É tão curto o amor, e é tão longo o esquecimento
(Pablo Neruda)
Ela o olhou pela última vez, sabia-o. Tão lindo ele estava na camisa azul que ela tanto gostava. Tão lindo e já de saída, sem ao menos olhar para trás! Como poderia sabê-lo? O coração tem razões que a própria razão desconhece, sussurraram-lhe o poeta e o filósofo. Pobre mulher! Eterna prisioneira de amores impossíveis – esse era apenas mais um – tornara-se cúmplice de tantas outras nas mesmas condições. É assim com as mulheres em geral, tornadas presas fáceis da emoção, quando tudo acaba, comem o pão que o diabo amassou, enquanto os homens, regidos pela razão, acabam ficando mais protegidos do sofrimento. Quando muito, afogam as mágoas…
Foi assim com Taciana, quando Marcelo apareceu na sua vida. Pegada desprevenida, apaixonou-se. E, ao mesmo tempo, na esteira do dito nordestino – danou-se! Foram anos a fio de paixão desmedida, fazia de um tudo prá agradar seu homem. Não que lá pelas tantas não lhe provocasse a ira ou o ciúme. Mas, no geral, se esmerava para lhe atender as vontades (que não eram poucas). Até mais que podia. Como daquela vez que se despencou para outra cidade, a centenas de quilômetros, só para ficar ao seu lado míseras duas horas. Sabe o que é? Ele estava precisado, com uma tristeza tão grande que achei que ia morrer…, justificou-se do ato à fiel amiga. Mal sabia que a tristeza tão grande era porque o dito cujo tinha afogado as mágoas por ter sido abandonado pela outra – a outra que a antecedera e que ele não largara, mantendo os pés por longo tempo em duas canoas!
Maldito seja! praguejava pela centésima vez, ao lembrar-se da pior frase dele, quatro dias antes. Mais que uma frase, um enorme xingo. De uns tempos para cá dera prá xingar. Disto, daquilo e daquilo outro, sério ou de brincadeira, mostrando assim, como nunca, mais uma das suas qualidades. Primitivo, lhe chamava a inquisidora amiga. É assim, você tem que entender, ele é apenas mais um primitivo! Ou você se conforma, ou cai fora, não vale a pena sofrer.
E agora, como nunca, estava disposta a cair fora. Sabia, porém, que teria que fazer um esforço descomunal para não se descontrolar e botar tudo a perder. Prá melhorar o sentido, fez até profissão de fé: Tenho que resistir, não fazer qualquer contato. Só assim entenderá o quanto me tem magoado. No fundo, porém, desejava que ele se manifestasse o mais rápido possível. A ausência era quase insuportável. Incontadas vezes, pegou-se esticando os olhos para o celular ou apurando os ouvidos, tentando captar um som distante que lhe acusasse a volta. Qual o quê! Teimoso como um carcamano, sabia que este seria o seu último ato. Mais fácil era o céu lhe cair na cabeça!
Acendeu vela, fez promessa, rezou pro Senhor do Bonfim e prá Nossa Senhora Desatadora dos Nós. Santa Rita, Advogada das Causas Impossíveis, lhe era companhia constante. Vivia pelos cantos, suspirando, ansiando por algum sinal que lhe pudesse ao menos aquecer o ânimo, recobrar um pouco a auto-estima. Nada!
Ocorre que com a gente, sem a gente ou apesar da gente, a vida continua. E assim, de reza em reza, de suspiro em suspiro, foi-se encontrando com o tempo, com aquele que como se diz, cura todos os males. Quanto se deu conta, eram passados os mesmos anos que tinham estado juntos. Duas séries exatamente iguais – apenas em tamanho, opostas em qualidade. A primeira, de pura felicidade, efêmera, parecia feita de segundos. A outra, paquidérmica, estava mais para arrastados séculos de sucessivas tentativas de esquecimento.
Para consolá-la, amarelo e resistindo à ação do tempo, na cômoda jazia Neruda – É tão curto o amor, e é tão longo o esquecimento…
Rosa Godoy