As Atas da Graciema

Em minha infância e adolescência, fiz parte ativa das lides religiosas da Igreja Presbiteriana. Paralelamente aos atos religiosos, havia uma outra parte importante para as crianças e jovens: o aprendizado de como enfrentar o público, levantar e falar, pedir a palavra e debater.

Quem deseja ou precisa estar sempre falando em público vai procurando treinar sua oratória e aprende a posição correta do corpo, fazer os gestos adequados, evitar as micagens, pronunciar bem, pôr os assuntos em ordem e não cuspir nos que estão por perto. O mais difícil de tudo é deixar de ter medo ou vergonha de falar perante um auditório.

Nos tempos de ginásio, conheci um mocinho da cidade de Onda Verde, que veio estudar no mesmo colégio estadual que eu. Ele já nasceu pronto no que diz respeito a falar em público sem nenhuma inibição; nasceu com esse dom e foi dos primeiros a se inscrever para fazer uma palestra nas chamadas Conferências Estudantis que a Delegacia de Ensino promovia naquele tempo.

Na seqüência, ele foi meu colega na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e, logicamente, escolhido para orador de turma em nossa formatura.

O nome dele é Wilson Romano Calil, tem consultório lá em São José do Rio Preto e já foi Prefeito daquela cidade. No mês passado fui visitá-lo e tiramos essa foto que ilustra a crônica de hoje. Além de falar bem, ele se aperfeiçoou nas técnicas e já deu inúmeros cursos de oratória. Ele ensina aqueles requisitos acima citados, mas não consegue que seus alunos tenham o mesmo dom que ele tem.

Eu estava falando da Igreja Presbiteriana que freqüentava, filiada ao Sínodo Oeste de São Paulo, que ia de Araraquara até Votuporanga.

De tempos em tempos, os jovens que compunham a União da Mocidade Presbiteriana das igrejas dessa região se reuniam em movimentados congressos com debates de tema espiritual, intelectual e social, além de palestras, competições e concursos bíblicos. Nos debates, todos os congressistas tinham a oportunidade de falar em pé, diante dos demais e foi isto que eu quis dizer no início destes escritos: todos iam conseguindo perder a inibição para falar e sempre havia alguém para corrigir, numa boa, os erros gramaticais e para ajudar quem falava a incrementar seu vocabulário.

Ao lembrar-me de tais Congressos da Mocidade Presbiteriana, não posso deixar de mencionar o inesquecível Abel Silveira Mendes, apelidado Belico, que era um verdadeiro líder. Ele era araraquarense, falava e escrevia muito bem, tendo sido, por isto, Presidente de praticamente todos os congressos dos quais participei. Eu era adolescente e aprendi um punhado de táticas que ele usava para conduzir uma reunião plenária, para coordenar os debates e para criar comissões. Aprendi com ele, também, uma porção de palavras difíceis prá mim na época, ligadas a reuniões e assembléias: "quorum", "segunda convocação", "voto secreto", "apuração", "ad-hoc", "comissão de sindicância", "conselho fiscal", "suplentes", "deliberação", etc.

Outra pessoa especial naqueles congressos era a Graciema, famosa como a melhor secretária de todas as igrejas filiadas. Ela era da Igreja Presbiteriana de Catanduva e trabalhava como Inspetora de Ensino. Sendo funcionária exemplar, existe hoje, naquela cidade, uma escola batizada com o nome dela: EEPG Professora Graciema Ramos.

Ela escrevia tudo em português impecável e com uma letra bonita e perfeita. Se não bastasse, ela tinha um dom especial de agilidade para fazer as atas das assembléias diretamente no livrão, tudo perfeitinho, sendo o texto aprovado ao final das assembléias sem nenhuma restrição.

Depois de observá-la fazendo tal proeza nas atas, fiquei babando de vontade de conseguir fazer o mesmo. Comecei a observá-la sorrateiramente. Eu me levantava para tomar água e, ao retornar, passava por trás da mesa esticando o pescoço para observar a agilidade dela. Numa das vezes que me levantei, estava havendo um debate intenso e foi nessa hora que descobri o segredo dela… Quando fiquei adulto e tive a oportunidade de secretariar reuniões ou assembléias, apliquei o segredo da Graciema e deu certo.

Recentemente, no primeiro mandato do Conselho Deliberativo do Clube 22, fui eleito secretário. Tratei de usar as táticas que vi o Belico usar e, ao fazer as atas, aplicar o segredo da inesquecível Graciema. Todos os conselheiros gostaram do lance, porque as atas já eram aprovadas no final da mesma reunião e eu não contei prá ninguém, até hoje, o segredo da Graciema.

Numa determinada reunião do referido clube, compareceu um conselheiro substituto, o qual me pediu o livro de atas para dar uma olhada. Pelo rabo dos olhos, vi que ele copiou num papel vários nomes de comissões que eu havia escrito nas atas: Comissão Eleitoral, Comissão de Sindicância, Comissão Jurídica, Comissão de Estatuto, Comissão de Novos Associados, etc. No decorrer da reunião, minutos depois, querendo ser bastante participativo, ele propôs uma comissão para fiscalizar propostas, à qual ele denominou "Comissão de Alvitre". Foi uma risada geral, todos dizendo que tal tipo de comissão não existe. Ele bronqueou dizendo: "É… o Doutor fala e escreve umas palavras difíceis nas atas e ninguém teima com ele, eu também tenho o direito de usar umas palavras diferentes !…"

Devo esclarecer que a tal "Comissão de Alvitre" não chegou a existir, mas aproveito a palavra para dizer aos leitores que é de bom alvitre que, na data de hoje, 12 de maio, saudemos ou pensemos em nossas queridas mães.

E neste finalzinho, para evitar que algum leitor xingue minha saudosa mãe, vou contar, pela primeira vez, o segredo das atas da Graciema: Antes da reunião, ela já escrevia o cabeçalho deixando os pequenos espaços para pôr a hora e número de presentes. No decorrer da reunião, ela ia escrevendo normalmente. Começando os debates mais animados, ela fazia um gesto com a caneta como se estivesse escrevendo, inclusive mudando as linhas. Terminado o debate, ficando tudo calmo, ela voltava a escrever de verdade, deixando o espaço certinho das frases que ela calculou ao gesticular e, na primeira folga, ela preenchia, no espaço deixado, os lances do agitado debate.

Até à próxima e já que salvei minha mãe de ser xingada, espero que os leitores salvem as suas sendo bonzinhos na praça, como manda a Bíblia.

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