Elemento surpresa
Depois de driblar os galãs de “América”, Caco Ciocler toma ares de protagonista
Texto: Carolina Marques/ PopTevê
Caco Ciocler é um falso tímido. O olhar quase perdido, um jeito de franzir as sobrancelhas, a fala pausada e uma mão levada ao rosto a cada resposta mais pensada parecem ser apenas um artifício inicial. Ao sentir-se seguro, Caco relaxa. É brincalhão, irônico, bem humorado e sim, é muito sedutor. Mesmo na contramão dos galãs – ele não tem propriamente o “physique du rôle” para tal -, chama a atenção. Tanto que seu personagem Ed pode até arrebatar a mocinha Sol, papel de Deborah Secco, no final de “América”. “Sinto agora que a Glória Perez está soltando meu freio. Estou muito apaixonado, louco para saber o que vai acontecer nos próximos capítulos”, diz o ator, referindo-se à autora da novela das oito da Globo.
Para Caco, não chegou a ser surpresa o envolvimento de seu personagem com a protagonista da história. A sinopse já dava algumas indicações. “Claro que teve um momento em que fiquei em dúvida se ia rolar ou não este romance”, conta. O ator acha que o fato de Sol ter chegado à vida de Ed deu a ele uma nova respiração. “Ele é muito racional e ela traz mais o corpo, a latinidade, a alegria. O público gosta de ver uma pessoa aprendendo a ser feliz”, teoriza.
Ao se envolver com duas mulheres ao mesmo tempo, Ed poderia ter provocado a reação negativa do público. “Tinha duas opções: ou fazia dele um cafajeste ou ficava encantado por ela sem ter consciência”, pondera. A perversa May, personagem de Camila Morgado, acabou descartada, mas Caco vê entre Ed e Sol coisas mais importantes que um romance açucarado na novela das oito. “É bacana ver o encontro de dois diferentes. Estamos vivendo uma fase hipócrita de respeitar as diferenças. Mas a gente só vai evoluir quando gostar das diferenças”, ensina. Caco acredita que para o personagem ter a repercussão que está tendo nas ruas foi preciso um “casamento” entre ele e a autora. “Se o autor se apaixona pelo personagem é um grande exercício de abertura. Não adiantava eu estar num pique e ela em outro”, analisa.
Ator de teatro, com forte presença no cinema, Caco já está há quase dez anos na tevê. O primeiro papel foi uma participação na primeira fase de “O Rei do Gado”, como Geremias Berdinazi. Como naquela época, o moço ainda detesta se ver em cena. “Fico uma semana em crise. Aprendi que não devo ver, entendeu?”, tenta convencer o interlocutor de suas razões. Crenças à parte, Caco não se refuta em se render à tevê e agradecer pelo aprendizado. “Pela primeira vez pude me ver, ouvir minha voz, fui vendo uns vícios. A televisão me deu um ajuste fino. Independe fazer uma minissérie, um especial ou uma novela. O que interessam são os bons personagens”, argumenta.
Até encarar a tevê com olhar libertário, Caco passou inevitavelmente pelo patamar de galãs. Viveu um herói romântico em “A Muralha” e logo depois foi convidado para viver outro mocinho em “Esplendor”. Mas a idéia do ator já era outra. “Não queria ficar engessado. Tenho medo de só fazer o galã e acho que isso emburrece o ator”, justifica ele, que até brinca com a nova condição de “bonitão cobiçado”. “Olha, sei que tenho um fã clube na faixa de 45 e 65 anos. Faço mais a linha de genro que toda sogra queria”, brinca o ator de 33 anos.
Mas por pouco o “genro que toda sogra queria” não tornou-se engenheiro químico. Freqüentava a universidade e também os cursos de teatro. “Aguentei isso só até o quarto ano!”, conta ele, que além de atuar, também se aventura na direção. Já dirigiu uma peça de teatro, um curta e está produzindo um documentário/show de Ney Matogrosso. “Adoro me ver como diretor, porque na verdade não me vejo, né!? Acho que sou melhor diretor que ator”, avalia. Conhecido por ficar com a cara de seus personagens, muitas vezes Caco toma emprestado certas características. “Estou muito Ed. Ele é justo, bem apessoado, culto, sensível, inteligente. Enfim, eu!”, brinca mais uma vez, deitando por terra qualquer traço de timidez e esbanjando charme.