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Avião enfrenta tempestade na região

A semana foi marcada por tempestade, enchente, descarga elétrica, morte, destruição de casas, carreta virada e até um inédito tornado na região de Campinas. A araraquarense Rosa Godoy vinha de Brasília com uma aeronave da TAM (tripulação de alta qualidade) quando ela e demais passageiros foram notificados sobre um temporal. Com uma infinidade de voltas, percebeu estar voando sobre a região de Araraquara. Num depoimento especial ao JA fala dos medos, da descarga de adrenalina, do alívio ao final da angustiante travessia aérea e, diante do comportamento masculino, indaga:

Por que os homens são tão contidos, até mesmo diante da morte?

“Se alguém me dissesse que aquilo poderia se dar e daquela maneira, juro que acreditaria mas, agora, depois do acontecido, ainda parece ter sido apenas um sonho ruim, um pesadelo daqueles que ficam dias e dias incomodando e à espreita para aparecer quando a gente menos espera. Sorte que, em geral, estas coisas passam e para ficar de bem com elas, é só seguir a filosofia do Garfield: quando alguma coisa estiver incomodando muito, é só ficar quietinho num canto esperando passar… E eu completaria: depois, com a cabeça fria, se vê o que fazer com isso!

É a volta de uma viagem aérea, depois de um dia de trabalho intenso e extremamente prazeroso. Apesar do cansaço, a sensação é de bem-estar, com as idéias fervilhando em torno da continuidade do projeto. Nestas ocasiões, como dizia minha mãe, costumo andar a 3 metros do chão e literalmente não ver quase nada do que se passa à minha volta. Sou capaz de passar por mim mesma e não me reconhecer. Nem por isso, deixo de notar que a tripulação parece tensa. “Que nada, impressão minha”, penso.

As condições metereológicas em Brasília são excelentes e depois de passar o dia todo trancafiada numa sala, nem por sonho posso imaginar que faz 24 horas que o céu em São Paulo está desabando.

Lá pela metade da viagem, bem em cima de Araraquara, o avião começa a sacolejar. Orientação de permanecer sentados, sinal de apertar cintos ligado, serviço de bordo interrompido, até aí tudo dentro do esperado para um dia de final de outono quando as instabilidades costumam ser mais freqüentes. De repente, a situação começa a piorar e gradativamente a tripulação coloca os passageiros em estado de alerta, através da voz calma e jovial do comandante. O horário estimado de pouso é alterado uma, duas, três vezes; o tempo em São Paulo passa de chuvisqueiros ocasionais para chuva e assim por diante. Na telinha, a distância percorrida aumenta, ao invés de diminuir… Pelos meus cálculos, Araraquara está mais distante de São Paulo que o Rio de Janeiro, um absurdo! O que será que está acontecendo?

Finalmente, depois de mais de uma hora neste clima, o anúncio da aterrissagem em Congonhas. Ufa, que alívio! Já estava com medo e completamente zonza, mas tentava me distrair pensando em tudo o que havia feito durante o dia e no que ainda teria para fazer, já que não conseguiria fazer o que gosto nestas ocasiões: ler a revista de bordo. Permanecia de olhos fechados há algum tempo, porém quando a coisa esquentou (de sacolejo passou para turbulência forte, com as coisas do bagageiro jogando, assim como outros objetos inclusive da traseira da aeronave) abri os olhos e tentei avaliar o ambiente. Até então tinha me comportado como se estivesse só no mundo. Olho à minha volta e vejo que só há homens, a maior parte caracteristicamente executivos (com aparência de jovem ou de meia-idade, de terno e gravata, com suas infalíveis agendas de couro, celulares e notebooks à mostra). A expressão facial é absolutamente indecifrável: parecem todos feitos de cera, com nenhuma emoção visível, nenhum sinalzinho de medo, por menor que seja. “Caramba, só eu que estou com medo? Impossível! Estou acostumada a viajar e o que está acontecendo aqui agora é absolutamente raro. O que será que esta gente está sentindo?”.

A dúvida não se desfaz quando tudo parece não ter como ser pior. Sem conseguir pousar em Congonhas, conforme anunciado, numa manobra drástica, o piloto arremete em direção a Cumbica a toda velocidade para vencer a resistência do vento e ultrapassar a tempestade. E aqueles homens permanecem impassíveis, sem nada que possa exprimir o que pensam ou sentem. Sinto como nunca a falta de um gesto de parceria, de companheirismo, de “estamos juntos nisso”. E penso…Que pena! Se morrer é um ato solitário, a proximidade da morte também precisa ser? Parece que sim, embora estivéssemos todos à mercê do mesmo destino, contando inevitavelmente com a qualidade da máquina e com a habilidade de um único homem para fazê-la obedecer, o piloto (que agora, como todo o restante da tripulação, está sumido, mais mudo que uma porta). Será que ele está com medo? Ironicamente, lembro-me do filme “Apertem os cintos, o piloto sumiu” e até ameaço um sorriso…

Nem tenho tempo de completá-lo. Eis que o avião estabiliza e a voz conhecida me tira do estado de transe: “Senhoras e senhores, aqui quem fala é o comandante. E, diga-se de passagem, bem mais calmo agora… etc etc etc”. Que alívio… Ufa! Não estou sozinha, ele também estava com medo. E parece não se constranger ao expressá-lo.

O avião já no chão, a surpresa é ainda maior quando constato que todos, absolutamente todos os que estavam à minha volta, de um jeito ou de outro, nas entrelinhas dos comentários, expressam medo da morte, impotência e fragilidade. A diferença é que se, como para eles, o grito congelou na garganta, minha expressão facial e meus gestos (fiquei o tempo todo imóvel e agarrada ao braço da poltrona) não deixaram nenhuma dúvida do que eu sentia, enquanto eles não haviam mudado quase nada do que faziam antes. Alguns nem tinham fechado seus notebooks ou agendas e pareciam utilizá-los. Estariam registrando seus momentos finais? Eu, ao contrário, estava apavorada e tenho certeza de que parecia estar. Afinal, mais uma vez comprovei que minha humanidade está mais na percepção da minha fragilidade que na de fortaleza. E que, por ser humana, precisava de uma força superior para me amparar naquele momento: rezei o tempo todo, com um fervor que talvez nunca tenha tido. Possivelmente em alguns momentos, até em voz alta…

Confirmando que a vida é linda porque surpreende a cada instante, no ônibus de volta para casa (colocado à disposição pela companhia aérea), conversando com a moça a meu lado, que no avião estava sentada numa poltrona das últimas fileiras onde havia também outras mulheres, diz que todas elas, conhecidas ou não, haviam se dado as mãos e assim permanecido nos piores momentos de aflição. Algumas até rezaram em voz alta, fazendo coro com um homem que, segundo ela, aparentava ter mais de 90 anos e uma aparência bastante simples… Ah, que falta senti do calor de uma mão na minha”.

Quem é essa passsageira?

Rosa Godoy nasceu em Araraquara onde residem muitos de seus parentes. Há mais de 20 anos desenvolve trabalho na USP onde é Professora Titular e dirigente da Escola de Enfermagem. E todos nós da região, naquela noite terrível, não tínhamos a mais pálida idéia do que estava ocorrendo acima das nuvens carregadas.

É… nosso Brasil passa a contabilizar enormes e destruidoras ressacas na baixada santista e até um temível e sempre assassino tornado para contrariar a piada de que o país era lindo sim… mas, para equilibrar, teria uns políticos péssimos. Agora, depende de nós para melhorar pelo menos os políticos enquanto aprendemos a respeitar a natureza (editor).

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