João Baptista Galhardo (*)
O casamento do Pité com Clarinha, não andava bem das pernas, antes mesmo de completar cinco anos. Clarinha revelou-se uma chata consumista. Pité era securitário. Ganhava por comissão. Trabalhava bastante. O dia que permanecia mais tempo no escritório, a esposa cheirava-lhe a boca para saber se ele havia parado em algum bar com amigos. Como não sentia cheiro algum, colocava-o sob suspeita de ter outra mulher. O marido ganhando pouco e ela gastando muito. Finanças abaladas. Como a conta era conjunta, ela mantinha o saldo no vermelho, pagando altos juros bancários. Gastava em coisas supérfluas: cremes caros para as mãos, creme para os pés, creme para prevenção de rugas, fibras de todos os tipos, para colesterol, para celulite, para o fígado, para o intestino, gel emagrecedor, aparelhos para massagear as costas, etc. Era chegada em dar chequinhos pré datados. As sacoleiras tinham nela uma compradora certa para qualquer bugiganga. Quando o marido lhe falava para fazer economia, virava as costas, se fazia de surda ou comparava com suas amigas de maior poder aquisitivo. Perguntando sobre o que comer, ela respondia rispidamente “o que está sobre o fogão. Se já esfriou esquenta no microondas”. Se ameaçasse mudar o canal da televisão, ela gritava para deixar na novela, que também não assistia porque nessa altura já passara no rosto uma mascara branca, mistura de pasta d’água com as tranqueiras que ela comprava, bobs no cabelo e rodelas de batata sobre os olhos. Dizia que tirava olheiras. Assim, ela ouvia a novela. Não assistia. Uma belezura de espantalho. Recados de telefone não dava nem anotava. A casa não tinha bina para registrar chamadas. Dizia “telefonaram para você. Disseram que era urgente”. Quem?”Não sei, não disse o nome nem deixou o número. Se for urgente vai ligar de novo”. Com esse clima o casamento foi esfriando. O marido, por culpa dela, já não lhe tinha qualquer atração. E por analogia com nenhuma outra mulher. Mas ela importunava, acusando-o de ter amante.
Um dia Pité foi ao Shopping, sozinho para esfriar a cabeça e passando por uma loja de bichos viu a oferta de uma rã por dois mil reais. Por curiosidade quis saber por que um anfíbio anuro tinha aquele preço tão alto. O dono da loja pegando a rã, muito bonita, verde-oliváceo, com manchas na parte posterior e nas pernas dianteiras, olhos pretos saltados para fora, ventre geladinho, explicou ao curioso Pité que era adestrada, que aprendera a viver fora de lagos, rios ou pantanais e que era super carinhosa com os seres humanos. Você pode tê-la como animal de estimação. Pité comprou a rã. Pagou no cartão de crédito. O dono orientou: – ela gosta de ficar no ombro da pessoa, principalmente do sexo masculino. Levou-a para o escritório e colocou-a, como recomendado, no ombro. A rã se locomoveu logo para a nuca do Pité e com as pernas (ou mãos?) dianteiras começou a massagear o pescoço, fazendo um cafuné no seu novo proprietário, arrancando-lhe arrepios. De vez em quando a rã mordia-lhe carinhosamente as orelhas, passando aquela língua comprida sobre elas. Descia até a coluna e quando estavam a sós ela se enfiava por dentro da roupa do Pité, passeando da cabeça aos pés, por todas as partes do corpo, demorando mais em algumas delas. Quem perguntasse sobre rã, inventava que se tratava de uma simpatia indiana para curar estresse, como realmente curou. Com a rã ao seu lado Pité andava leve e solto. Levava para passear de carro. Ela fazia questão de ir na janelinha, grudada no vidro vendo o movimento da rua. Ia com ele ao cinema. Dividiam a mesma pipoca. Em casa acomodava Rãmor, nome que lhe deu, num belo recipiente de argila com pouco d’água para não esquecer o seu habitat natural. Quando o dia amanhecia ela pulava até o quarto do casal para acordá-lo. A rã participava do café. Aprendera a gostar de sucrilhos. Era sua primeira refeição. Em seguida, a mesma rotina, de carro para o Escritório. A Clarinha já estava a ponto de colocar a rã sob as rodas de qualquer veículo, mas sabia o tamanho da encrenca que arrumaria. Um dia a mulher acordou de madrugada e verificou que o marido não estava na cama. Atraída por vozes foi até a cozinha e encontrou o Pite só de cuecas, sentando numa cadeira, com um livro aberto no colo. A rã no seu ombro esquerdo acarinhando o lóbulo de sua orelha. E cada palavra que o Pité falava a rã olhava para o livro e para ele, como se estivesse entendendo tudo. Clarinha indignada gritou : “Está louco?O que é que você está lendo para ela?” Pité respondeu: “são receitas da Ana Maria Braga, porque se ela aprender a cozinhar você está fora desta casa”.