Sebastião Almeida (*)
O Estado de São Paulo concentra um terço da produção nacional de álcool. Não é difícil imaginar o quanto isso representa no Produto Interno Bruto (PIB) paulista. Mas os danos ambientais provocados no processo de produção do álcool são, em muitos casos, proporcionais à riqueza gerada pela cana-de-açúcar.
Quem mora próximo às regiões produtoras sabe os malefícios provocados pelas queimadas na época da safra. Municípios como Ribeirão Preto, Araraquara, Sertãozinho e São José do Rio Preto que concentram grande número de usinas, são castigados pela fuligem da palha que forma uma espécie de “neve negra” que cai nos períodos de colheita. O ar também é comprometido pelo aumento da poluição, principalmente nos meses mais secos. Os estudos mostram que a camada de ozônio é comprometida, agravando o “efeito estufa” sobre o planeta.
A eliminação total das queimadas é prevista em lei federal, estaduais e até municipais. Em São Paulo, por exemplo, a lei estadual prevê que a queima da cana seja erradicada gradualmente até 2031.
Mas até agora muito pouco foi feito. A diminuição das queimadas implica na substituição da colheita manual pela mecanizada. Atualmente, apenas 35% da colheita nos canaviais paulistas são feitos por colheitadeiras. No Brasil, o índice é de 25%.
O principal argumento dos que defendem o método tradicional – manual e com a cana queimada – é que a mecanização vai provocar um grande desemprego no campo. De fato, é necessário pensar em alternativas viáveis para a mão de obra empregada no setor. E elas existem, desde que haja vontade política para isso.
Um exemplo é a própria aplicação do processo mecanizado que só funciona em áreas mais planas, como as regiões produtoras do Estado de São Paulo. Em glebas de declive acentuado deve ser empregado o corte tradicional. Caso a plantação não seja queimada, será necessário nesses locais um número maior de trabalhadores, já que a colheita da cana crua no podão é mais difícil e lenta. Ou seja, a mão de obra dispensada em fazendas mecanizadas seria absorvida, pelo menos parcialmente, por outras onde as máquinas não conseguem operar.
Não é preciso lembrar que é necessário desenvolver projetos públicos e privados para a requalificação profissional dos chamados “bóias-frias”, que hoje exercem atividades insalubres para garantir o sustento de sua família. As usinas, por exemplo, podem desenvolver programas para empregar essas pessoas em outros setores ou então oferecer cursos para que eles aprendam uma nova profissão, longe dos canaviais.
A colheita da cana crua também oferece vantagens para o próprio usineiro. A palha, que hoje é queimada, pode ser utilizada como alimento animal e combustível nas usinas. Em termos ambientais, essa palha depositada no chão torna-se um excelente adubo natural. O bagaço extraído da cana crua, muito melhor que a queimada, também pode ser utilizado como ração animal.
Diante de tudo isso, é possível afirmar que a erradicação das queimadas da cana-de-açúcar não gera apenas benefícios ambientais, mas econômicos e sociais, desde que o processo seja bem implementado. A produção do álcool e do açúcar no Brasil ganha novo fôlego e estatus com a volta da popularização do combustível nos automóveis e o incremento das exportações para outros países. Não é possível aceitar que esse novo rumo do setor implique em degradação do meio ambiente, como ocorreu no passado e ocorre até hoje. Queimadas são processos primitivos e não são condizentes com a força adquirida pelo agronegócio brasileiro, nos últimos anos. Não é possível que essa potência, responsável por grande parte do PIB brasileiro, não desenvolva alternativas ambientais e sociais viáveis para a produção da matéria-prima das usinas de açúcar e álcool. Basta de queimadas.
(*) O autor é deputado estadual pelo PT, presidente da Comissão de Meio Ambiente da Assembléia Legislativa e coordenador da Frente Parlamentar em Defesa da Água. E-mail: gotadagua@sebastiaoalmeidapt.com.br