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As 20 respostas

Gisele Rocha Côrtes é gerente do Centro de Referência da Mulher “Heleieth Saffioti” e Doutoranda em Sociologia UNESP/Araraquara. Dedica esforços para garantir a qualidade de vida das mulheres de Araraquara através do incentivo às políticas públicas específicas.

01) Como funciona o Centro de Referência da Mulher?

O Centro de Referência da Mulher é um órgão da prefeitura inaugurado em 13 de junho de 2001, com o objetivo de prestar serviços e desenvolver políticas públicas que atendam às demandas específicas das mulheres. A maior demanda do centro são mulheres vítimas de violência doméstica. Assim, são realizados os serviços de atendimento, acolhimento de mulheres vítimas de violência, atendimento psicológico, orientação jurídica e encaminhamento social.

02- Como você analisa a violência doméstica?

Em nossa sociedade esta violência é “justificada”, “ocultada” e “naturalizada”, em decorrência de relações de poder profundamente desiguais entre os homens e mulheres, as quais legitimam a concepção de que os homens possuem direitos sobre os corpos e a vida das mulheres. De acordo com dados da Fundação Perseu Abramo (São Paulo), no Brasil a cada 4 segundos uma mulher é vítima de algum tipo de violência (física, sexual, psicológica ou moral). Em geral as agressões ocorrem dentro de casa e são cometidas pelos maridos, companheiros ou namorados.

03) A mulher deve ter jornada dupla?

As mulheres têm tripla jornada em decorrência da divisão sexual e desigual do trabalho doméstico.

04) A violência contra a mulher está presente em todas as classes sociais?

A violência de gênero atinge milhares de mulheres todos os dias, independentemente de classe social, etnia, religião, estado civil, opção sexual, escolaridade, idade e nacionalidade. As agressões por parte do marido ou companheiro manifestam-se de diferentes formas: ameaças, relação sexual forçada, espancamentos, estrangulamentos, agressão durante a gravidez, ofensas, humilhações, destruição de documentos, cerceamento do direito de ir e vir…

05) O que é família para você?

É a base de minha vida.

06) O casamento deve ser reinventado?

Sim, todos os dias.

07) Até onde o marido pode influenciar seu poder de decidir?

Uma relação deve ser construída com igualdade, as escolhas podem ser compartilhadas, mas, a mulher deve ter plena autonomia para tomar suas decisões.

08) A união de pessoas do mesmo sexo. Você considera normal?

Não vejo anormalidade nenhuma em duas pessoas do mesmo sexo se amarem. Sou completamente favorável à união de pessoas do mesmo sexo e da garantia de direitos civis aos casais. No meu ponto de vista esta é uma questão de cidadania e justiça social.

09) O que é ser mulher moderna?

É lutar todos os dias contra barreiras materiais e simbólicas para ter a cidadania assegurada.

10) A mulher é objeto sexual?

Em decorrência de um processo de socialização binário, os homens possuem poderes sobre os corpos e vidas das mulheres. Desta forma, em nossa sociedade as mulheres são tratadas como objeto sexual. Os meios de comunicação, por exemplo, reforçam esses preconceitos, fazem propaganda de cerveja e junto vendem o corpo da mulher. Há pouco tempo passava uma novela onde uma negra era protagonista com o título de “A Cor do Pecado” que reforça o imaginário historicamente construído da mulher negra como objeto sexual.

11) Qual a melhor moda?

A que nos faz sentir bem.

12) A qualidade da televisão pode ser melhorada?

Muito, os programas em geral banalizam a violência, perpetuam preconceitos, estigmatizam grupos sociais e na maioria das vezes não pautam seus conteúdos de forma ao questionamento do indivíduo frente às contradições sociais.

13) É errando que se aprende?

Com certeza, os seres humanos não são acabados. Estamos em constante processo de reconstrução e de transformações em todos os momentos da vida.

14) Obesidade é um pecado?

O cuidado com a saúde é fundamental, mas nas últimas décadas temos vivenciado um bombardeamento para que as pessoas, principalmente as mulheres, sigam um padrão de beleza universal: magra e branca. As pessoas enfrentam dificuldades nas relações sociais, na inserção no mercado de trabalho por não se inserir nesse padrão. A ditadura por esse modelo é tão intensa que os índices de anorexia só vem aumentando.

15) Você aprecia a leitura, lembra-se do último livro?

Muito. Problemas de Gênero, de Judith Butler.

16- Como enfrentar a violência contra a mulher?

É essencial lutarmos por políticas afirmativas e integradas com o envolvimento da sociedade e do Estado para que possamos refletir, reconstruir e “desnaturalizar” padrões e práticas sexistas às quais subordinam mulheres em distintos espaços sociais. Neste sentido, é imprescindível a implantação de equipamentos sociais, como a criação de Centros de Referência da Mulher e Casas Abrigo, existentes na cidade, que acolham a mulher vítima de violência e ameaçada de morte. Outra questão fundamental é a luta por modificações em nossa legislação que minimiza e banaliza a violência contra a mulher.

17) A política é suja?

Não, a política é um espaço para que as pessoas construam, participem, questionem e ajam em sua realidade social. A política é um espaço democrático de luta pela garantia de direitos.

18) Que tipo de educação pode ser oferecida aos filhos?

Uma educação onde as diferenças de gênero, classe e etnia não sejam sinônimo de inferioridade.

19) A mulher deve ser tocada em todas as partes de seu corpo?

Com certeza, a mulher deve ser tocada e se tocar. A sexualidade feminina é reprimida. Em geral a mulher aprende a “moldar” o corpo para o outro.

20) Ser dependente economicamente do marido é bom?

Acho que não, a mulher deve ter independência financeira para gerir sua vida com autonomia.

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