Agressão às mulheres

Silvia Arantes (*)

Há alguns anos Paulo Maluf provocou revolta generalizada ao afirmar que as professoras não ganhavam pouco, eram, isto sim, mal casadas. Argumento de ainda mais baixo nível e muito mais agressivo, porque dirigido a todas as mulheres, volta agora à tona e, por incrível que pareça, pela boca de uma mulher. E não de uma mulher qualquer, mas de uma que deveria ter um papel importante.

Patrícia Pillar conseguiu ser ainda mais ofensiva e grosseira que seu companheiro, o presidenciável Ciro Gomes, ao tentar defendê-lo do comentário grosseiro que fez há alguns dias. Gomes havia dito:

“- Minha companheira tem um dos papéis mais importantes, que é dormir comigo. Dormir comigo é um papel fundamental”.

Como seria de se esperar depois desta grosseria, desta observação machista e retrógrada que mesmo na boca do Coronel Horácio de Terras do Sem Fim soaria ou como uma observação imperdoável ou brincadeira de péssimo gosto, dezenas de entidades protestaram.

Aí foi a hora de Patrícia Pillar entrar em cena e mostrar o que ela e o presidenciável têm em comum. A atriz precisou voltar algumas décadas no tempo para resgatar a mais antiquada e grosseira das afirmações a respeito das mulheres que lutam para que seu papel não seja o de mero objeto de cama e mesa dos maridos, dizendo:

“- Meu marido é maravilhoso. Se elas tivessem o marido que eu tenho, talvez não precisassem ficar falando.”

Se a opinião de Gomes já era insultuosa, a de Patrícia que a corrobora, é uma ofensa inadmissível. Que Ciro ainda pense no Século XXI como um coronelão do século XIX é injustificável, mas explicável, afinal o homem é também produto do meio e não é de um dia pra outro que se chega a um novo século no qual os papéis sociais não são mais aqueles com os quais sempre se viveu.

Já a visão da atriz é imperdoável porque incorporando desde já seu papel da humilde mulher de coronel que acha que qualquer reivindicação de igualdade de direitos e respeito às mulheres não passa de algum desequilíbrio hormonal ou furor uterino ela desrespeita não só mais de um século de luta das mulheres de todo mundo, mas violenta sua própria história.

Também chama a atenção o caráter assimétrico desta relação entre o Coronel e a sua esposa. Ela diz que é feliz porque tem um marido maravilhoso. Já ele a lista apenas como uma mulher que mesmo excepcional, é apenas mais uma, nas próprias palavras dele:

“-Essa é uma das mulheres de mais extraordinário valor que Deus me deu como presente na vida.”

Ciro diz que se desculpa a ela não pelas suas declarações infelizes, mas por ela ter de ter contato “com a imundície da política”. Ou seja, até quando tenta deixar de lado a indelicadeza usual ele consegue ser grosseiro, estabelecendo uma fronteira clara entre o seu mundo privado – no qual está reservado a mulher um espaço meramente sexual – e a esfera pública, que não está destinada às mulheres, seres que ele considera frágeis e delicados demais para lidar com toda a complexidade da política.

Patrícia Pillar, obediente ao seu novo script, deixa de lado a Salomé e veste-se de futura matrona, acreditando, como as esposas dos coronéis do início do século passado, que qualquer mulher que ouse entrar na esfera da política na verdade é apenas uma recalcada, uma malcasada que precisa descontar suas frustrações sexuais expressando-se politicamente.

Maquiavel, no final de O Príncipe, expõe a todos os aventureiros desejosos de poder, que devem lidar com a sorte tal como se deve lidar com as mulheres. “Estou convencido que é melhor ser impetuoso do que circunspecto, porque a sorte é mulher e, para dominá-la, é preciso bater-lhe e contrariá-la”. Parece que o presidenciável resolveu seguir a risca esta regra, só resta esperar que alguém faça a caridade de dizer a ele que a política, e muito menos as mulheres, não são mais como eram na época de Maquiavel.

(*) Conselheira Política do PSDB/Mulher.

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