A vaca bailarina

João Baptista Galhardo

No início da adolescência eu freqüentava aos sábados à noite, com dois ou três amigos, o Cine Paratodos. Era considerado o cinema brega da época. Tanto é que os jovens da classe média e alta só eram vistos no Cine Odeon, depois Veneza, hoje uma Igreja. No Paratodos assistíamos um drama ou comédia, um faroeste e um capítulo do seriado da época. O melhor foi do Capitão Marvel. Quem se considerava chique não ultrapassava a avenida Portugal. A não ser para feqüentar o bar do Hotel Municipal. E os bregas dificilmente subiam a rua São Bento. A sessão terminava tarde. Depois íamos para casa comentando os filmes e prognosticando a continuação do seriado. Morávamos longe. Richard Bach escreveu “Longe é um lugar que não existe”, com certeza, porque não sabia onde eu morava. Endereço fácil: última casa da última rua. A moradia mais perto distanciava mais de quarteirão. De comércio havia apenas o boteco do senhor Gonçalo. Ali vendia mortadela fatiada por faca, cigarros avulsos, café em grão verde, lingüiça cabo de relho também conhecida por mágica. Levada ao fogo ela desaparecia com o incêndio de sua capa de plástico e seu robusto recheio de sebo, gordura e alguma carne moída. Gonçalo vendia, também, leite na garrafa, tirado na hora de suas vacas criadas soltas na redondeza com terrenos cobertos de mato, inclusive grama e capim. Para que elas não se distanciassem de seu bar, ele colocava nos dois pés da frente, uma curta corrente, dificultando a locomoção. Uma delas, mocha e mansa, ao andar, dava um passo para frente, dois para a esquerda, outro para frente e dois para a direita, num verdadeiro ensaio de bolero. Eu achava graça no seu gingar. Por isso dei-lhe o nome de “bailarina”. Aos sábados quem se aprontasse primeiro passaria pela casa dos amigos: o Dorival, o Quino e o Nicão. A residência do Dorival não tinha energia elétrica. Quando passávamos pela casa dele, a espera era longa. Com brilhantina no cabelo, trazia para perto do rosto, um espelho de mão e uma lamparina de pavio e querosene. A fumaça pretejava o espelho e ele não conseguia se pentear. Distanciava a lamparina, não enxergava por causa do escuro. E assim se irritava com sua mãe, uma senhora de um dente só, cabelos longos brancos e pretos. Uma bruxa perfeita, se não soubéssemos a bondade daquele coração. Ele acabava desistindo. No primeiro poste com iluminação ele tirava do bolso um pente e nós dirigíamos o ajuste do seu cabelo. Num sábado aconteceu o que não podia acontecer. Pedi para minha mãe que aprontasse a minha melhor camisa para ir ao cinema. A azul. Aquela que já sabia o caminho do Cine Paratodos. Minha mãe lavou, torceu e pendurou no varal feito de arame esticado com uma ponta amarrada na goiabeira e a outra na amoreira. Depois acabaria de secá-la no ferro à brasa. O quintal era cercado por pés de pinhão, com uma entrada permanentemente aberta. E eu aguardando a camisa para vestir. De repente olho para o varal e vejo a intrusa “bailarina” comendo minha camisa que ela puxara de onde estava. Travei a luta mais ferrenha da minha infância. Puxei de sua boca a roupa que ela ironicamente já mastigara mais de um terço. Com a mão esquerda eu puxava e com a direita socava-lhe a cara. Eu atraía para frente e ela para trás. É claro que a vaca venceu e foi embora mascando minha camisa preferida. Mas com o olho vermelho de tanto apanhar. À noite a consciência me defendia “você agiu em legitima defesa de seu patrimônio. A agressão era atual. Defendeu-se usando dos meios necessários e moderadamente”. A vaca seria condenada se levada às barras do Tribunal. Furto tipificado. Ao mesmo tempo me dizia que ela não tinha capacidade de entender o caráter criminoso do seu ato. No dia seguinte apareci na rua de chão batido. A vaca me viu de longe. Saiu às pressas mesmo com o obstáculo da corrente. De repente, a leiteira holandesa parou, olhou para trás e me xingou em inglês: fuck you. Não deixei por menos: vá você sua vaca safada, ladrona.

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