Análise apressada permite especulações

(*) Antonio Delfim Netto

Duas notícias sobre economia, esta semana, relativas ao comportamento das exportações e à redução das taxas de juros, num clima de “comemoração”, devem ser lidas com um certo cuidado. Há análises que são feitas com alguma ligeireza para tirar proveito da distração dos incautos, seja no campo político seja no fértil território da especulação financeira.

No caso das exportações, a insistência de alguns economistas em sustentar a idéia que a taxa de câmbio não tem a importância que se lhe procura atribuir como fator de expansão do comércio exterior, tem um ar de enganação no curto prazo e de irresponsabilidade no largo prazo. É como se o Real não continuasse supervalorizado por força do diferencial de juros internos e externos. Dizer que “as coisas continuam bem” apesar das taxas de juro e que o Brasil está virando o jogo porque os exportadores estão aumentando a produtividade, é fugir da realidade. Há indústrias que mantêm a rentabilidade e podem exportar com taxas de câmbio de 2,20 e até mesmo as que poderiam lucrar com o câmbio de 1 por 1, dependendo das vantagens comparativas que o Brasil oferece. O que se deve perguntar é se a atual taxa de câmbio é capaz de convencer alguém a investir apostando no dinamismo futuro das exportações brasileiras. Na verdade, estamos construindo novamente as mesmas dificuldades que atingiram o setor no governo passado ao utilizar o câmbio como coadjuvante no combate à inflação.

No capítulo dos juros, o que se viu foi a festa pela queda da taxa SELIC para o nível mais baixo dos últimos 12 anos, o que precisa ser melhor observado. É evidente que o Brasil inteiro torce para que a taxa de juros real do país fique abaixo de 10%. A taxa SELIC foi para 14,75% ao ano mas a inflação também caiu, de forma que chegamos a uma situação curiosa: quanto mais cai a SELIC, mais a taxa fica no mesmo lugar… Se a inflação estimada continua 4% ao ano, a taxa de juros real se mantém acima dos 10%, o que ainda é a mais alta do mundo e obviamente não anima nenhum setor da economia e muito menos o exportador.

O que vai fazer baixar a taxa real de juros é a decisão do governo de construir uma política fiscal adequada que assinale para a redução do endividamento em relação ao PIB, com um choque de gestão que corte efetivamente os gastos da administração pública federal. O Presidente Lula, que esta semana mostrou grande interesse em dar incentivos para a expansão dos investimentos privados, podia dar uma boa contribuição para baixar os juros sinalizando nessa direção.

(*) E_mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br

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