Acolhimento após perdas gestacionais é tema do “Canal Direto com a Prefeitura”

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Mariana Cutti, psicóloga da FunGota, e Perla Frangiotti, cofundadora do grupo Transformação, esclareceram detalhes sobre o tema


Outubro é o mês internacional da conscientização e sensibilização pelas perdas gestacionais, neonatais e infantis. Pensando em melhorar cada vez mais o acolhimento para as mães e pais que sofrem com essas situações, a Maternidade Gota de Leite “Vovó Mocinha” de Araraquara conta com o Programa Arco Íris, que integra uma gama de ações em torno desse propósito. A cidade de Araraquara também conta com o grupo Transformação, que também oferece esse trabalho de acolhimento. Para falar sobre o assunto, o programa “Canal Direto com a Prefeitura” recebeu nesta quarta-feira (18) a psicóloga da FunGota, Mariana Cutti, e a cofundadora do grupo Transformação, Perla Frangiotti.

Mariana citou os principais motivos dessas perdas. “Existem várias causas das perdas gestacionais e neonatais, dentre elas a prematuridade, que pode ser acarretada por infecções, pré-eclâmpsia, que é a elevação da pressão arterial, e a questão de um pré-natal que muitas vezes não é feito corretamente. Até por isso, quero pontuar a importância das mães irem às suas consultas médicas e fazerem os seus exames, tanto para elas quanto para seus bebês”, comentou.

Perla acrescentou que muitas vezes o falecimento também acontece sem uma razão tão clara. “É importante acrescentar que apesar de fazer o pré-natal corretamente e às vezes não ser acometido por uma dessas problemáticas que surgem durante a gestação, como diabetes e pressão alta, bebês também podem morrer apesar disso, e sem uma causa aparente. É importante falar para essas famílias que a culpa é um sentimento que vem muito forte quando os nossos filhos morrem, seja dentro da barriga ou logo depois do nascimento. No Brasil, para fazer uma investigação pós-morte, você tem que ter passado por três perdas, ou seja, legalmente, você só pode investigar depois de três perdas. Então é importante saber que às vezes acontece a perda sem uma razão concreta. Isso é uma coisa que machuca muito as famílias”, pontuou.

A cofundadora do grupo Transformação também falou sobre o começo da iniciativa. “Esse movimento de olhar para o luto da família que perde seu bebê durante a gestação ou logo depois do nascimento começou lá nos Estados Unidos há bastante tempo e vem crescendo pelo mundo. Em 2017, a minha filha caçula Heloísa faleceu com 36 semanas e seis dias, e se abriu esse mundo para mim. Como é um luto que não é reconhecido socialmente, eu brinco que as pessoas não sabem onde põem a mão pra conversar com a gente. O silêncio e a falta de como acolher, de todos os lugares, geram tudo isso. Conhecendo esses trabalhos realizados fora, a gente conseguiu, aqui em Araraquara, instituir o grupo Transformação. Dia 15 de outubro, que é Dia do Professor, é também, desde 2006, a data de sensibilização pelas perdas gestacionais e neonatais, inclusive é quando fazemos as nossas homenagens aos nossos filhos que tiveram breve vida entre nós. Em 2018, conseguimos aqui em Araraquara colocar essa semana”, mencionou Perla.

Ela destacou ainda que como esse luto não é reconhecido e as pessoas não sabem o que fazer, as famílias sofrem muito. “Com isso, as chances desse luto virar um luto complicado é muito grande. Então surgimos como um momento de acolher essas famílias, mostrar para a sociedade que a gente existe, mostrar que somos pais e mães de colo vazio, assim como irmãos e avós, e também de preparar profissionais, conscientizar a sociedade para que esse luto seja acolhido e essas famílias possam passar por ele de uma maneira menos difícil. Araraquara é a primeira cidade do país com essa semana e vem desde então trabalhando com ações em prol desse tema”, salientou.

Mariana falou sobre a importância desse tipo de acolhimento. “Quem está passando ou tem um amigo que sofreu uma perda, é importante acolher neste momento, acolher a dor, oferecer um colo, muitas vezes mais ouvir do que falar, oferecer um abraço e perguntar se a pessoa quer falar sobre o assunto, porque nem sempre eles estão preparados para falar sobre a dor neste momento. E também é muito importante saber o que não falar e o que não fazer. Sempre vamos falar no intuito de confortar, só que as palavras, muitas vezes, não são um conforto e acabam pingando um salzinho no nosso machucado. Por exemplo, dizer que logo a pessoa vai ter outro filho. Não pode dizer isso porque esse é filho dela e filhos são únicos, ela queria esse. Por favor, não devemos tecer esse tipo de comentário. Outras pessoas dizem que foi bom porque foi no início. Isso também é errado porque luto, dor, não tem tempo. A gente não conta a dor por semanas de gestação. Outro comentário é que a natureza sabe o que faz, que a criança viria cheia de doenças, que Deus quis assim, ou dizer que pelo menos a pessoa tem outro filho. A gente quer o nosso filho, independente da circunstância, para amar, para cuidar, então se não sabe o que falar, ofereça mais uma vez um abraço, ofereça uma acolhida, um toque. É difícil e às vezes para o próprio profissional faltam palavras. É difícil saber tocar em um assunto tão doloroso, mas um abraço nunca é demais”, explicou.

Perla acrescentou que é importante falar sobre as possibilidades de ajuda. “Você pode dizer para a pessoa que sente muito e não imagina a dor que ela está passando, mas que tem o grupo na Gota que tem os atendimentos, tem o Transformação, que faz os acolhimentos em grupo. Diferente do grupo da Gota, nós somos um grupo de apoio, ou seja, apesar de ter efeitos terapêuticos, não temos um profissional da psicologia à frente do grupo. É muito legal, pois temos uma parceria. Acontecem os óbitos, a Mariana passa para nós. Se a família precisa de um atendimento individual, a gente passa para a Gota. É uma parceria muito legal. As pessoas perguntam em que momento indicamos esse apoio e a resposta é no primeiro momento que você tiver oportunidade. Cabe à pessoa resolver se ela quer ou não ter aquele serviço, aquele cuidado, mas a partir do momento que ela quer, ela vai saber que tem essa oportunidade.

Mariana destaca que o acolhimento é oferecido também aos pais, e não apenas às mães. “Viemos de uma sociedade machista e uma das primeiras coisas que ouvimos é que homem não chora. Homem chora sim. Homem também passa por transtorno mental, também precisa de acolhida, também precisa de ajuda. Isso é muito importante”, opinou.

Perla também ressaltou que muitas vezes as pessoas não entendem o propósito desse trabalho. “Às vezes a sociedade fala que você vai buscar esse apoio e vai ficar falando de morte, ficar remoendo, mas é um remoer que não é no mau sentido. É processar o que aconteceu, pontuar sentimentos. Às vezes, a outra pessoa consegue colocar em palavras o que você não estava entendendo pessoalmente, então é muito libertador. A gente chora às vezes, nem sempre, mas sai sempre mais leve e com um sorriso”, assegurou.

Mariana completou que a única forma que existe de curarmos uma ferida emocional é olhando para ela. “Empurrar a sujeirinha para debaixo do tapete é o pior que podemos fazer. Temos que encarar ela, por mais que doa, para que possamos ressignificá-la. Ela não vai deixar de existir, é uma ferida que será levada para o resto da vida, mas a intenção é que ela pare de sangrar o tanto quanto hoje ela sangra e parar de doer o tanto quanto hoje ela dói”, concluiu.

O programa Arco-Íris realiza reuniões às sextas-feiras no ambulatório, no prédio ao lado da emergência da Maternidade Gota de Leite, com plantão individual e em grupo. Para agendar ou obter mais informações, os telefones são (16) 3305-1534 e (16) 99782-0135 (WhatsApp). Já o grupo Transformação pode ser contatado pelo Instagram @transformacaoararaquara.

 
Ao vivo

O “Canal Direto com a Prefeitura” vai ao ar de segunda a quinta-feira, às 12h30, ao vivo na página da Prefeitura no Instagram. A íntegra dos programas fica disponível para visualização no próprio Instagram, no Facebook e em outras plataformas digitais, incluindo o formato de podcasts.
SECRETARIA MUNICIPAL DE COMUNICAÇÃO
PREFEITURA DE ARARAQUARA

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