João Baptista Galhardo (*)
Pensar muito para falar e não falar tudo que pensou é uma lição diária de vida. Isto porque nem tudo o que se pensa ou se julga pode corresponder à verdade. Palavra de difícil conceito que aparece em todos os momentos da vida, quando é essencial descobri-la. Por maior que seja a convicção de alguém sobre um fato ou uma determinada pessoa, pode não ser verídica. Quantos juram ter visto OVNI (objeto voador não identificado) ou Ets? Há muitos anos um amigo araraquarense, com seu pequeno avião decolou de Ilha Bela para prestar um favor e nunca mais foi visto. Muitas histórias surgiram a seu respeito. De prisão à fuga para o exterior. Muitos juraram por Deus que o tinham visto de madrugada no seu escritório. Outros o viram algemado em Brasília. As versões eram as mais absurdas e todas sustentadas com fervor. Tempos depois encontraram o avião destroçado na mata atlântica, com seus ossos ali dentro. É assim a vida. A prova testemunhal, ou seja, a que o cidadão presta a respeito de determinado assunto ou de uma pessoa, está sujeita a falhas, ditas com a convicção de estar certo. Muitos depoimentos em julgamentos pelo Tribunal do Júri apontam detalhes sobre fato acontecido há algum tempo. Grande parte é irreal, embora dita como verdade. Por isso Malatesta sustenta que o depoimento pessoal é a prostituta das provas. Por certo não teve intenção de ofender as profissionais do amor, mas a de registrar a sua fragilidade. Até mesmo o silogismo a partir de premissas equivocadas pode levar à mentira ou não corresponder ao verdadeiro. Por exemplo: Deus é amor. O amor é cego. Nem por isso todo cego é Deus. O Manoel perguntou e lhe ensinaram o que é lógica: “você tem aquário em sua casa”? O Manoel respondeu que sim. Bem, se tem aquário, tem peixes. E se tem peixinhos é porque você tem filhos, crianças. Certo? Se você tem filhos é porque você é homem. Lógico? Manoel, impressionado com a lição perguntou ao Joaquim: você tem aquário ? Eu não. Então você é veado. Verdade é o que toda pessoa quer ouvir, mesmo desconfiando que seja mentira. Desde que lhe agrade passa a ser a sua verdade. Esta pode ser pura criação da mente de cada um, principalmente de quem fala. Até a mentira dita repetidamente pelo mentiroso passa a ser verdade para ele. Embora já com resquício de insanidade. Dizem que o tempo é o pai da verdade. Nem sempre. Muitos levam no caixão para o túmulo as suas inverdades, as suas mentiras, as suas calúnias, as suas difamações, as suas certezas, sabidamente inautênticas, mas nunca confessadas. A Maria, à beira da morte, disse ao marido que o primeiro filho do casal não era dele. Ele para surpresa dela disse “que alívio. Você me tira um peso da consciência porque o segundo não é seu”. Mas como? Eu sou a mãe. Não é. Lembra? Ainda no hospital você me entregou a criança toda suja e fedida para eu trocar a fralda? Eu fui ao berçário e a troquei por uma limpinha. A mulher amorosa e lisonjeira quando afirma que prefere o marido tal como hoje, aos sessenta anos, do que quando ele tinha vinte ou trinta, pode não estar falando o que sente, mas para o marido passa a ser a sua verdade. Aliás, o dia em que a mulher parar de mentir (no bom sentido) o homem para de sonhar. Certa vez um amigo, ao escurecer, admirou por muito tempo “uma lebre” comendo grama e mexendo as orelhas. Depois verificou que era o vento que mexia um pedaço de jornal. A verdade é o que se imagina estar vendo ou ter visto. Num elevador em Buenos Aires, à noite, entraram um brasileiro, um argentino, uma linda francesinha e uma velhinha alemã. Acionado o elevador, deu-se um apagão. No escuro permaneceu cada um em seu lugar. De repente ouve-se um beijo barulhento e em seguida uma bofetada. A alemã não diz, mas pensa: bem feito. Algum dos homens aproveitando o escuro foi beijar a francesa e esta lhe pregou a mão na cara. A francesa, por sua vez: alguém quis me beijar e acertou a velhinha que esbofeteou o atrevido. O argentino: que brasileiro desgraçado, beijou a francesa e esta pensando que fui eu me pregou a mão no rosto. Retornando a energia saíram do elevador o argentino, a alemã e a francesa, cada um com a sua convicção. Por fim saiu o brasileiro rindo. “Que barato. Eu mesmo beijei meu braço e aproveitei para encher a cara do argentino”.