Os produtores de cana da região de Araraquara ganham maior importância ao entregar a sua matéria-prima e participar da industrialização e consequente comercialização de álcool e açúcar.
A palestra promovida pela Associação dos Produtores de Cana da Região de Araraquara, no último sábado (30), amplificou a idéia sobre a importância dos agricultores no processo sucroalcooleiro da região central do Estado de São Paulo.
Para o técnico Roberto Perondi, é muito difícil prever um futuro no contexto de mercado que obedece a fundamentos.
Quanto tem de açúcar produzido e quanto tem de açúcar vendido. A perspectiva hoje é de um mercado que tem déficit de açúcar: quebra de produção em vários países e o corte do subsídio na União Européia dá para o nosso país um espaço maior para colocar nossa produção. A visão a médio prazo, com certeza, é positiva considerando esse corte de subsídios, além da demanda do álcool extremamente aquecida no Brasil e no mercado internacional. O futuro é promissor para o segmento que envolve as usinas, produtores e todos os profissionais do círculo produtivo, afirma o palestrante.
Vale dizer Roberto que a parceria proposta pela Usina Maringá aos produtores, pagando-se a tonelada de cana com o açúcar, é um bom negócio?
“Passa a ser considerando o preço do açúcar. Praticamente é unânime no mundo que a perspectiva do açúcar é muito boa, o preço do açúcar é muito bom e isso também é no mínimo uma profissionalização num setor bastante especial”.
Luiz Henrique Scabello representou a Usina Maringá nesse encontro.
Como o contrato do produtor com a usina se apresenta como a bola da vez, pergunta-se ao Scabello: o plantador ainda pode optar por essa nova modalidade contratual?
“Ele pode fazer o contrato a qualquer momento, até o final da safra. Obviamente aqueles que fizerem o contrato para a entrega no mês de agosto vão ter uma pequena vantagem no custo da industrialização. Mas, poderão fazer ainda em setembro ou outubro… outro detalhe significativo: os produtores que fizerem o contrato antecipadamente podem marcar a data da entrega da cana. Sabemos que a medida em que vai passando a safra a cana é colhida mais tarde e isso pode redundar em prejuízo. Essa, a razão de se fazer o contrato o quanto antes”, afirma o diretor da Maringá.
Com essa parceria, ligada à comercialização, existe a probabilidade de se ganhar mais dinheiro?
“Normalmente a usina acompanha a evolução da cana até chegar à fase de colheita? Mesmo com o contrato haverá essa assessoria?
“Não tem a menor dúvida, nada muda nessa relação de bons resultados, na segurança que existe entre as partes. Vou deixar bem claro o seguinte: a Maringá garante o preço do Consecana – que é o sistema usual de todas as usinas. Então se o cana agregada (pagamento em açúcar) for de uma infelicidade no mercado e render menos que o Consecana, a gente garante o valor do Consecana”.
Significa que não existe risco de perda?
“Exatamente, não há risco nenhum de perda comparando-se o preço que se pratica na região. E o resto não muda nada: a colheita é acompanhada junto com a associação, as análises de cana… tudo isso é normal”, informa Luiz Henrique Scabello sublinhando a segurança da nova modalidade contratual aberta pela Usina Maringá.
Presidente da Associação de Cana, Dr. José Carlos B. Teixeira.
O Dr. Teixeira, enquanto presidente da Associação dos Plantadores de Cana da Região de Araraquara, como vê essa nova modalidade de contrato? A pergunta do repórter faz aflorar o entusiasmo do líder dos plantadores de cana.
“Pelo sistema de pagamento em produto, com certeza, dará muito mais que o valor pago pelo Consecana. No ano passado tivemos uma experiência clara quando o Consecana fechou a tonelada a R$ 28,00. Houve fornecedor de cana que vendeu sacas de açúcar a R$ 37,30. Se nós considerarmos em média que o vendedor de cana, aquele que recebeu em açúcar na relação de toneladas de cana por 1.4 saca teremos que multiplicar R$ 37.30 por 1.4 que daria cerca de R$ 50,00. Descontando R$ 16,25 de imposto então teríamos um valor praticamente dobrado referente a tonelada de cana. Comparativamente ao valor pago pelo sistema Consecana. E nós desejamos que se pratique essa forma de pagamento em produto. Pois, no instante em que as usinas que não adotam o pagamento em produto perceberem uma fuga do seu produtor em busca de nova opção (como a oferecida pela Usina Maringá), então essa usina que está sofrendo a fuga vai começar a aderir ao novo mecanismo. Tanto é verdade que este ano quando o preço da cana está ainda por volta de R$ 27,00 ou R$ 28,00 já tem usina pagando no mercado R$ 31,00, livre de corte, carregamento e transporte o que equivale a um preço de R$ 31,00 mais R$ 18,00 que é o preço dessas atividades correlatas. Isso permite constatar que podemos ir para mais de R$ 49,00… então, o objetivo da associação, uma pessoa jurídica representativa do fornecedor de cana, é exatamente buscar novas alternativas de forma que o produtor tenha uma remuneração melhor.
Outro benefício é mexer nesse mercado que estava estagnado há muitos anos. Até 1998 o governo federal determinava um preço, a partir de então se estabeleceu o sistema Consecana que foi se defasando. Isso posto, queremos criar novas alternativas, trazer uma remuneração mais equilibrada e estabelecer esse equilíbrio financeiro entre o produtor de cana pequeno ou o grande e as usinas que, com certeza, têm muito maior capacidade de remuneração, capacidade de dinheiro que é muito mais forte que o próprio produtor de cana”.
Uma situação interessante, onde o produtor de cana pode escolher aonde ele vai moer a sua produção, mas ele não tem um contrato com a usina?
“Existem dois tipos de produtores de cana: o produtor de cana parceiro e arrendatário que está vinculado a um contrato com uma determinada usina. Esse cidadão, na vigência do contrato, não pode mudar. Mas, existe um outro cidadão que é produtor individual ou autônomo que planta a cana e vende para quem quiser.
Se nós melhorarmos o mercado com o pagamento em produto e houver maior remuneração, o cidadão-produtor vai pensar duas vezes antes de fazer um contrato em parceria ou um contrato de arrendamento. Porque se você está vendendo sua cana a 26 ou 27 e você vê o seu vizinho vender a 50 você vai pensar duas vezes antes de fazer o contrato, certo? Então eu acho que essa é uma forma democrática de tentar mudar a relação entre fornecedor de cana e usina. Mesmo porque o fornecedor de cana, o proprietário agrícola acabou se acomodando e foi arrendando as suas terras.
Vale voltar o relógio do tempo. Até por volta de 1960 todo fazendeiro morava em suas terras e tocava seu negócio. Depois houve um erro do fornecedor de cana, desse produtor rural que migrou para a cidade e se acomodou. Logicamente hoje ninguém pode viver acomodado. É uma luta pela sobrevivência… por isso entendo que o produtor, de um modo geral, terá que voltar às suas origens, terá que ser realmente produtor rural e, nesse raciocínio, não poderá ficar na cidade esperando que algum vá trabalhar para ele… é o que fazia com as usinas”, lembra o Dr. Teixeira.
Depois de muito tempo o produtor e a usina passam a ser gerenciados pela lei da procura e oferta?
“Com certeza, acho que isso é fundamental no mercado. Ainda neste sábado tivemos uma palestra sobre mercado internacional de álcool e açúcar. A usina só pode nos pagar bem se vender bem. Se ela não tiver cana, pela escassez de oferta, ela paga melhor. Se, no entanto, ela tem fartura de cana ela não paga. Vemos, assim, que o grande erro dos produtores de cana de gerações passadas foi vender as suas terras para as usinas. Foi um grande erro… o segundo erro foi exatamente se acomodar e não querer mais tocar suas terras. Sentar aqui na cidade e esperar que a usina fosse tocar a sua terra”.
Na Citricultura aconteceu um processo semelhante. Só que de repente a extratora de suco acabou adquirindo muita terra e dependendo pouco daquele produtor histórico. Isso não pode acontecer com o produtor da cana?
“É o que havia acontecido e que a gente luta para reverter. Porque até 1960, antes desse acordo de reciprocidade, existia a lei Nº 4.870 que estabelecia: do total da produção de açúcar e álcool das usinas, 40% desse resultado teria que ser produzido com cana de fornecedor. A lei previa isso exatamente para evitar que tudo ficasse concentrado na mão do mais forte. Era uma espécie de reforma agrária porque, com o tempo, a minha visão é que as usinas foram sufocando o produtor.
Ainda agora, dentro da realidade que se apresenta, acho que a lei deveria assegurar isso ao proprietário rural: os 40% da produção total. O resto (60%) pode ser de uma cana de propriedade da usina, a fim de equilibrar a relação e não permitir que o maior engula o menor”, defende o presidente José Carlos Teixeira.