Chuva assassina

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José Renato Nalini (*)

Como quase tudo na vida, as coisas têm seu lado bom e seu lado mau. Chuva, por exemplo, é saudável para a vegetação e para renovar o abastecimento de água dos reservatórios, córregos e aquíferos. Mas também pode matar as pessoas. Quantas não são levadas pela correnteza nas grandes precipitações pluviométricas? Mas também existem os deslizamentos, as erosões, as destruições de estruturas frágeis, que são aquelas habitadas pelos mais carentes.

Essa chuva assassina tem se intensificado em virtude das mudanças climáticas geradas pelo aquecimento global. Pode parecer menos importante do que as mortes causadas pela pandemia, um episódio excepcional e que não foi bem administrado. Mas foram mais de quatro mil mortes – mais exatamente, foram quatro mil, cento e onze óbitos no Brasil. Uma média de 1 a cada 3 dias, em virtude de alagamentos, enxurradas, inundações, movimento de massa, tornado, vendavais, ciclones. Dessas mais de quatro mil mortes, mil quinhentas e onze ocorreram no Rio de Janeiro. Isso foi apurado e comprovado pelo Atlas de Desastres no Brasil, do Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional. E o ano de 2023 ainda não entrou na conta. Nem se diga que foi um ano sem tragédias.

Em fevereiro, as chuvas de 18 e 19 atingiram São Sebastião e causaram deslizamentos, principalmente na Barra do Sahy, o que ocasionou a morte de sessenta e quatro pessoas.

São Paulo tem, como programa da Secretaria Executiva das Mudanças Climáticas, o PPCV – Plano de Prevenção de Chuvas de Verão. Toda cidade precisaria contar com algo semelhante. Pois tudo indica a intensificação de ocorrências quais os fenômenos extremos, hoje quase a fazer parte do que a narrativa chama de “novo normal”.

Aquilo que tem acontecido por culpa nossa – a omissão no trato da natureza – talvez não possa vir a ser eliminado. Mas, à impossibilidade de reverter o quadro dramático do planeta, é possível mitigar os seus efeitos. Há soluções macro, como drenagens, piscinões, retificações, obras de infraestrutura. Mas há soluções micro, que muitos heróis anônimos praticam discreta, mas eficazmente.

Se a humanidade for detentora de uma parcela adicional de juízo, que tem faltado há séculos, ela poderá deixar de chamar a chuva de assassina.

(*) É Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

(Imprensa Renato Nalini)

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