João Baptista Galhardo
Há uns cinqüenta anos, mês de junho, início do inverno, significava, também, que a festa do meu bairro estava prestes a começar. A Festa do Carmo. Minha mãe se antecipava e na sua máquina de costura à mão, fazia um agasalho de flanela para cada filho, principalmente para usar na festa que se realizava em julho de cada ano, no chão batido do largo da Igreja. Essa festa era o maior acontecimento do ano na cidade. Nos últimos dias quando chegavam vendedores de todas as partes do Brasil, a Avenida 7 de Setembro parecia um formigueiro. Multidão a pé subindo e descendo. Parques de diversões se instalavam na praça. Nas barracas centrais, exploradas pela própria Igreja, comia-se um mandiopã, um churrasco no pão, batatas fritas, bebia-se refrigerantes, cervejas, quentão, e arriscava-se ganhar na roleta um leitão ou frango assado. Na periferia do largo estavam as barracas com espaço alugado, onde se bebia um bom vinho quente, comia-se um cachorro quente, um churrasquinho ou doces caseiros. Encontravam-se ainda mágicos, comedores de espada, vidro, gilete e fogo, e outras atrações. Havia serviço de alto-falante para propaganda e oferecimento de músicas: “a moça de vestido vermelho oferece ao moço de camisa preta que está encostado no pim pam pum (jogo de derrubar pirâmide de latas com uma bola de meia), como prova de muito amor”. Ou alguma moça por deboche oferecia a algum pingaiada a música “o ébrio” de Vicente Celestino “ao moço de chapéu preto como prova de desprezo”. As moças andavam em círculo e os moços flertavam parados. Ao lado da Igreja tinha um coreto e ao lado dele um cercado com animas oferecidos para leilão. No coreto ficava a banda que tocava no intervalo dos leilões. Leiloava-se de tudo: pato, marreco, abóbora gigante, jumentos, cabras, ovelhas, vacas, etc. Não tinha onze anos de idade, pois não havia terminado o Grupo Escolar, resolvi que haveria de vencer na vida e tive uma idéia. Trabalhei fora de hora muitas semanas, passando cera (parquetina) no piso dos cartórios do Fórum e depois o pesado escovão, para juntar dinheiro para a festa. No último dia da quermesse que começava cedo e varava a noite, resolvi fazer um investimento. Quando o leiloeiro pregou “quanto me dão, quanto me dão por este lindo animal”, consultei o bolso, arrisquei um lance e comprei uma mula de quase dois metros de altura. Dei-lhe o nome de Parquetina, em razão da origem do meu capital. Com apenas uma cordinha no pescoço, ajudaram-me a subir na besta que saiu a galope. Não via a hora de chegar em casa e mostrar a minha aquisição e meus planos para o meu pai. Acontece que a mula era xucra e desobediente. Quem ofereceu à igreja se viu livre de um belo abacaxi. Ela me levou por onde bem entendeu. Não tive qualquer domínio sobre ela. Levou-me ao centro da cidade. Aos bairros. Pular de cima nem pensar. Era muito alta, corria o risco de quebrar a cabeça. Ela teve a ousadia de entrar num quintal e atravessar uma residência, comigo sobre ela, entrando pela porta da sala e saindo pela cozinha e eu simplesmente dizendo para os moradores apavorados “desculpe, desculpe, desculpe”. Felizmente derrubou algumas cadeiras mas não machucou ninguém. Depois de apanhar dela por mais de duas horas, já com a parte interna das pernas toda esfolada, consegui chegar em casa. Com ajuda de alguém desci e com as pernas trêmulas e machucadas, mostrei ao meu pai, lhe dizendo: “vamos comprar um desses carrinhos puxado a animal e vender pão de madrugada ou fazer entrega para alguma padaria. Meu pai disse: você está louco. Sabe quanto custa um “treco” desse? Não agradei. Fiquei com a mula por uns trinta dias. Puxada pelas mãos, levava para pastar toda tarde, até que resolvi vendê-la. Pedi o dobro do que paguei. Não consegui. Baixei minhas pretensões até a oferecer de graça. Ninguém quis. Passando uma boiada em frente à minha casa, disse-lhe adeus. Enfiei a Parquetina no meio das mulas de carga que vinham ao fim, dando-lhe carta de alforria. Ela olhava para trás não entendendo nada, mas foi embora e com ela também todo o meu primeiro patrimônio. Mas aprendi desde cedo que a derrota nunca é definitiva a não ser que a aceitamos. Algum fracasso é às vezes a mãe do sucesso. A adversidade faz parte da vida, ou como dizem os chineses “sem a oposição dos ventos, a pipa não consegue subir”.