As Leis da Lepra

Desta vez, estou estampando um trecho enorme da Bíblia, falando de um homem cheio de perebas, chamado Lázaro. Do nome dele veio a palavra lazarento, para designar tanto aqueles que têm feridas de pus na pele como aqueles que sofrem da doença hoje chamada hanseníase.

Vale a pena ler esse capítulo da Bíblia, onde está dito que no inferno tem fogo, que no céu há pessoas ilustres para receber a gente e, finalmente, que aqueles que sofrem sem xingar costumam ir para o Divino Paraíso.

E quem tiver Bíblia em casa, sugiro que leiam o 3º livro, chamado Levítico, o qual menciona 35 vezes a palavra lepra e têm um capítulo inteiro, de número 13, onde estão as "LEIS DA LEPRA", com 59 versículos.

A Bíblia menciona inúmeros casos de lepra, indicando que a doença é super-antiga. Nos tempos bíblicos, o sacerdote era encarregado de fazer o diagnóstico e o Patriarca Moisés recebeu ordens divinas para que todo leproso fosse banido do arraial. Disto resultou uma tremenda discriminação até com a palavra lepra, quanto mais com os doentes, até aos nossos dias. Por esse motivo, há pouco mais de 20 anos, uma Portaria do Ministério da Saúde determinou que o nome da doença passasse a ser "hanseníase", em homenagem ao grande Médico descobridor do micróbio da doença.

A cidade mais próxima do polo Norte que conheço é Bergen, na costa oeste da Noruega. Tenho uma bela foto tirada lá, às 10 horas da noite, com sol brilhando… Sendo longe da linha do equador, a região tem dias muito compridos em certas fases do ano. Quando estive lá, o sol estava escondendo às 11 e meia da noite e o dia já clareava às vinte prás duas. É algo muito fantástico e verdadeiro, pois eu havia chegado a pensar que minha professora primária havia enganado a gente com fantasias quando ensinou isto.

Pois foi lá em Bergen que nasceu o Médico e Botânico super-inteligente Gerhard Henrik Armauer Hansen, que conseguiu descobrir o micróbio causador da LEPRA. Tal micróbio é primo do bacilo da tuberculose tendo, por isto, nomes quase iguais: "Mycobacterium tuberculosis" e "Mycobacterium leprae". A lepra já era conhecida desde 5.000 anos antes de Cristo, mas a descoberta dele foi tão notável que a doença passou a ser descrita sob o nome "morbus Hansen".

Nos ditos tempos bíblicos, eram considerados leprosos até aqueles que tinham manchas brancas na pele, inclusive os queimados de fogo cuja cicatriz ficava funda e com pelos brancos. Isto está nas tais Leis da Lepra. É claro que a coisa mudou muito depois da descoberta de Hansen, porque o diagnóstico depende do encontro dos referidos micróbios ou bacilos nas lesões da pele.

Entre as 11 milhões de pessoas que sofrem de hanseníase no mundo, há duas variedades da doença: a hanseníase lepromatosa, mais transmissível, que obriga o paciente a tomar remédios a vida toda; e a hanseníase tuberculóide, cujo tratamento praticamente cura os pacientes. Como em muitas outras doenças, é muito importante que o diagnóstico seja feito no início.

Quando eu fui diretor do SESA, aqui em Araraquara havia perto de 400 doentes de hanseníase em tratamento. Muitos deles, sendo da forma lepromatosa, devem estar ainda em contínuo tratamento.

A Bíblia menciona um porre de leprosos pobres, mas refere sobre um rei de Israel, chamado Uzias, que também era leproso (em 2º Crônicas, 26:20) e um chefe do exército do Rei da Síria, chamado Nahmã, que foi curado de lepra pelo Profeta Eliseu (2º Reis, cap. 5), da mesma forma como Jesus curava, como consta em Lucas 5:13.

Lá em Veneza, na Itália, existe um hospital chamado "Lazzaretto", o qual, no passado, foi um isolamento de doentes suspeitos de doenças contagiosas, inclusive lepra. Aqui no Brasil, inclusive em Araraquara, tivemos também isolamentos de doentes que eram denominados Lazaretos.

Vou contar aqui, novamente, de uma jovem muito bonita que me procurou no consultório, há uns 8 anos, encaminhada do antigo INPS para que lhe extraísse um "lobinho" do pescoço. Ao examiná-la, vi algumas manchas na pele do decote dela, que me fizeram mudar o rumo de minhas atenções médicas. Olhei detalhadamente e perguntei se ela apresentava outras manchas como aquela. Respondendo que sim, mandei que ela se despisse totalmente. Usando minha lupa, constatei a existência de manchas típicas de hanseníase na polpa do bumbum dela e no alto das coxas, perto da vulva. Expliquei prá ela meu diagnóstico e ela chorou muito, tanto pela doença quanto pela certeza de que, ao saberem, perderia seu emprego no escritório de uma grande firma.

Resolvi o problema dela com uma carta, através da qual a encaminhei para tratar da hanseníase com um colega meu lá de São José do Rio Preto, indicando a ela que fosse acompanhada do namorado dela, que deveria passar por controle durante alguns meses. A operação do pequeno cisto ficou prá depois.

Eu a vi recentemente, muito bonita e elegante. Ela me disse baixinho que está tomando os remédios até hoje e que está indo cada seis meses para controle com o médico que indiquei. Disse que o namorado tem ido com ela e que não teve nada.

Em minha consciência, sinto-me feliz porque não fui logo marcando a pequena cirurgia do cisto do pescoço dela. Sempre entendi que um exame médico jamais deve ser localizado, porque o corpo humano é um todo!

Ninguém daqui de Araraquara ficou sabendo da doença dela e ela está feliz com isto. Apenas eu sei e vou guardar o sigilo profissional que está indicado no Art. 154 do Código Penal.

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