação em “O Homem do Ano”, de José Henrique Fonseca. Livre dos quilinhos que tanto a atormentaram, a atriz protagonizou cenas de sexo com Murilo Benício e acredita que a produção foi um divisor de águas em sua carreira. “Existe essa coisa do crivo sexual para se constatar que alguém cresceu. A imagem que tinham de mim ainda era de uma menina”, avalia.
Agora, ela comemora o fato de ter feito crescer uma personagem que, na sinopse, tinha uma tímida descrição de duas linhas. Ao querer saber maiores nuances de Beatriz, a atriz ouviu dos autores, Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa: “Ela não vale nada…”. Desde então, a vilãzinha já disputou o amor de Gustavo, vivido por Wagner Moura, com a heroína e irmã, Heloísa, de Adriana Esteves. Ainda pôde mostrar a origem do ódio que sente por Heloísa e agora se vê envolvida com o casal de vilões, Ester e Tadeu, de Zezé Polessa e Marcos Pasquim. Na reta final da trama, as constantes reuniões entre os três dão margens a interpretações pouco confessáveis. “Esse é o grande barato da tevê. É o único veículo que trabalha com o susto. A gente grava uma cena e, na semana seguinte, tudo muda. É um improviso que nos mantém em estado de alerta”, filosofa.
Mesmo depois de tantos anos de carreira, Natália Lage só conseguiu o papel na trama através de um teste. Mas ter de desbancar colegas de profissão não chega dar um “nó” na cabeça da jovem veterana. “É normal. Há uma certa pressão do público e da mídia quando não estamos na tevê. Apesar de ter me afastado um pouco, jamais deixei de trabalhar”, reforça.
Ávida por aprender e com “pavor” da alienação, a atriz cursa o terceiro período de Ciências Sociais na PUC do Rio de Janeiro. Mesmo sabendo que não quer exercer a profissão, ela conta que escolheu o curso pela visão abrangente sobre os mais diferentes assuntos que proporciona. Além disso, as pessoas com quem convive na faculdade a ajudam a fugir um pouco do universo televisivo, onde ego inflado é o que não falta. “As discussões são em outro nível. Ficar muito aqui dentro, lidando com artista o tempo todo, me deixa ‘pra cima’ demais. Lá fora as pessoas têm outra cabeça”, conclui.