Conformismos, iluminação

Léo Rosa de Andrade (*)

Embora o reneguemos, temos nossos conformismos. Não assumimos e até costumamos desabonar nosso\as desafeto\as com o epíteto de conformista. A verdade, contudo, é que todo\as padecemos um tanto desse mal. Às vezes somos conformado\as por insuperáveis “índices de adversidade” (Sartre); noutros momentos nos conformamos por “servidão voluntária” (La Boétie). Aliás, é bem confortável (sobre)viver conformado\a: pouca “incomodação”.

Conformismo é a “1. atitude ou tendência de se aceitar uma situação incômoda ou desfavorável sem questionamento nem luta; resignação, passividade; 2. tendência ou atitude de se acatar passivamente o modo de agir e de pensar da maioria do grupo em que se vive” (Houaiss). Francamente, somos bastante dado\as a conformações pessoais, domésticas, profissionais, sociais e políticas. Na conformidade, espontânea ou incontornável, estão embutidos os custos da submissão.

Esse tema era caro aos iluministas. O Iluminismo foi um “movimento intelectual do século XVIII, caracterizado pela centralidade da ciência e da racionalidade crítica no questionamento filosófico, o que implica recusa a todas as formas de dogmatismo, especialmente o das doutrinas políticas e religiosas tradicionais” (Houaiss). Suas pretensões jamais foram cumpridas satisfatoriamente. No dizer de Ido Michels, as Luzes prestaram-se à construção de valores relevantes à humanidade, porém, por razões históricas fartamente discutidas, na presente quadra a Razão vive um déficit nas práticas do mundo. As massas estão solicitando governos autoritários.

De toda forma, sobre as condições de possibilidade de realizar o Esclarecimento, o próprio Immanuel Kant, filósofo do século XVIII (o último grande pensador das razões da era moderna), pontifica: em O que é o Iluminismo?, de 1784, nomeou esse comportamento conformado de menoridade. Conforme suas reflexões, a Filosofia das Luzes era a libertação da humanidade desse triste estado de alienação cúmplice e resignado. Edito excertos do texto:

“lluminismo é a saída do homem da sua menoridade. A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem. É por culpa própria, se a sua causa não residir na carência de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo, sem a guia de outrem. Tem a coragem de te servires do teu próprio entendimento! Eis a palavra de ordem do Iluminismo.

A preguiça e a cobardia são as causas de os homens, em tão grande parte, continuarem de bom grado menores durante toda a vida; e de a outros se tornar tão fácil assumirem-se como seus tutores. É tão cômodo ser menor. Se eu tiver um diretor espiritual que em vez de mim tem consciência moral, então não preciso de eu próprio me esforçar. Porque a imensa maioria dos homens (inclusive todo o belo sexo) considera a passagem à maioridade difícil e muito perigosa é que os tutores de bom grado tomaram a seu cargo a superintendência deles.

É, pois, difícil a cada homem desprender-se da menoridade que para ele se tomou quase uma natureza. Até lhe ganhou amor e é por agora realmente incapaz de se servir do seu próprio entendimento, porque nunca se lhe permitiu fazer semelhante tentativa. Preceitos e fórmulas são os grilhões de uma menoridade perpétua. São, pois, muito poucos apenas os que conseguiram mediante a transformação do seu espírito arrancar-se à menoridade e encetar então um andamento seguro.

Mas é perfeitamente possível que um público a si mesmo se esclareça. Mais ainda, é quase inevitável, se para tal lhe for concedida a liberdade. Sempre haverá, de fato, alguns que pensam por si, mesmo entre os tutores estabelecidos da grande massa que, após terem arrojado de si o jugo da menoridade, espalharão à sua volta o espírito de uma estimativa racional do próprio valor e da vocação de cada homem para pensar por si mesmo.

Semear preconceitos é muito danoso. Um público só muito lentamente consegue chegar à ilustração. Novos preconceitos, justamente como os antigos, servirão de rédeas à grande massa destituída de pensamento. Mas, para esta ilustração, nada mais se exige do que a liberdade; e, claro está, a mais inofensiva entre tudo o que se pode chamar liberdade, a saber, a de fazer um uso público da sua razão em todos os elementos. Porém, de todos os lados ouço gritar: não raciocines! Por toda a parte se depara com a restrição da liberdade. Mas qual é a restrição que se opõe ao Iluminismo?” Eu diria: conformismo.

Artur Morão, tradutor do texto, alerta que Kant propõe um ideal inatingível: a consecução da genuína e plena ilustração intelectual. Lembra que é impraticável estar no mundo sem nexos relacionais que ligam os seres humanos no seu destino. Porém, o apelo ao exercício autônomo da razão, à liberdade de pensamento, assim como a crítica à ordem estática das sociedades, permanece com validade. Como exigência moral de independência de pensamento oponível ao conformismo, o texto é atual.

(*) É Doutor em Direito pela UFSC, Psicanalista e Jornalista.

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