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De batedeira a pen-drive: vitória da sensibilidade

Rosa Godoy (*)

Cada vez que uso aquela batedeira custo a crer que ela tem quase 50 anos. Comprada em 1959, presente do meu pai à minha mãe pelo nascimento de um dos meus irmãos, era a coqueluche da época. E por incrível que pareça dura e funciona até hoje.

Lembro-me perfeitamente da data. Já éramos três e o anúncio da chegada do novo irmãozinho deixou-nos todos excitados. Vê-lo no hospital foi um encanto. Depois de uma irmã nascida pequenina e delicada como uma boneca, o outro foi o maior sucesso. Era um bebezão lindo, enorme, enchia o berço (na verdade, não coube no berço convencional de recém nascidos, foi necessário colocá-lo num outro maior, importado especialmente da pediatria).

Depois de três dias de hospital, dali a pouco ele e minha mãe estariam conosco, a família mais uma vez aumentada com um novo membro.

A ansiedade da espera foi interrompida por um susto. Carlos, o vizinho de fundos, arteiro como só, despencou de cima de uma árvore de mais de 5 metros de altura esborrachando-se no chão. Gritos, correria, felizmente nada de mais grave, apenas escoriações e meia dúzia de tapas da mãe que já lhe havia recomendado mil vezes para não subir na mexeriqueira podre…

Passado o episódio, a hora não passava. Quando entrei no quarto dos meus pais para ver pela décima vez se tudo estava em ordem para receber minha mãe e o bebê, lá estava ela em cima da cama: uma caixa enorme embrulhada para presente, encimada por um lindo laço de fita vermelha. Mais tarde, meu pai explicaria orgulhoso: “É o último modelo de batedeira de bolo, é da Arno, um show, faz de tudo, bolo, sorvete… A moça da loja explicou direitinho como funciona, mas está tudo no manual, é só seguir as instruções”.

Apesar de ter apenas pouco mais de 9 anos, chamou-me a atenção aquela demonstração de carinho, uma das muitas que presenciaria durante as próximas cinco décadas que conviveria com eles. Dizem que os homens nunca se lembram de duas coisas – do aniversário de casamento e de tirar a cueca do chão depois do banho. O que meu pai fazia com a cueca eu nunca soube, mas o aniversário de casamento e as demais datas ele nunca esqueceu nenhuma: 03 de novembro, aniversário de namoro, 17 de julho, aniversário de casamento, 15 de outubro, aniversário dela e daí por diante, incluindo-se a data e o horário de nascimento (e, de quebra altura e peso ao nascer) de cada um dos filhos (e depois dos netos). Repetia tudo milhões de vezes como sendo de grande importância e assim o achávamos, sem nunca questionar. Tanto é que, ao longo dos anos, decorei estas e muitas mais, quase sem perceber. Ainda as guardo todas na memória.

Aquele filho, o quarto (seriam cinco ao todo), nasceu às 9h15min, pesando 4.975g, o maior de todos. Para comemorar a ampliação da família, um belo presente para aquela que havia lhe dado mais um dos melhores dentre todos os presentes – mais um filho. E daquela vez ele extrapolou: inovou, gastou o que não tinha, marcou a data para sempre, parece que adivinhando que a famosa batedeira o superaria na existência, sem nunca regatear, fiel testemunha da sua satisfação em ser pai pela quarta vez.

A chegada em casa foi uma festa. Constatar a alegria da minha mãe ao abrir a caixa foi uma satisfação ímpar para os que, como eu, protagonizaram a cena. “Noooooossa, que beleza! “Claro que grande surpresa não houve, pois minha irmã, de apenas três anos havia antecipado o presente logo à entrada “Não tem nenhuma boleira naquela caixa na sua cama, viu, mãe?”, disse, agarrando-lhe a saia com as duas mãozinhas, para tentar escalá-la até alcançar-lhe o colo, pouco se importando se havia ou não um bebê a ocupá-lo.

Com surpresa ou sem surpresa, a cena evidenciava um casal feliz: a mulher pelo agrado e o homem por agradá-la. Aliás, uma das coisas mais bonitas de se ver na vida é um homem apaixonado agradando a mulher. E nisto meu pai também foi mestre: amou-a perdidamente em cada instante da vida e nunca escondeu isto. Presenteá-la era regra sem exceção.

No entanto, nem sei bem porque, aquele presente, em especial, ficou na história e na memória de todos nós. Talvez pela durabilidade ou por ter sido uma das primeiras modernidades a que tivemos acesso. Antes, só o fogão a gás e a geladeira, esta última comemoradíssima, até pelos primos que não se cansavam de ir buscar gelo ou de associarem-se aos nossos picolés, preparados com tudo que era fruta que existia por aqueles lados. De quintal, é claro, pois as da quitanda eram só para quando se ficava doente!

Quanto à batedeira, ficou comigo, de herança. Ainda a uso constantemente, apesar de cada vez mais lenta e gasta pelo tempo. Parece estar diminuindo como a velhinha do “Cem anos de solidão” de Garcia Marques, aquela que encolheu tanto que acabou guardada no armário.

Fico esperando o dia em que irá parar de funcionar. E aí, como farei para me lembrar daquele dia, principalmente quando a memória insistir em falhar???

Recentemente uma amiga me contou que ganhou um pen-drive de presente do marido quando o filho nasceu. Na época, era uma inovação em termos de material de informática, uma jóia da pós-modernidade (até no preço), nada mais prático e apropriado para uma especialista da área como ela. Achei lindo e inusitado, tanto pelo motivo da comemoração como pela originalidade, bem diferente da (tradicional) jóia que algumas mulheres costumam ganhar nestas ocasiões. Afinal, há mães e mães e mãe pós-moderna merece presente à altura, não é para qualquer uma. Apesar de saber que nessa era nada mais dura tanto tempo – nem o amor, nem os presentes – desejo ardentemente que o pen-drive da minha amiga (ou pelo menos a lembrança dele) dure tanto quanto a batedeira da minha mãe, só para eternizar aquele ato de amor…

(*) É enfermeira e colaboradora do JA.

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