Em defesa do tempo presente

Léo Rosa de Andrade (*)

É muito comum ouvir-se a expressão “hoje em dia”. No mais das vezes se a usa para desmerecer a época corrente, afirmando-se que atualmente as coisas – todas e quaisquer coisas – são piores do que no passado.

Então, conclui-se sem a devida reflexão: hoje em dia somos mais dinheiristas, mais interesseiros, mais insensíveis; hoje em dia não temos valores; hoje em dia nem mesmo se pode confiar muito nas pessoas.

São afirmações equivocadas, sem perspectiva histórica. Hoje em dia o mundo é extremamente melhor do que foi no passado. É mais solidário socialmente, é mais cômodo individualmente; é muito mais seguro.

Gente de mau caráter houve e há. Não é escassa no presente, não foi pouca no passado. Tolos, igualmente, existem de sobra, mas o pretérito também não foi econômico na oferta de curtos de entendimento.

A natureza humana mudou pouco – se mudou alguma coisa –, não obstante os discursos moralistas de direita, que veem degeneração no avanço dos tempos, e de esquerda, que asseveram o crescimento da injustiça.

O que está inteiramente diferente são os ambientes privado e social em que a humanidade vive. E eu diria que, felizmente, estão expressivamente diferentes.

Estão muito mais francos e generosos; mais “descontrolados”.

Não se analisa a vida contemporânea com facilidade. É difícil falar da época atual com isenção, porque ela é elemento de compreensão, incidindo sobre a nossa consciência, contagiando nossas conclusões.

Arrisco-me, todavia, a alçar argumentos em favor da contemporaneidade. Sem desprezar as misérias do mundo – tantas e tão tristes –, ouso afirmar que vamos relativamente mais confortáveis, moral e materialmente.

Longe de mim declarar o “fim da História”, mas, estudando-a, sei que temos mais liberdade individual, mais meios de bem-estar físico e mais conhecimento à disposição de um número crescente de pessoas.

Conhecimento acera a curiosidade; aprende-se, embora aprender doa. Saber faz questionar o mundo, desprende de ideologias, inclusive das religiosas. Sem verdades explicativas, pensa-se, mesmo que pensar angustie.

Comodidades nos proporcionam tempo, permitem divertimento. Desafeitos ao uso do tempo e um tanto angustiados pela falta de explicações para o mundo, às vezes nos extravasamos na diversão; nos excedemos.

Menos censura, mais excesso. O excesso é perdulário da própria vida, mas é erro reparável para quem o errar educa. Resta menos mal, de toda forma, o exceder-se que a submissão ao autoritarismo privado ou público.

Conhecimento, tempo e conforto propiciam liberdade; então, incertezas. Se não me dizem aonde ir, eu tenho que decidir. Se ideologias (mais as religiosas) são confrontadas pelo saber, estou solto das rédeas da tradição.

Eis-me, assim, num mundo sem respostas. Cabem-me as perguntas. Cabe-me respondê-las. Tenho que lidar comigo com minha luz própria. Luz própria pede conhecimento, que pede esforço para conhecer.

O mundo está menos complicado, mas está mais complexo. É mais difícil. Agora, contudo, eu posso; antes não podia. Hoje há possibilidades ao meu alcance; antigamente nem era permitido buscá-las.

Sim, as circunstâncias da sociedade de consumo são avassaladoras. Se não nos precatamos, elas nos tragam. De fato, elas fascinam, mas, pelo andar da História sempre houve o seduzimento dos tolos de hábito.

No passado, multidões foram manipuladas pela invenção de deuses (sempre maus), reis (em geral, déspotas), organizações religiosas e aparelhos de poder à esquerda é à direita, em nome da salvação no Céu ou na Terra.

Na contemporaneidade, somos massas manejadas pelas mídias ou aglomeradas em bolhas de internet, recebendo “sabedoria” robotizada, objeto de algoritmia; não somos mais lúcidos ou mais éticos.

Sem desconsiderar as armadilhas do “sistema”, entretanto, insisto: no tempo presente é possível desvencilhar-se: quem se atina e recusa o facilitário banal reciclado tem mais e melhor com que viver a vida.

(*) É Doutor em Direito pela UFSC, Psicanalista e Jornalista.

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