Como está nossa água?

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Mapa da Água, pela Repórter Brasil.

Da Redação

O JA foi o primeiro veículo na cidade a chamar atenção para pesquisa da “Repórter Brasil”, que disponibilizou alerta sobre a qualidade de água no país. A “Repórter Brasil” lançou um “mapa da água”, em que se consulta a situação da água entre os anos de 2018 e 2020. Em Araraquara, foram identificadas três substâncias nocivas (em concentração supostamente acima de limite aceitável): Cádmio, Trihalometanos Total e Mercúrio.

Claro que a preocupação é grande, especialmente, no caso do Cádmio, conhecido por ser cancerígeno. Segundo informe da CETESB  (https://cetesb.sp.gov.br/laboratorios/wp-content/uploads/sites/24/2022/02/Cadmio.pdf): “O metal cádmio é utilizado principalmente como anticorrosivo em aço galvanizado; o sulfeto de cádmio e selenito como pigmentos em plásticos e os compostos de cádmio na manufatura de pilhas e baterias recarregáveis de níquel-cádmio, em componentes eletrônicos e reatores nucleares”.

A pesquisa da Repórter Brasil é extensa, tendo levado vários meses. Mesmo assim, nos debruçamos no material utilizado por eles: as bases de dados do SISAGUA, que cuida do controle de qualidade da água destinada a consumo humano (água potável), conforme Portaria do Ministério da Saúde nº 2.914/2011. Nessa base, encontramos informações trazidas pelas entidades responsáveis pelo tratamento/abastecimento de água, em amostras semestrais: no caso de Araraquara, informações fornecidas pelo próprio Daae.

Seria inviável, em poucos dias, promover análise ampla  como feito pela Repórter Brasil, tal a lista enorme de substâncias que constam das planilhas (https://dados.gov.br/dataset/controle-semestral). Por isso, escolhemos analisar as planilhas no que mais nos assustou: a presença de Cádmio. Fizemos, assim, análise de dados de Araraquara das planilhas de 2018 a 2021, com as amostras indicando presença de Cádmio. Ou seja, fomos além do ano de 2020, limite temporal da pesquisa da Repórter Brasil.

No controle semestral do ano de 2018, em algumas amostras, o Cádmio chamou atenção: em cinco oportunidades, o elemento químico aparece na concentração de 0,003 mg/L (foram as cinco amostras de valor mais alto). No controle semestral do ano de 2019, o maior valor apareceu uma única vez e era menor do que de 2018: foi de 0,002 mg/L. No controle semestral do ano de 2020, em todas as amostras, em que o Cádmio apareceu, a concentração foi bastante baixa: 0,0005 mg/L. O mesmo se deu no controle semestral de 2021: nas amostras com presença de Cádmio, a concentração foi baixa, 0,0005 mg/L.

Primeira observação: fizemos um recorte, destacando os maiores valores nas amostras, mas o Cádmio aparece em outras amostras (em concentrações menores). Segunda observação: o fato do Cádmio constar numa amostra significa verificar sua  presença naquele momento, não implica dizer que a água esteja efetivamente contaminada.

A propósito da segunda observação, tentamos ouvir especialista em química, que preferiu não ser identificado, nem expor uma opinião clara a respeito. Sua justificativa, contudo, serve de alento: o fato de constar uma determinada substância nociva num momento de medição não significa efetivo risco à saúde humana. Para concluir isso, mais estudos e informações seriam necessários.

Vê-se que, quanto ao Cádmio, o possível problema teria se dado no ano de 2018, com a concentração referida de 0,003 mg/L. A propósito dessa concentração, as planilhas de controle semestral (de todos os municípios, não apenas de Araraquara), no que se refere ao Cádmio, apontam o VMP (valor máximo permitido) de 0,005 mg/L. Então, poder-se-ia dizer que, fazendo-se valer esse parâmetro, não haveria risco à saúde humana.

Ocorre que, pesquisando, encontramos outro parâmetro relevante. Segundo a Portaria do Ministério da Saúde nº 888/2021 (ou seja, bem recente), o parâmetro do VMP para água potável é exatamente o mesmo que foi encontrado em algumas amostras do ano de 2018: 0,003 mg/L (mesmo critério da Organização Mundial de Saúde, OMS). Ou seja, não estariam acima do limite máximo, mas seriam o próprio limite máximo. No ponto, parece ter havido um erro no “mapa da água”. Mesmo assim, inegável que uma substância tão perigosa no limite máximo permitido deva ser objeto de preocupação e estudo.

Provocamos vários entes/órgãos/autoridades sobre os resultados apontados pelo “mapa da água”. É que, se os dados não servem à conclusão de risco efetivo atual, servem à conclusão de que algo não está bem. Então, os órgãos de controle deveriam aprofundar a análise, até para entender a razão da contaminação e o que pode ser feito para diminuir riscos futuros.

Ora, da verificação que fizemos nesta semana, constatou-se, em várias amostras, presença de Cádmio; em algumas delas, no ano de 2018, no limite máximo permitido. Isso seria motivo de atenção, certamente. Mas nos parece mais: o sistema de controle da qualidade de água parece pedir algum aprimoramento, especialmente, no sentido de uniformizar os critérios técnicos de valor máximo permitido. Estivesse sendo aplicado o critério efetivamente válido (0,003 mg/L), já poderia ter chamado atenção. Mas isso não se deu. Por quê? Porque as planilhas de controle de amostras trazem outro valor, provavelmente usando referência já ultrapassada. Culpa do Daae? Não. O SISAGUA é federal. De qualquer forma, questionamos o Daae a respeito da divergência de critério técnico. Ainda, não recebemos resposta. E, a propósito, seria desejável, para facilitar acesso à informação pela população, que as planilhas com todas as substâncias presentes na água de Araraquara (e de todas as cidades, na verdade) estivessem acessíveis no “site” do próprio Daae. No momento, as informações trazidas pelo Daae, em seu próprio “site” são bem mais restritas (https://daaeararaquara.com.br//relatorio-de-qualidade-da-agua-2/). Uma lei municipal poderia vir nesse sentido, aumentando qualidade de informação local. Papel que caberia à Câmara Municipal concretizar.

O posicionamento inicial do Daae já foi noticiado pelo JA em seu site: a autarquia disse estranhar as informações do “mapa da água”, afirmando seguir parâmetros técnicos exigidos; provocada, a Prefeitura Municipal respondeu, fazendo referência à resposta do Daae. Provocamos – ainda, sem resposta -, Câmara Municipal de Araraquara, Ministério Público Estadual de Araraquara e Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). Também, pensando em consequências econômicas do tema, perguntamos à cervejaria local, se pretende tomar alguma atitude a título de prevenção.

Problematizando o tema de contaminação das águas e seu registro, pode-se atribuir responsabilidade a quem, afinal? Ao Daae? Possivelmente, não. Pois, conforme destacado, o Daae segue os critérios do próprio SISAGUA (que, por sua vez, parece apresentar alguma inconsistência em parâmetro importante). E, quanto aos vários elementos químicos nocivos encontrados – vamos recordar que muitos foram identificados, mas em valores abaixo do máximo permitido -, qual o motivo disso? Pois é: sujeira, poluição, que nós mesmos produzimos.

Bebemos o que jogamos fora ou usamos sem o cuidado necessário. Descartar, sem observar as regras sanitárias, eletrônicos/baterias/pilhas pode contaminar solo, chegando na água; remédios, idem. Uso indiscriminado – infelizmente, muitas vezes, estimulado pelo próprio governo brasileiro – de agrotóxicos, também, gera mais poluição: encharca o solo, corre para rios e córregos, infiltra-se nas águas subterrâneas. A importância de debate sobre o chamado “PL do Veneno” (projeto de lei que facilita aprovação e uso de agrotóxicos no país) – aprovado pelo Câmara dos Deputados e, agora, em tramitação no Senado – é evidente e ganha contornos dramáticos. O Brasil torna-se cada vez mais permissivo com o veneno que nos mata a todos.

Quanto à pergunta do título desta matéria: pode-se dizer que a água pede atenção, merece cuidado e mais estudo. Mas nos trouxe algum alívio perceber que, no caso do Cádmio, a concentração que podia preocupar deu-se em 2018, mas não se repetiu nos anos seguintes.

Lemos, portanto, a notícia da Repórter Brasil como um grito alto de advertência: precisamos repensar nossos hábitos, cuidar do nosso lixo, natureza e meio ambiente. Ou, então, poderemos morrer pela boca, ou melhor, pela água.

As íntegras das respostas dadas até o momento seguem abaixo.

Resposta do DAAE:

Qualidade da água do DAAE segue normas internacionais

Referente à matéria publicada no Portal UOL na data de hoje, que trata da qualidade da água em vários municípios do Brasil, no período de 2014 a 2020, a qual cita dados de Araraquara, o Daae (Departamento Autônomo de Água e Esgotos) esclarece que segue rigorosamente todas as normas e padrões estabelecidos pela Portaria 888/21, que rege os padrões de potabilidade da água, bem como os tipos de análises e frequência da coleta de amostras.

Causaram estranheza as informações trazidas pela reportagem já que, em momento algum, o Daae foi notificado por órgão oficial de controle sobre qualquer alteração nos padrões de potabilidade da água para consumo humano.

Ao contrário disso, o Daae possui uma equipe técnica altamente qualificada e preparada, formada por servidores públicos que, em sua maioria, há décadas prestam serviço e garantem a qualidade da água de Araraquara. A água do nosso município possui todos os certificados de qualificação das agências reguladoras como a ARES, bem como a monitoria, fiscalização e certificação do ISO.

Ressalta-se ainda que todas as informações constantes no Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua), que, pelo que consta na matéria, serviu de base para a sua elaboração, é alimentado pelo próprio Daae. Portanto, dados sustentados pelos relatórios elaborados cotidianamente pela autarquia que atestam a qualidade da água do nosso município.

Importante ainda ressaltar que o DAAE elabora de duas em duas horas relatórios sobre a qualidade da água captada em suas estações, sempre agindo com muita transparência e zelo pelos interesses públicos.

Todas as informações divulgadas serão verificadas, já que o DAAE trabalha com transparência e divulga cotidianamente todas as suas informações.

DAAE Araraquara

Resposta do Grupo HEINEKEN sobre este assunto:

Temos a Qualidade em nosso DNA e garantimos um mesmo padrão global rígido em todo o processo, da escolha da matéria-prima até a produção, envasamento e distribuição. O abastecimento da cervejaria de Araraquara é feito por poços e, utilizamos tecnologias e processos ultracontrolados que incluem filtrar e equilibrar os compostos da água utilizada nos produtos, garantindo a composição ideal para a produção e para o consumo, sem riscos à saúde ou de alterar o sabor e aromas. Reforçamos que a saúde e a segurança de todos é uma prioridade e, por isso, temos diversos indicadores internos, medidos constantemente pela equipe de qualidade global e um comitê local e todos os resultados obtidos estão dentro das especificações das normas de potabilidade de água para consumo humano.

 

Após publicação desta matéria, o Daae disponibilizou em sua rede social dados e esclarecimentos importantes:

Apuração do Daae comprova confiabilidade e qualidade da água tratada em Araraquara

Após apuração interna rigorosa, o Daae esclarece sobre os apontamentos levantados por matéria publicada, em 07 de março de 2022, no portal UOL, referente ao “Mapa da Água”, da ONG Repórter Brasil, repercutida por demais órgãos de imprensa.

Na referida matéria, foi divulgado que, em Araraquara, os parâmetros “Cádmio”, “Mercúrio” e “Trihalometanos” foram detectados na água que abasteceu o município, entre 2018 e 2020.

Para o atendimento à legislação vigente à época (Portaria de Consolidação nº 5/2017), do Ministério da Saúde, os dados de monitoramento de água são inseridos manualmente pelo Daae no Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (SISAGUA), de forma periódica, tendo como base os relatórios de ensaio emitidos por laboratórios externos que possuem acreditação junto ao Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (INMETRO).

Após consulta aos dados informados ao SISAGUA, foram observadas três ocorrências, uma para cada parâmetro apontado pela matéria.

Para os parâmetros “Cádmio” e “Trihalometanos” foi verificado que houve equívoco na inserção dos dados no Sisagua, comprovado após análise dos relatórios de ensaio que deram origem a esses dados.

A ocorrência do parâmetro “Cádmio” ocorreu no dia 17/01/19, em amostra coletada no Reservatório do distrito de Bueno de Andrada. A análise em laboratório externo acreditado foi finalizada em 23/01/19 e apontou, conforme relatório, o valor de 0,0005 mg/L (miligramas por litro), dentro dos parâmetros permitidos pela legislação, que é de 0,005 mg/L. O valor inserido de modo equivocado no Sistema foi de 0,1 mg/L.

A ocorrência do parâmetro “Trihalometanos” ocorreu no dia 15/08/19, em amostra coletada na rede de água no distrito de Bueno de Andrada. A análise em laboratório externo acreditado foi finalizada em 28/08/19 e apontou, conforme relatório, o valor de 0,00294 mg/L, dentro dos parâmetros permitidos pela legislação, que é de 0,1 mg/L. O valor inserido de modo equivocado no Sistema foi de 2,94 mg/L.

Neste caso, no ato de inserção do dado no sistema, uma desatenção à unidade de medida que consta no relatório como microgramas por litro e não em miligramas por litro, conforme exigido pelo Sisagua. Pois, um miligrama por litro equivale a um mil microgramas por litro.

Portanto, os dois parâmetros estavam de acordo com os padrões de potabilidade e o que ocorreu foi a inserção equivocada dos valores no Sisagua.

A ocorrência do parâmetro “Mercúrio” ocorreu no dia 16/08/19, em amostra coletada na rede de água do Jardim Iguatemi, onde foi detectada uma concentração de 0,0021 mg/L, que é superior ao Valor Máximo Permito para este parâmetro (0,001 mg/L).

Neste caso, de acordo com a legislação vigente na época (Portaria de Consolidação nº 5/2017), esse resultado não deveria ser analisado de forma pontual e sim considerado o histórico do controle de qualidade da água. Neste caso, foi realizado o levantamento e monitoramento tanto dos resultados dos doze meses anteriores a esta ocorrência, como nos doze meses seguintes. E a conclusão foi de que a ocorrência foi pontual, uma vez que todos os outros resultados para este parâmetro estavam de acordo com os padrões de potabilidade, conforme tabela.

Monitoramento da concentração de mercúrio na rede Iguatemi
***Vide foto da tabela anexada junto aos relatórios

O Daae ressalta que a água distribuída neste período no município estava de acordo com todos os padrões de potabilidade, não tendo sido encontrada nenhuma substância prejudicial à saúde humana, confirmados pelos relatórios de ensaio disponíveis na Gerência de Tratamento de Água e Esgotos e anexados junto à nota.

Finalizando, a autarquia preza pela distribuição de água tratada com qualidade para toda a cidade, respeitando toda a legislação vigente.

 

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